O aumento dos preços dos aluguéis no Rio de Janeiro está mudando o mapa da moradia na cidade. Moradores de bairros tradicionais e valorizados, principalmente na Zona Sul, relatam dificuldades para permanecer nas regiões mais disputadas por turistas, investidores estrangeiros e trabalhadores remotos que recebem em moedas como dólar e euro.
O fenômeno, chamado por especialistas de “dolarização” da economia carioca, tem levado parte da população a buscar alternativas em bairros mais afastados dos principais cartões-postais ou até mesmo a deixar a cidade em busca de custos mais compatíveis com a renda.
Foi o que aconteceu com o ator e servidor público Rodrigo Gicovate, de 37 anos. Morador de Copacabana, ele decidiu se mudar para Niterói, do outro lado da Baía de Guanabara, após perceber que o custo de vida no Rio havia se tornado difícil de sustentar.
Rodrigo chegou à capital fluminense em 2019 e, após um período em Campos dos Goytacazes durante a pandemia, retornou ao Rio em 2022. Na época, passou a dividir apartamento em Copacabana com outras três pessoas para reduzir despesas, mas ainda assim viu o orçamento ficar cada vez mais apertado.

“Estava muito difícil pagar aluguel, contas e todo o custo de vida. Não era só a moradia. Mercado, transporte, tudo foi ficando mais caro”, afirmou.
Segundo ele, o gasto mensal para viver no bairro chegava a cerca de R$ 1,8 mil. Ao procurar opções mais baratas dentro do Rio, encontrou dificuldades.
“Buscava quitinetes no Centro do Rio e não achava nada por menos de R$ 2 mil ou R$ 2,5 mil. Quem recebe um salário médio no Brasil consegue pagar isso?”, questionou.
A mudança para Niterói veio como alternativa financeira, mas também esteve relacionada à rotina e à segurança. Após uma tentativa de assalto perto de casa, Rodrigo decidiu deixar Copacabana.
Hoje, ele mora sozinho em Ponta D’Areia, na região central de Niterói, e paga cerca de R$ 2,2 mil de aluguel em um apartamento menor. Apesar do valor semelhante ao que gastava anteriormente, afirma ter melhorado a qualidade de vida.
“Comprei uma bicicleta elétrica, chego ao trabalho em cinco minutos e tenho tempo para cozinhar, estudar e fazer outras atividades”, contou.
Para ele, a valorização imobiliária do Rio também está ligada ao perfil internacional que a cidade passou a atrair.
“Eu acho que, obviamente, a dolarização da economia carioca também influencia muito. É uma cidade para turista. Tanto que o lazer, a cultura, por mais que estejam concentrados basicamente na Zona Sul, são ainda para uma elite da cidade”, afirmou.
Moradores migram para bairros fora do eixo turístico
Enquanto alguns moradores deixam a capital, outros permanecem no Rio, mas trocam bairros tradicionais por regiões menos valorizadas.
O gerente de contas Matheus Borges Assis, de 31 anos, deixou Copacabana e se mudou para Vila Isabel, na Zona Norte, após perceber a escalada dos preços dos imóveis, especialmente em áreas próximas ao metrô.
A mudança ocorreu há cerca de dois anos e meio. Segundo ele, o valor do aluguel ficou próximo ao que pagaria em bairros mais disputados, mas com melhores condições de moradia.
“Paguei praticamente o mesmo para morar em um apartamento com varanda e garagem”, afirmou.
Apesar de reconhecer limitações no transporte e menor oferta de alguns serviços, Matheus avalia que a troca compensou.
“A Zona Sul tem muitos turistas e pessoas de fora. Em Vila Isabel e na Tijuca, isso é bem menos perceptível”, disse.
Aluguel no Rio sobe acima da inflação
Os números do mercado imobiliário mostram a pressão sobre os preços. O valor médio do metro quadrado para locação no Rio passou de R$ 36,1 em maio de 2023 para R$ 51,6 em maio de 2026, uma alta de 42,7%. No mesmo período, a inflação acumulada foi de 14,9%.
A valorização foi ainda maior nos imóveis de um quarto, segundo dados do QuintoAndar, com aumento de 51,4% no preço do metro quadrado de aluguel nos últimos três anos.
Nas áreas mais valorizadas da Zona Sul, a alta foi mais intensa. Levantamento do Grupo OLX aponta que, entre 2021 e 2026, o preço médio do metro quadrado para aluguel subiu:
- Copacabana: de R$ 35 para R$ 71, alta de 101,8%;
- Ipanema: de R$ 55 para R$ 115, aumento de 108,3%;
- Leblon: de R$ 58 para R$ 119, avanço de 105,7%.
O movimento ocorre em um período de maior presença internacional no Rio. Dados da Embratur, Ministério do Turismo e Polícia Federal indicam que o Brasil recebeu mais de 2,6 milhões de turistas estrangeiros no primeiro bimestre de 2026. O Rio foi o principal destino de entrada, com 884,5 mil chegadas no primeiro trimestre.
