Pesquisa de universidades e da SOS Mata Atlântica revela poluentes em toda a extensão do rio; governo de SP afirma que houve redução de carga poluente
O processo de despoluição do Rio Tietê ainda não apresenta avanço consistente e um novo levantamento indica a presença de substâncias como cocaína, microplásticos, agrotóxicos e medicamentos ao longo de praticamente todo o curso do rio em São Paulo.
O perfil químico mais detalhado já realizado na água do Tietê analisou amostras coletadas em 14 pontos, desde a nascente em Salesópolis até a foz no rio Paraná, em Itapura. O estudo foi conduzido pela ONG SOS Mata Atlântica em parceria com pesquisadores da USP, Unifesp, UFABC e Universidade Municipal de São Caetano do Sul (USCS), durante uma expedição de cinco dias realizada no ano passado.
Segundo os pesquisadores, foram identificados poluentes ainda não monitorados regularmente por órgãos ambientais, incluindo 25 tipos de agrotóxicos, diversos fármacos e traços de cocaína, detectados por meio do metabólito benzoilecgonina.

O levantamento aponta que, embora alguns trechos apresentem classificação de qualidade da água considerada “ótima”, não foi encontrado nenhum ponto totalmente livre de interferência humana. Até mesmo na região da cabeceira, dentro de um parque estadual, foram identificados resíduos de agrotóxicos e cafeína, substância associada à presença de esgoto doméstico.
De acordo com os pesquisadores, a contaminação na nascente pode estar relacionada à deriva de agrotóxicos aplicados em áreas agrícolas próximas, levados pelo vento até o rio e seus afluentes.
O estudo também indica que a pior condição da água ocorre na região metropolitana de São Paulo, onde o contato com esgoto doméstico e efluentes urbanos eleva a concentração de poluentes. Em Osasco, por exemplo, foram identificados medicamentos como analgésicos, relaxantes musculares, anticoagulantes e substâncias psicoativas.
Os pesquisadores afirmam que esses compostos persistem mesmo em baixas concentrações e podem afetar organismos aquáticos ao longo do rio.
No caso da cocaína, a detecção ocorreu de forma indireta, por meio da benzoilecgonina, substância formada no organismo humano. Segundo os cientistas, sua presença indica consumo significativo da droga em áreas urbanas da bacia.
A partir da saída da região metropolitana, a concentração de poluentes tende a diminuir com a diluição do rio, especialmente na região de Salto. No entanto, no trecho seguinte, em áreas de forte atividade agropecuária, o estudo identificou predominância de agrotóxicos.
O Centro de Energia Nuclear na Agricultura da USP identificou 26 compostos entre 46 analisados, incluindo inseticidas, herbicidas e fungicidas. A área entre Pirapora do Bom Jesus e Barra Bonita foi apontada como uma das mais contaminadas, com mudança da classificação da água de “ótima” para “regular”.
Mesmo após a redução de poluentes em trechos mais distantes da capital, o estudo indica que marcadores de contaminação urbana e rural permanecem detectáveis até o final do curso do rio.
Para os pesquisadores, os programas de recuperação ambiental precisam considerar uma gama mais ampla de substâncias do que as atualmente monitoradas. Segundo eles, os investimentos feitos ao longo das últimas décadas ainda não resultaram em recuperação significativa do Tietê.
A Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb) afirma que realiza monitoramento contínuo da qualidade da água com base em parâmetros biológicos e de oxigenação. O governo estadual diz que o programa Integra Tietê tem ampliado ações de saneamento e fiscalização.
Segundo a Secretaria de Meio Ambiente, mais de 1,5 milhão de ligações de esgoto foram realizadas na região metropolitana. A pasta afirma ainda que houve redução de 21% na carga de poluição do rio, passando de 219 para 173 toneladas por dia.
O governo também destaca que realizou 527 ações de fiscalização desde 2023, incluindo sistemas de saneamento, estações de tratamento e atividades industriais e agrícolas.
Fonte: OGLOBO



