Segunda fase da Operação Disclosure investiga possível participação de acionistas e representantes de bancos no esquema contábil
A Polícia Federal (PF), com apoio do Ministério Público Federal (MPF), deflagrou nesta quinta-feira (25) a segunda fase da Operação Disclosure, que investiga a fraude contábil bilionária nas Americanas. Segundo laudos técnicos periciais, o prejuízo estimado no caso pode chegar a R$ 54 bilhões.
Ao todo, os agentes cumprem nove mandados de busca e apreensão nas cidades do Rio de Janeiro e de São Paulo. A 10ª Vara Federal Criminal do Rio de Janeiro também determinou o sequestro de bens e valores dos investigados, limitado a R$ 54 bilhões.
Nesta etapa, a força-tarefa apura se acionistas da Americanas e representantes de instituições financeiras tiveram participação ou conhecimento do esquema.
Entre os alvos estão os acionistas Carlos Alberto da Veiga Sicupira e Paulo Alberto Lemann, além de Eduardo Saggioro Garcia, apontado pelas investigações como operador direto dos sócios. Também são investigados executivos ligados a bancos privados.
Paulo Alberto Lemann, um dos alvos da operação, é filho do empresário Jorge Paulo Lemann, que não é investigado nesta fase.
Segundo a PF e o MPF, ex-executivos da Americanas montaram um esquema para inflar artificialmente os lucros e o caixa da companhia, ocultando dívidas e manipulando balanços financeiros para valorizar as ações negociadas na Bolsa.
As investigações apontam que os envolvidos recebiam bônus milionários vinculados ao desempenho financeiro da empresa e obtinham ganhos com a venda de ações valorizadas artificialmente.
De acordo com a Polícia Federal, os suspeitos teriam conhecimento de fraudes relacionadas a operações de risco sacado e a contratos de verba de propaganda cooperada (VPC) supostamente registrados sem lastro econômico.
As apurações indicam, em tese, a prática dos crimes de manipulação de mercado e associação criminosa.
A fraude contábil da Americanas foi revelada em 11 de janeiro de 2023, quando a companhia informou inconsistências contábeis inicialmente estimadas em cerca de R$ 20 bilhões. O episódio levou a empresa a pedir recuperação judicial.
Entenda os mecanismos investigados
Segundo as investigações, um dos mecanismos utilizados envolvia operações de risco sacado, modalidade em que dívidas com fornecedores são transferidas para instituições financeiras.
De acordo com a PF, no caso da Americanas, essas dívidas eram retiradas do balanço da empresa como se tivessem sido quitadas, sem o devido registro de que a obrigação financeira havia sido transferida para bancos, reduzindo artificialmente o endividamento apresentado ao mercado.
Outro ponto investigado envolve as verbas de propaganda cooperada (VPC), incentivos comerciais concedidos por fornecedores ao varejo. A suspeita é de que a empresa contabilizava VPCs inexistentes ou com valores inflados para melhorar seus resultados financeiros.
Primeira fase da operação
Em junho de 2024, a Polícia Federal deflagrou a primeira fase da Operação Disclosure, cumprindo mandados de prisão e de busca e apreensão contra ex-executivos da companhia.
O ex-CEO Miguel Gutierrez foi preso em Madri, na Espanha, após inclusão de seu nome na Difusão Vermelha da Interpol. Em agosto de 2024, porém, o Tribunal Regional Federal da 2ª Região revogou sua prisão preventiva.
Em março de 2025, o Ministério Público Federal denunciou 13 ex-executivos e ex-funcionários da empresa. Segundo a denúncia, o grupo teria integrado uma estrutura organizada para manipular resultados financeiros, enganar investidores e ocultar a real situação patrimonial da companhia.
Os denunciados respondem por crimes como organização criminosa, manipulação de mercado, falsidade ideológica e, em parte dos casos, uso de informação privilegiada.
Também em março de 2025, a Americanas informou que pediu à Justiça o encerramento do processo de recuperação judicial, alegando ter cumprido as obrigações previstas no plano aprovado pelos credores.
O que dizem os envolvidos
Os acionistas de referência afirmaram, em nota, que foram surpreendidos pela operação da Polícia Federal. Segundo eles, as investigações indicam que o Conselho de Administração e os acionistas foram enganados e induzidos ao erro pela antiga diretoria da companhia.
Eles afirmaram ainda que vêm colaborando com as autoridades desde janeiro de 2023 e informaram que as defesas ainda não tiveram acesso à íntegra da decisão judicial que fundamentou a operação.
A Americanas informou que não foi alvo de mandados de busca e apreensão nesta quinta-feira e reiterou que continuará colaborando com as investigações, destacando ser a maior interessada no esclarecimento dos fatos.
Fonte: G1


