Interrupções obrigatórias adotadas pela FIFA geram debate sobre necessidade, influência tática e impacto no ritmo das partidas.
As pausas obrigatórias para hidratação implantadas pela FIFA em todos os jogos da Copa do Mundo de 2026 se tornaram um dos principais temas de debate do torneio. A medida foi anunciada para preservar a saúde dos atletas durante o verão da América do Norte, onde algumas sedes registram temperaturas próximas dos 40°C. No entanto, antes mesmo de duas semanas de competição, a regra passou a ser alvo de críticas de jogadores, treinadores, analistas e torcedores.
O primeiro questionamento envolve a necessidade das interrupções em todas as partidas. Algumas sedes contam com estádios climatizados, como Houston e Dallas, enquanto cidades canadenses registraram temperaturas amenas durante o torneio.
Um dos exemplos citados foi a partida entre Gana e Panamá, disputada em 17 de junho, em Toronto. Segundo o AccuWeather, a cidade teve temperaturas entre 13°C e 21°C. O clima foi tão frio que o atacante panamenho Cecilio Waterman atuou utilizando mangas longas.
Outro ponto criticado é o aspecto comercial da medida. Cada partida passou a contar com cerca de seis minutos extras destinados à publicidade. Em uma Copa do Mundo com 104 jogos, isso representa mais de dez horas adicionais de espaço comercial. De acordo com estimativas citadas pela Al Jazeera, as interrupções podem gerar mais de US$ 250 milhões em receitas publicitárias apenas nas partidas disputadas nos Estados Unidos.
O lateral canadense Alistair Johnston criticou o formato após a vitória sobre o Catar.
“A pausa para hidratação virou uma pausa comercial. Provavelmente está fazendo a FIFA ganhar mais dinheiro.”
O capitão da seleção da Holanda, Virgil van Dijk, também defendeu que as pausas sejam aplicadas apenas quando houver necessidade climática.
“Se estiver realmente quente, obviamente isso é bom. Mas acho que você tem de olhar para cada jogo separadamente. Toda vez que a transmissão vai para os comerciais é algo de que eu não gosto. Para quem está assistindo pela televisão também não é legal.”
Além do aspecto comercial, as interrupções passaram a influenciar diretamente a parte tática das partidas. Antes da nova regra, ajustes mais profundos normalmente aconteciam apenas no intervalo. Agora, os treinadores ganharam dois momentos adicionais para reorganizar posicionamentos, corrigir problemas e orientar seus jogadores durante cada tempo.
Levantamento da Driblab apontou que 78,6% das pausas registradas nas primeiras 28 partidas alteraram o fluxo dos jogos. Das 56 interrupções analisadas, 24 resultaram em mudanças na tendência das partidas após o reinício.
Os confrontos entre Inglaterra e Croácia e Brasil e Marrocos foram citados como exemplos de equipes que conseguiram reorganizar seus sistemas durante as pausas, equilibrando jogos em que enfrentavam dificuldades.
A novidade também divide treinadores. Didier Deschamps criticou as interrupções por quebrarem o ritmo da partida, enquanto Zlatko Dalić considera a mudança apenas mais uma adaptação das regras do futebol. Já a FIFA avalia que o saldo é positivo e entende que as pausas preservam a condição física dos atletas sem comprometer significativamente o espetáculo.
As mudanças também provocaram comparações com esportes como basquete e futebol americano, nos quais as partidas são naturalmente divididas por tempos técnicos e constantes interrupções.
Deschamps afirmou que os jogos passaram a ser disputados como se tivessem “quatro quartos”. Na prática, com pausas aproximadamente aos 22 minutos do primeiro tempo e aos 67 minutos do segundo, cada partida passou a ser dividida em blocos de cerca de 20 minutos.
Em um torneio com 104 jogos, isso representa mais de dez horas de interrupções programadas, equivalentes a mais de seis partidas completas. Cada uma dessas pausas cria oportunidades para ajustes táticos e até mesmo para substituições durante as interrupções.
O técnico Marcelo Bielsa também questionou os impactos da mudança sobre a essência do futebol.
“Jogar quatro tempos em vez de dois altera a forma como, culturalmente, aprendemos a interpretar o futebol. O aumento no número de gols pode até ser bem-vindo. Mas essa mudança na maneira de entender o jogo não acrescenta nada e tira muita coisa. Quando o futebol foi dividido em quatro partes, não se pensou no efeito que isso poderia ter sobre aquilo que fez do futebol um esporte capaz de apaixonar as pessoas. Pensou-se em outros tipos de consequências, que eu não discuto nem analiso. O que eu digo é simples: antes dessa decisão, o futebol tinha uma característica. Agora, tem outra. E as pessoas se apaixonam pelo jogo justamente por causa das suas características.”
Embora alguns considerem que as pausas possam seguir o mesmo caminho de aceitação do VAR, o debate permanece aberto, já que a mudança interfere diretamente no ritmo das partidas, amplia a influência dos treinadores e modifica a experiência do torcedor.
Fonte: GE


