EUA chamam PCC de maior facção criminosa do Hemisfério Ocidental e ampliam pressão sobre o Brasil

O governo dos Estados Unidos classificou o Primeiro Comando da Capital (PCC) como “a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental”, colocando o Brasil no centro da estratégia de segurança da administração do presidente Donald Trump para as Américas.

A afirmação consta em um documento divulgado na quarta-feira (1º) pelo Departamento do Tesouro dos EUA. Segundo o governo americano, a facção expandiu suas operações para diversos países e representa uma ameaça crescente também ao território norte-americano.

“O PCC é hoje a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e, nos últimos anos, expandiu suas operações globalmente, com presença significativa em países como Reino Unido, Turquia e Japão. Nos EUA, a facção representa uma ameaça criminal real e crescente”, afirma o comunicado.

No mesmo documento, o Departamento do Tesouro anunciou sanções contra dois brasileiros e três empresas brasileiras por suposta ligação com um esquema de lavagem de dinheiro associado ao PCC. Esta é a primeira rodada de sanções desde maio, quando os Estados Unidos classificaram o PCC como organização terrorista.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

A referência ao “Hemisfério Ocidental” reforça a estratégia do governo Trump para ampliar sua atuação na América Latina. Em janeiro, o Departamento de Guerra dos Estados Unidos publicou a nova Estratégia Nacional de Defesa, que prevê assegurar plena dominância militar e comercial “do Ártico à América do Sul”.

Segundo o documento, os Estados Unidos pretendem cooperar com países da região, mas também afirmam que poderão realizar ações militares quando entenderem que seus interesses nacionais não estão sendo atendidos.

Na apresentação da estratégia, o Departamento de Guerra citou como exemplo a operação militar que capturou o ex-ditador venezuelano Nicolás Maduro, acusado de comandar o Cartel de los Soles, classificado pelos EUA como organização terrorista.

A estratégia adota o lema “paz por meio da força”, utilizado pelo governo Trump desde o início de seu segundo mandato, e coloca o combate ao chamado “narcoterrorismo” como uma de suas prioridades.

O documento afirma que os Estados Unidos se reservam o direito de realizar ataques militares diretos contra organizações classificadas como narcoterroristas em qualquer parte das Américas. Também prevê apoio a países aliados para fortalecer a capacidade de combate aos cartéis de drogas latino-americanos.

Entre os demais objetivos estão o combate à imigração ilegal e a contenção da influência da China na região.

Em dezembro de 2024, a Casa Branca também divulgou a nova Estratégia de Política Externa, indicando maior foco na América Latina. O plano prevê o reajuste da presença militar americana para enfrentar ameaças consideradas urgentes no Hemisfério Ocidental.

Entre as medidas previstas estão a ampliação da atuação da Guarda Costeira e da Marinha para controlar rotas marítimas, combater a imigração ilegal e reduzir o tráfico de drogas e pessoas; o reforço da proteção das fronteiras e do combate aos cartéis, incluindo o uso de força letal em determinados casos; e a ampliação do acesso dos EUA a áreas consideradas estratégicas na região.

O documento também afirma que os Estados Unidos pretendem reafirmar a Doutrina Monroe para restaurar a predominância americana no Hemisfério Ocidental, tendo como foco conter o avanço da influência chinesa na América Latina. Criada pelo presidente James Monroe, a doutrina defende o princípio de “a América para os americanos”, considerando tentativas de recolonização por outras potências como ameaça aos interesses dos EUA.

Em maio, ao classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas, o governo americano afirmou que as facções estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil, comandam milhares de integrantes e são responsáveis por ataques contra policiais, autoridades públicas e civis.

Na ocasião, o secretário de Estado Marco Rubio declarou que a atuação das facções ultrapassa as fronteiras brasileiras e alcança outros países da região e os Estados Unidos.

“O governo Trump continuará usando todas as ferramentas disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e cortar financiamento e recursos de narcoterroristas”, afirmou Rubio.

O governo dos Estados Unidos também declarou que a medida reforça o compromisso da administração Trump de desmantelar cartéis e organizações criminosas na região.

O governo brasileiro tentou impedir que os EUA adotassem a classificação das facções como organizações terroristas. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a decisão, defendeu a soberania nacional e afirmou que o Brasil não aceitaria ser “tratado como moleque”.

No Palácio do Planalto, a avaliação é de que a classificação poderia abrir espaço para ações mais rígidas dos Estados Unidos. Em um cenário extremo, autoridades brasileiras consideram que os norte-americanos poderiam utilizar esse argumento para justificar uma operação militar no Brasil, como ocorreu em outros países.

Especialistas em segurança pública também destacam que a legislação brasileira de combate às facções criminosas prevê penas mais severas do que a lei antiterrorismo.

Fonte: G1