Depoimento de bombeiro reforça suspeita de feminicídio em morte de PM e coloca versão de suicídio em dúvida

O depoimento do sargento e socorrista do Corpo de Bombeiros Rodrigo Almeida Rodrigues, primeira pessoa a entrar no apartamento onde a soldado da Polícia Militar Gisele Alves Santana, de 32 anos, foi encontrada ferida, reforçou a investigação que trata o caso como feminicídio e fraude processual. Em audiência realizada na última terça-feira (30), o militar afirmou à Justiça que a cena encontrada lhe pareceu incomum e o levou a fotografar o local antes do início do atendimento.

Segundo Rodrigues, Gisele estava caída entre o sofá e um móvel da sala, com uma pistola apoiada sobre a coxa e posicionada na mão direita. A disposição dos elementos chamou sua atenção devido à experiência acumulada em 15 anos de atuação no Corpo de Bombeiros, incluindo atendimentos em ocorrências de suicídio.

“Eu achei a cena estranha. Precisava mexer na vítima, precisava tirar a arma da mão da vítima, e registrei a foto”, afirmou durante o depoimento.

Ao explicar o motivo da desconfiança, o socorrista destacou a posição da arma.

“A arma estava muito corretamente postada na mão e apoiada na coxa da vítima.”

Rodrigues afirmou ainda possuir conhecimento sobre armamentos e disse que a pistola calibre .40 foi retirada da mão de Gisele sem oferecer resistência. Questionado durante a audiência se acreditava que a arma poderia ter sido colocada naquela posição, respondeu que sim.

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Fotografias viraram prova da investigação

Antes de iniciar as manobras de ressuscitação, o bombeiro fez três fotografias da cena. Em seguida, retirou a arma, colocou-a sobre um móvel e, junto com outros dois socorristas, deslocou o corpo de Gisele para um espaço onde fosse possível realizar a massagem cardíaca e a ventilação.

Uma árvore de Natal próxima ao sofá também foi afastada para permitir o atendimento.

Segundo o militar, todas essas alterações ocorreram apenas para viabilizar o socorro. Por isso, as imagens registradas anteriormente passaram a ser consideradas fundamentais para a reconstituição da posição original do corpo, da arma e dos móveis.

No mesmo dia, Rodrigues encaminhou as fotografias a um tenente da Polícia Militar presente na ocorrência. Posteriormente, os registros foram entregues à Corregedoria da corporação e à Polícia Civil.

PM apresentou reação durante o atendimento

O socorrista relatou que, ao chegar ao apartamento, Gisele não apresentava sinais vitais aparentes. Durante as primeiras compressões cardíacas, porém, ela voltou a apresentar reação.

A equipe permaneceu por aproximadamente dez minutos realizando as manobras até a chegada do atendimento médico. Em seguida, a policial foi levada em uma unidade de resgate até o helicóptero Águia e encaminhada ao Hospital das Clínicas, onde morreu.

Marido estava ao telefone, diz bombeiro

Rodrigues afirmou que encontrou o marido de Gisele, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, sentado próximo à porta do apartamento, sem camisa, ao telefone, com o cabelo molhado e usando um short com o cinto aberto.

Segundo o bombeiro, o oficial informou que estava tomando banho quando ouviu um barulho e, ao sair do banheiro, encontrou a esposa caída.

Questionado sobre a existência de outras armas no imóvel, Geraldo respondeu que não havia e afirmou que a pistola encontrada com Gisele era de sua propriedade. A arma funcional da policial, segundo ele, permanecia na unidade onde ela trabalhava.

O socorrista também declarou que não viu o coronel chorar durante o atendimento.

“Ele insistia toda hora: ‘Socorre ela, tira ela daqui, socorre ela'”, relatou.

Interrogatório foi adiado

O depoimento integra a fase de instrução do processo, destinada à oitiva de testemunhas, análise das provas e interrogatório do acusado.

O interrogatório de Geraldo Leite Rosa Neto, inicialmente previsto para esta sexta-feira (3), foi adiado para 28 de agosto, após pedido da defesa. Os advogados solicitaram que o Instituto de Criminalística complemente um dos laudos periciais antes da nova audiência.

Polícia concluiu que versão de suicídio não se sustenta

Geraldo Neto foi preso cerca de um mês após a morte da esposa. Segundo a Polícia Civil, a hipótese de suicídio apresentada por ele não foi confirmada pelas provas reunidas durante o inquérito.

Além das fotografias feitas pelo bombeiro, a investigação levou em consideração a trajetória do disparo, a ausência de resíduos de pólvora nas mãos de Gisele, o desaparecimento do cartucho, vestígios de sangue encontrados na bermuda do coronel, no box do banheiro e em uma toalha utilizada por ele, além de indícios de movimentação do corpo.

A perícia também identificou lesões no rosto, no pescoço e na mandíbula da policial. Conforme laudo citado no processo, parte dessas marcas seria incompatível com agressões praticadas por uma criança, como sustenta a defesa.

Os investigadores também recuperaram mensagens trocadas entre o casal. De acordo com o inquérito, Gisele manifestava a intenção de se separar. Em uma das últimas conversas destacadas, ela afirmou que queria o divórcio, enquanto o coronel teria respondido que ela “jamais” conseguiria se divorciar.

Geraldo Leite Rosa Neto responde pelos crimes de feminicídio e fraude processual. Ele nega ter matado a esposa, e sua defesa mantém a versão de que Gisele cometeu suicídio.

Fonte: METRÓPOLES