Aliados de Michelle e Flávio Bolsonaro admitem racha irreversível: “guerra não vai acabar”, dizem interlocutores

O agravamento da crise interna no núcleo do clã Bolsonaro, marcado pela renúncia de Michelle Bolsonaro ao comando do PL Mulher e pela indefinição sobre sua possível candidatura ao Senado, expôs um cenário de forte tensão entre aliados próximos da ex-primeira-dama e do presidenciável Flávio Bolsonaro (PL).

Segundo interlocutores ouvidos sob reserva, há um consenso entre diferentes alas do grupo político: o conflito familiar estaria longe de uma pacificação e não teria perspectiva de encerramento, nem antes nem depois das eleições de outubro.

Um aliado próximo de Flávio Bolsonaro afirmou que o impasse já seria estrutural.

“Isso [a guerra] não vai acabar nunca. Tá no DNA da família Bolsonaro”, disse o interlocutor, em referência à disputa interna.

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O mesmo aliado ainda avaliou que a relação entre Michelle e Flávio teria origem antiga e difícil reconciliação:

“Michelle é jovem, tem 44 anos, pode ser presidente da República daqui a 10 anos. É uma relação conturbada de 20 anos entre madrasta e enteado, que não vai se resolver numa conversa.”

Outro interlocutor, com trânsito tanto no entorno de Michelle quanto na direção nacional do PL, reforçou o diagnóstico de ruptura.

“Essa guerra não vai acabar, ganhando ou não o Flávio. Eles se odeiam. Simples assim”, afirmou.

Crise se intensifica após vídeo e saída do PL Mulher

A relação entre Michelle e Flávio Bolsonaro sempre foi marcada por desconfiança e atritos, mas a crise se agravou após o dia 25, quando a ex-primeira-dama publicou um vídeo de 27 minutos nas redes sociais com críticas diretas ao enteado.

No conteúdo, Michelle acusou Flávio de tê-la “apunhalado pelas costas”, além de relatar divergências sobre palanques estaduais do PL e afirmar que teria sido excluída de articulações políticas internas.

No dia seguinte, Flávio publicou um vídeo tentando reduzir a tensão pública, mas o movimento não conteve o avanço da crise. Nos bastidores, aliados apontam que o episódio também intensificou disputas internas no bolsonarismo, com participação de grupos ligados ao deputado cassado Eduardo Bolsonaro.

A atuação de um chamado “grupo do exterior”, referência a aliados de Eduardo nos Estados Unidos e em outros países, também é apontada como fator de agravamento da crise, segundo interlocutores próximos ao caso.

Recuo, pressão e decisão sobre candidatura

Segundo informações publicadas pela colunista Bela Megale, Michelle chegou a uma reunião com o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, disposta a deixar a legenda. No entanto, teria sido convencida a recuar após conversas com a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP).

O Distrito Federal é considerado um dos principais redutos do bolsonarismo. Em 2022, Jair Bolsonaro obteve 58,81% dos votos válidos na região no segundo turno, contra 41,19% de Lula.

Aliados de Valdemar avaliam que Michelle deve decidir sua situação política apenas na véspera da convenção que confirmará Flávio Bolsonaro como candidato do PL à Presidência.

Há também a expectativa de que, caso dispute o Senado, Michelle não participe ativamente da campanha de Flávio.

Ruptura com enteados e histórico de tensões

A crise mais recente também resultou em mudanças nas redes sociais: Michelle deixou de seguir Eduardo e Carlos Bolsonaro, ampliando o distanciamento com os enteados.

Carlos Bolsonaro, vereador no Rio e pré-candidato ao Senado por Santa Catarina, e Eduardo Bolsonaro, deputado cassado, já vinham se posicionando publicamente em episódios de atrito com a ex-primeira-dama.

Apesar de momentos pontuais de aproximação, como aparições públicas conjuntas em eventos políticos e manifestações em defesa de Jair Bolsonaro, a relação segue marcada por sucessivas tensões.

Em março, Michelle chegou a declarar que não conviveria com Carlos Bolsonaro, embora mantivesse respeito à relação do marido com o filho. Meses depois, houve gestos públicos de reaproximação em atos políticos, sem, no entanto, consolidar uma pacificação duradoura.

Disputa pelo espólio político de Bolsonaro

Com Jair Bolsonaro atualmente em prisão domiciliar e impedido de se comunicar livremente após condenações no âmbito da trama golpista, aliados avaliam que as divergências entre Michelle e Flávio refletem uma disputa mais ampla pelo controle do espólio político do ex-presidente.

Para interlocutores próximos aos dois lados, a avaliação predominante é que não há perspectiva de uma reconciliação real enquanto esse espaço de poder permanecer em disputa dentro da família.

Fonte: OGLOBO