Lula deixa G7 entre atritos com Trump, diálogo com a UE e aproximação da Ucrânia

Presidente brasileiro encerrou participação na cúpula do G7 com troca de críticas ao presidente dos Estados Unidos, avanços em negociações internacionais e defesa da soberania brasileira.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva encerrou nesta quarta-feira (17) sua participação na cúpula do G7, realizada em Évian-les-Bains, na França, em meio a encontros diplomáticos, divergências com os Estados Unidos e negociações com a União Europeia, Ucrânia e Japão. Esta foi a décima vez que Lula participou do fórum como convidado.

Durante a cúpula, o presidente brasileiro realizou reuniões reservadas com líderes do Japão, Egito, Ucrânia, França, União Europeia, Suíça e com o secretário-geral da Interpol, Valdecy Urquiza. Lula também teve contato com os demais chefes de Estado presentes, incluindo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A expectativa em torno da relação entre Lula e Trump era grande diante das tensões envolvendo a possibilidade de novas tarifas sobre produtos brasileiros e da intenção do governo norte-americano de classificar facções criminosas brasileiras como organizações terroristas.

Nos corredores do evento, Trump cumprimentou Lula e disse, em inglês, “Tudo bem? Bom trabalho”. No entanto, após o encerramento da cúpula, os dois trocaram críticas durante entrevistas separadas.

Trump afirmou que o Brasil se tornou “perigoso do ponto de vista político” e citou a condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro pelo Supremo Tribunal Federal. Eduardo foi condenado por coação no curso do processo após ser acusado de articular, nos Estados Unidos, retaliações contra autoridades brasileiras para tentar impedir o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Lula respondeu defendendo a soberania nacional e afirmou que Trump pode manter sua preferência política, mas não deve interferir nas eleições brasileiras.

“Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania.”

“Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil.”

Apesar das divergências, o Palácio do Planalto informou que as negociações comerciais entre Brasil e Estados Unidos continuam por meio de canais diplomáticos. Lula afirmou que não solicitou reunião bilateral com Trump porque os temas estão sendo tratados por técnicos e diplomatas, acrescentando que poderá conversar diretamente com o presidente americano caso as negociações não avancem.

Outro encontro de destaque foi com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Lula classificou a reunião como a melhor que já teve com o líder ucraniano e afirmou ter percebido maior disposição para buscar uma solução para a guerra.

“Pela primeira vez, senti Zelensky com disposição de encontrar solução. Ajudarei no que puder”, declarou.

O presidente brasileiro também informou que pretende entrar em contato com os cinco membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU — China, Rússia, Estados Unidos, França e Reino Unido — para defender maior atuação em busca da paz. Zelensky afirmou nas redes sociais que teve uma boa reunião com Lula e que ambos concordaram em manter novos contatos.

Na agenda com a União Europeia, Lula se reuniu com Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu. O principal tema foi a decisão do bloco europeu de proibir, a partir de 3 de setembro, a importação de carnes, tripas, peixes e mel produzidos no Brasil por questões sanitárias.

Embora o veto tenha sido mantido, Brasil e União Europeia decidiram intensificar o acompanhamento político das negociações sobre padrões fitossanitários e também das discussões envolvendo exportações de produtos siderúrgicos.

Von der Leyen afirmou que Europa e Brasil compartilham uma visão semelhante sobre o cenário internacional e destacou que o acordo entre União Europeia e Mercosul, em vigor de forma provisória desde maio, representa apenas o início da parceria.

Ao final da cúpula, o Brasil aderiu a apenas três das oito declarações abertas aos países convidados. Os documentos assinados tratam do combate ao câncer, da proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital e do enfrentamento ao tráfico de drogas.

Segundo fontes do governo, a baixa adesão reflete diferenças de posicionamento entre o Brasil e os países do G7 em temas como mineração, economia global e relações com a China. Lula também criticou o formato das reuniões e afirmou que muitos documentos já chegam prontos aos países convidados.

O presidente voltou a defender a parceria com a China e afirmou que o país asiático tem ampliado investimentos em desenvolvimento com condições consideradas mais favoráveis.

“Não podem se queixar que a China está ocupando espaço se o espaço estava vazio”, declarou.

À margem da cúpula, Lula também se reuniu com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi. Após o encontro, Mercosul e Japão anunciaram o lançamento formal das negociações para um acordo de parceria econômica, cuja abertura oficial está prevista para a 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, no fim de junho, em Assunção, no Paraguai.

Fonte: G1