Trend violenta no TikTok revolta redes e levanta alerta em meio a recorde de feminicídios no Brasil

Uma trend que circula no TikTok com a frase “treinando caso ela diga não” passou a gerar forte repercussão nas redes sociais nas últimas semanas. Nos vídeos, criadores simulam situações de abordagem romântica, como pedidos de namoro ou casamento. Em seguida, surge a frase na tela e os autores encenam reações agressivas diante da possibilidade de rejeição.

As simulações incluem socos em objetos, movimentos de luta e até encenações com faca. O g1 analisou 20 vídeos publicados entre 2023 e 2025, produzidos por perfis com 883 até 177 mil seguidores. Juntos, os conteúdos acumulam mais de 175 mil interações na plataforma.

Diante da repercussão, a Polícia Federal derrubou perfis e abriu inquérito para investigar os vídeos que simulam violência contra mulheres. Após a publicação da reportagem, o TikTok informou que o conteúdo viola as Diretrizes da Comunidade e que os vídeos foram removidos assim que identificados.

A circulação desse tipo de conteúdo ocorre em um contexto de aumento da violência contra mulheres no Brasil. Em 2025, o país registrou 1.470 feminicídios, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública — o maior número da série histórica. Em média, quatro mulheres foram assassinadas por dia no país no último ano.

A pesquisadora Raquel Saraiva, presidente do Instituto de Pesquisa em Direito e Tecnologia do Recife (IP.rec), afirma que conteúdos desse tipo tendem a se espalhar rapidamente nas redes. Segundo ela, vídeos virais costumam gerar mais engajamento do que conteúdos educativos que tentam explicar por que determinados comportamentos configuram violência.

Embora as próprias regras das plataformas proíbam conteúdos que incentivem agressões, a especialista afirma que a fiscalização nem sempre ocorre de forma eficiente, permitindo que publicações permaneçam no ar por períodos prolongados.

Casos recentes ilustram o cenário de violência. No Rio de Janeiro, uma jovem de 20 anos foi esfaqueada mais de 15 vezes dentro de casa por um homem que insistia em namorá-la e não aceitou a rejeição. Ela sobreviveu após quase um mês internada.

Em Pernambuco, uma mulher de 22 anos foi esfaqueada e teve o corpo incendiado por um ex-colega de trabalho depois de recusar um relacionamento. Segundo familiares, o agressor já demonstrava interesse e reagiu de forma violenta após a rejeição.

Já em Minas Gerais, uma mulher de 38 anos morreu após ser atacada com golpes de canivete por um jovem que tentou forçar um beijo durante a negociação de um celular. De acordo com a polícia, o suspeito afirmou que teve um “branco” após a recusa da vítima.

Fonte: G1