As chamadas “terras raras” transformaram o Brasil em peça estratégica na disputa global entre Estados Unidos e China por tecnologia, energia limpa e soberania industrial.
O tema ganhou força nesta quinta-feira (7), durante a reunião entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente norte-americano Donald Trump, em meio à crescente “guerra fria” comercial envolvendo minerais estratégicos.
Apesar do nome, terras raras não são exatamente terras e tampouco tão raras assim. O grupo reúne elementos químicos como neodímio, praseodímio, disprósio e térbio, fundamentais para fabricação de carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, chips, satélites, drones, equipamentos militares e sistemas de inteligência artificial.
Especialistas explicam que esses minerais funcionam como “vitaminas da indústria tecnológica”, já que pequenas quantidades garantem desempenho extremamente elevado em aparelhos modernos.
O Brasil possui a segunda maior reserva mundial desses minerais e concentra jazidas estratégicas em regiões de Minas Gerais e Goiás, especialmente no chamado Cinturão de Araxá-Catalão.
Além das reservas tradicionais, o país também descobriu depósitos em argilas iônicas, consideradas mais fáceis e baratas de explorar.
O problema é que o Brasil ainda não domina plenamente a etapa mais lucrativa do processo: o refino e processamento industrial. Hoje, a China controla cerca de 90% do processamento mundial de terras raras, transformando o país asiático na principal potência do setor.
Na prática, isso significa que o Ocidente depende das refinarias chinesas para transformar o minério bruto em componentes utilizáveis pela indústria de alta tecnologia.
Essa dependência aumentou a tensão entre Washington e Pequim. Os Estados Unidos tentam reduzir a influência chinesa e buscam novos parceiros estratégicos — e o Brasil virou alvo prioritário dessa corrida.
Nos bastidores, o governo Trump quer garantir acesso rápido aos minerais brasileiros para abastecer setores como defesa, semicondutores e carros elétricos. Já o governo Lula tenta evitar acordos considerados excessivamente vantajosos aos americanos e insiste na defesa da soberania nacional sobre o subsolo brasileiro.
A estratégia brasileira é impedir que o país continue apenas exportando matéria-prima barata enquanto importa produtos tecnológicos de alto valor agregado.
Além da disputa econômica, especialistas alertam para o alto custo ambiental da exploração desses minerais. O processamento exige uso intenso de substâncias químicas, gera resíduos tóxicos e radioativos e pode provocar contaminação do solo e da água.
Outro desafio envolve a complexidade técnica da separação dos elementos. Como possuem propriedades químicas muito semelhantes, o refino exige centenas de etapas industriais e investimentos bilionários em tecnologia.
Na véspera da reunião entre Lula e Trump, a Câmara dos Deputados aprovou em regime de urgência a criação da Política Nacional para Exploração de Minerais Críticos. O projeto prevê um fundo de até R$ 5 bilhões para incentivar empresas que tragam tecnologia de transformação ao Brasil.
O objetivo do governo é usar as terras raras como instrumento estratégico para fortalecer a indústria nacional e ampliar o peso geopolítico brasileiro na disputa global entre Estados Unidos e China.
Fonte: G1


