O inquérito policial que investiga a morte da policial militar Gisele Alves Santana, ocorrida em 18 de fevereiro, revela que o marido dela, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, reclamava da vida sexual do casal e exigia relações sob o argumento de ser o “provedor” da casa. O oficial está preso desde a última quarta-feira (18/3), apontado como principal suspeito de ter matado a esposa com um tiro na cabeça.
Mensagens obtidas pela investigação mostram que o tenente-coronel afirmava não ter “vida sexual ativa” porque a esposa dedicava tempo à filha de sete anos. Em outra conversa, ele declarou que o casamento seria uma “via de mão dupla” e que, enquanto contribuía financeiramente, a mulher deveria retribuir com “carinho, atenção, amor e sexo”.
Gisele rejeitou a alegação e afirmou que não trocaria relações sexuais por moradia, sugerindo a separação. Em outro momento, o oficial mencionou que pretendia levá-la para jantar para “fazer amor” depois.
Um laudo pericial realizado após a exumação do corpo apontou que o casal manteve relação sexual pouco antes do crime. A soldado foi encontrada gravemente ferida dentro do apartamento onde vivia com o marido, no Brás, região central de São Paulo, sendo socorrida ao Hospital das Clínicas, onde morreu horas depois em decorrência de traumatismo cranioencefálico causado por disparo de arma de fogo.
Inicialmente tratado como suicídio, o caso passou a ser investigado como morte suspeita após análises periciais indicarem que a dinâmica do disparo não correspondia à hipótese inicial. A Justiça de São Paulo aceitou denúncia do Ministério Público e tornou o tenente-coronel réu por feminicídio qualificado e fraude processual, sob acusação de ter alterado a cena do crime para induzir a investigação ao erro.
A denúncia apresentada pelas promotoras Ingrid Maria Bertolino Braido e Daniela Romanelli da Silva cita comportamento “machista, agressivo, possessivo, manipulador e autoritário” do oficial. Em mensagens atribuídas a ele, o tenente-coronel afirma tratar a esposa com “autoridade de macho alfa provedor e fêmea beta obediente e submissa”, além de se autointitular “rei” e “mais que um príncipe”.
Depoimentos de colegas de trabalho da policial também relatam episódios de controle e violência. Segundo testemunhas, Gisele dizia se sentir sufocada pelo marido, considerado extremamente ciumento. Ela teria afirmado que “iria para o tudo ou nada” caso algo acontecesse. Amigos relataram ainda que a soldado questionou se o oficial teria coragem de matá-la dias antes do crime.
Os relatos incluem acusações de que o tenente-coronel se escalava no mesmo horário de trabalho da esposa para vigiá-la e a colocava como auxiliar em sua viatura. Em situações em que apenas ela era escalada, ele teria pago para que não trabalhasse. Testemunhas também descreveram uma discussão no quartel em que a policial foi enforcada e pressionada contra a parede.
A investigação aponta ainda controle sobre redes sociais, proibição de uso de maquiagem e perfume em casa e episódios em que o oficial aparecia de surpresa no local de trabalho da vítima para monitorá-la. Colegas afirmaram que a filha do casal, de sete anos, teria perdido peso e apresentado episódios de enurese noturna após passar a conviver com o padrasto.
Outro ponto considerado relevante é o comportamento do oficial após o disparo. Imagens de câmeras corporais registraram discussão com policiais de menor patente quando ele tentou entrar no apartamento e tomar banho antes de ser conduzido à delegacia, o que levantou temor sobre possível destruição de vestígios. A investigação também cita a realização de diversas ligações antes do acionamento do socorro.
Com base nas análises técnicas e na reconstituição da dinâmica dos fatos, a Polícia Civil solicitou a prisão preventiva do oficial em 17 de março. A Justiça Militar decretou a medida no dia seguinte, e o tenente-coronel foi preso em um condomínio residencial de São José dos Campos, no Vale do Paraíba.
O processo segue em andamento, enquanto a defesa sustenta a versão de que a policial teria cometido suicídio, hipótese contestada pelas investigações.
Fonte: METRÓPOLES


