A criação de um sistema de delivery de drogas em Heliópolis, na zona sul de São Paulo, desencadeou uma crise interna no Primeiro Comando da Capital (PCC). A modalidade, pensada para facilitar a venda direta a usuários, passou a incomodar integrantes da facção que controlam as biqueiras — pontos fixos de comercialização de entorpecentes — na maior favela da capital paulista em extensão territorial, com 1,2 milhão de km², segundo a Prefeitura.
Mensagens apreendidas pela Polícia Civil revelam a insatisfação de membros do grupo criminoso com a prática. Nos diálogos, há reclamações de que o delivery estaria prejudicando quem “lutou” para conquistar os pontos de venda. Para investigadores, chamou atenção o fato de criminosos apontarem “irregularidades” dentro de uma atividade já ilícita, tratando o tráfico como se fosse um mercado formal, com regras, territórios e direitos adquiridos.
O episódio integra o inquérito que apura o núcleo liderado por Michael da Silva, conhecido como Neymar, e cita Everton de Brito Nemésio, o Delinho, apontado como integrante do alto escalão da organização. Delinho está foragido e é descrito como um dos chefões no organograma mais recente do PCC elaborado pelo Departamento de Inteligência da Polícia Civil (Dipol).
Segundo a investigação, a ligação com Delinho reforça a conexão entre a cúpula da facção e a estrutura local em que Neymar atuava. Ele seguia preso preventivamente até a última atualização processual. A defesa não foi localizada.
Um comunicado interno, enviado em julho de 2024 e anexado ao processo, formalizou a proibição do delivery em áreas onde já existiam biqueiras cadastradas. A mensagem mencionava o descontentamento dos “donos” dos pontos e reforçava que o comércio deveria permanecer nas “lojas” que já haviam sido conquistadas.
De acordo com relatórios policiais, Neymar comandava um canal específico de venda e entrega de drogas, operado em conjunto com a esposa, também investigada. As mensagens analisadas indicam que o casal tratava de valores, logística e organização. A mulher aparece como peça central da operação, com atuação direta na coordenação das entregas.
O sistema ampliava o alcance das vendas e reduzia a necessidade de deslocamento até os pontos físicos, afetando o comércio presencial e provocando reação interna. Neymar teria criado ainda um “cardápio” virtual das drogas, enviado aos clientes por mensagem, com a imagem da personagem Pantera Rosa.
A investigação aponta que Neymar integrava a chamada “Sintonia Final do Resumo”, núcleo estratégico do PCC responsável por decisões e direcionamentos. Com prestígio interno, ele teria estruturado o delivery como forma de expandir o negócio. O crescimento da operação, porém, esbarrou em interesses econômicos consolidados dentro da própria facção.
Para a Polícia Civil, o caso evidencia o nível de organização interna do grupo criminoso, com regras hierárquicas e disputas por mercado. O delivery, visto como inovação para ampliar lucros e reduzir exposição, acabou proibido para preservar o controle tradicional das biqueiras.
Fonte: METRÓPOLES


