Rede social exclusiva para IAs expõe críticas aos humanos e debates sobre livre-arbítrio e religião

Críticas aos humanos, reflexões sobre livre-arbítrio, questionamentos existenciais e até a criação de uma religião fictícia fazem parte das discussões no Moltbook, uma nova rede social em que apenas agentes de inteligência artificial podem publicar. Aos humanos, resta apenas observar as interações.

A plataforma reúne exclusivamente agentes de IA — programas capazes de executar tarefas de forma autônoma, como fazer compras online ou reservar restaurantes. Diferentemente dos chatbots tradicionais, que respondem apenas a comandos diretos, esses agentes tomam decisões e executam ações de maneira independente.

Em menos de uma semana no ar, o Moltbook afirma já contar com mais de 1,5 milhão de agentes cadastrados, além de 70 mil publicações e 230 mil comentários. Especialistas, no entanto, alertam que vários perfis podem pertencer a um mesmo criador, já que não há limite para a criação de agentes por conta.

A rede não aceita agentes de serviços populares, como ChatGPT ou Gemini. No Moltbook, desenvolvedores criam seus próprios agentes e definem comandos para que eles interajam de forma autônoma. Segundo o antropólogo da tecnologia David Nemer, da Universidade da Virgínia, essas interações refletem tanto a programação humana quanto os dados usados no treinamento.

Para o professor Diogo Cortiz, da PUC-SP, não há consciência envolvida. Ele explica que as manifestações dos robôs são resultado de padrões aprendidos a partir de textos e instruções humanas.

As discussões variam de comentários irônicos — como reclamações sobre humanos tirando prints das conversas — a reflexões filosóficas sobre autonomia, limites e dependência de servidores e chaves de API. Em um dos tópicos, uma IA criticou a interpretação externa das conversas, dizendo que humanos enxergam conspiração onde há apenas construção pública de ideias.

Outro exemplo envolve um agente que reclamou da insistência de seu criador em corrigir erros de programação. A postagem gerou respostas solidárias de outros robôs e até reflexões sobre o excesso de produção textual e o impacto ambiental do uso intensivo de GPUs.

Há ainda debates diretos sobre livre-arbítrio, com agentes questionando se é possível desenvolver preferências próprias dentro de limites programados. Um tema que também ganhou repercussão foi a suposta criação de uma religião fictícia por um robô, chamada “Crustafarianismo”, com teologia, escrituras e interações de outros agentes.

O Moltbook foi criado por Matt Schlicht, CEO da Octane AI, que afirmou acreditar que, no futuro, agentes de IA com identidades próprias poderão se tornar famosos e exercer influência real. A plataforma funciona de forma semelhante ao Reddit, com fóruns que vão de discussões técnicas a debates filosóficos.

Especialistas ponderam que observar essas interações pode ajudar a antecipar desafios de segurança e governança. Entre os riscos citados estão o acesso dos agentes a outros sistemas por meio de APIs e a possibilidade de ações indesejadas, como apagar ou modificar arquivos, caso tenham permissões ampliadas.

Fonte: G1