Além do turismo tradicional, especialistas apontam o crescimento do trabalho remoto como um dos fatores que aumentam a procura por imóveis na cidade.
Dados do Itamaraty mostram que foram concedidos 479 vistos de nômade digital em 2024 e 508 em 2025. Nos três primeiros meses de 2026, outros 117 estrangeiros receberam autorização para morar temporariamente no Brasil enquanto trabalham para empresas ou clientes no exterior.
Estrangeiros e investidores pressionam mercado imobiliário
O canadense Kyle Pearce, de 42 anos, é um dos estrangeiros que escolheram o Rio para viver temporariamente. Ele chegou em abril e optou por morar em Copacabana.
Trabalhando remotamente com marketing digital, ele deixou Vancouver há cerca de dez anos e passou a viver em diferentes países.
“Criei um estilo de vida e uma agência de marketing digital que me permitem não precisar estar lá durante o inverno”, afirmou.
Kyle pretende permanecer no Rio durante os 90 dias permitidos para turistas sem visto específico. Ele afirma que a cidade oferece uma combinação de cultura, praia e qualidade de vida.
Segundo ele, o custo de vida é cerca de 30% menor do que no Canadá, embora essa diferença diminua quando entram na conta despesas como seguro-saúde e passagens aéreas.
“Não é por isso que estou aqui. Acho que as pessoas vêm porque o Rio é uma cidade interessante, com cultura, praias e um estilo de vida próprio”, declarou.
O economista Jorge Ferreira dos Santos Filho, professor da ESPM, explica que a valorização imobiliária carioca resulta da combinação entre turismo internacional, câmbio favorável para estrangeiros e rentabilidade das locações de curta temporada.
“O fenômeno não está ligado apenas ao turismo ou aos nômades digitais. Há também estrangeiros que buscam renda e valorização patrimonial por meio do mercado imobiliário”, afirmou.
Segundo ele, a migração de imóveis para aluguel temporário reduz a oferta disponível para contratos tradicionais, especialmente de apartamentos compactos.
Um levantamento da imobiliária Patrimóvel aponta que estrangeiros representaram 28% das compras de apartamentos do tipo estúdio realizadas entre novembro de 2025 e abril de 2026 em Copacabana, Ipanema e Leblon. Americanos lideram a lista, seguidos por compradores da Argentina, Espanha, Romênia e Suíça.
Aluguel por temporada amplia debate sobre moradia
O crescimento dos imóveis destinados a hospedagens de curta duração também entrou no centro da discussão. Especialistas afirmam que apartamentos compactos próximos às praias passaram a atrair investidores interessados em rendimentos superiores aos contratos tradicionais.
Para Gabriela Domingos, especialista em inteligência de mercado do Grupo OLX, o avanço das locações por temporada reduziu parte da oferta de imóveis disponíveis para contratos convencionais.
O economista Gilberto Braga, professor do Ibmec-RJ, afirma que plataformas de aluguel temporário mudaram a dinâmica do mercado carioca.
“O aluguel por temporada não impulsiona apenas o mercado imobiliário. Ele também fortalece a vocação turística do Rio, oferecendo uma alternativa quando a rede hoteleira não consegue absorver toda a demanda”, declarou.
Especialistas, porém, alertam que o desafio é encontrar equilíbrio entre turismo e moradia permanente. Cidades como Barcelona, na Espanha, e Lisboa, em Portugal, adotaram medidas para limitar o avanço dos aluguéis temporários diante do impacto sobre os moradores locais.
Para o arquiteto e urbanista Pedro Seixas, o Rio possui características próprias e não deve ser comparado diretamente a esses casos.
“O principal desafio é aumentar a oferta de moradias, especialmente de unidades compactas, hoje escassas no mercado carioca”, afirmou.
Rio busca equilíbrio entre turismo e moradia
Especialistas avaliam que o futuro da cidade dependerá da capacidade de conciliar o crescimento econômico gerado pelo turismo com a manutenção de uma população residente.
Para Santos Filho, o ponto de atenção é quando a valorização imobiliária deixa de gerar benefícios e começa a expulsar moradores permanentes.
“O limite está no ponto em que a valorização deixa de ampliar o bem-estar urbano e passa a expulsar o morador permanente”, afirmou.
Entre as possíveis soluções estão maior regulamentação dos imóveis de curta temporada, compartilhamento de dados com o poder público, regras específicas para áreas pressionadas e estímulo à construção de novas moradias.
Para o economista Gilberto Braga, ampliar a oferta habitacional é uma das principais respostas para reduzir a pressão sobre os preços.
“O que observamos é um crescimento mais ordenado da cidade, com novos empreendimentos surgindo em diferentes regiões e atendendo perfis variados de moradores”, concluiu.
Fonte: G1



