Depoimentos apontam possível omissão de ex-comandante da PM de SP em casos ligados ao PCC

Novos depoimentos colhidos pela Corregedoria da Polícia Militar de São Paulo reforçam suspeitas de omissão e possível proteção por parte do ex-comandante-geral da corporação, tenente-coronel José Augusto Coutinho, em relação a policiais investigados por vínculos com o Primeiro Comando da Capital (PCC).

Um dos relatos centrais é do promotor Lincoln Gakiya, do Gaeco, que atua há mais de duas décadas no combate à facção criminosa. Em depoimento, ele detalhou vazamentos de operações sigilosas, como a Operação Sharks, em 2020, quando informações teriam sido repassadas à cúpula do PCC, permitindo a fuga de alvos monitorados, entre eles Marcos Roberto de Almeida, o “Tuta”.

Segundo Gakiya, ele comunicou diretamente Coutinho sobre a suspeita de envolvimento de policiais da Rota nos vazamentos e também alertou sobre a prática de “bicos” — atividade ilegal — realizados por agentes para empresas de ônibus ligadas ao crime organizado. Apesar disso, conforme ofício do Ministério Público Militar, não há registro de medidas correcionais adotadas pelo então comandante.

As suspeitas também são reforçadas por depoimento do sargento Alexandre Aleixo Romano Cezário, preso por atuar na segurança privada de dirigentes da empresa Transwolff, investigada por ligação com o PCC. Ele afirmou que Coutinho tinha conhecimento da prática e teria permitido sua permanência na Rota, mesmo diante das irregularidades.

A Transwolff é alvo da Operação Fim de Linha, que apura crimes como lavagem de dinheiro, fraude em licitações e organização criminosa. Segundo as investigações, o esquema utilizava “laranjas” e empresas de fachada para ocultar recursos ilícitos.

Além disso, delações e investigações apontam que policiais da Rota teriam atuado na escolta de integrantes da facção, incluindo nomes relevantes do PCC. Parte dessas informações foi citada pelo empresário Antonio Vinicius Gritzbach, conhecido como “delator do PCC”, morto em 2024.

Diante dos elementos, a Promotoria Militar avalia que Coutinho pode ter incorrido em crimes como prevaricação, por eventual omissão diante de irregularidades. O oficial deixou o comando da PM na última quarta-feira (15) e pediu passagem para a reserva.

Em nota, a defesa do coronel afirma que não teve acesso aos autos e que a simples citação em investigações não implica responsabilidade. A Polícia Militar declarou que não comenta casos sob sigilo, mas reforçou o compromisso com a apuração rigorosa de desvios.

A saída de Coutinho ocorre em meio a mudanças na cúpula da segurança pública paulista. A coronel Glauce Anselmo Cavalli assumiu o comando da PM — sendo a primeira mulher a ocupar o cargo em quase 200 anos de história da corporação.

Fonte: G1