Após deixar a presidência do PL Mulher e enfrentar uma crise política com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passou a redesenhar sua estratégia de atuação dentro do campo conservador. Sem ocupar atualmente um cargo formal na estrutura partidária, ela busca manter influência por meio de uma rede formada por candidatas, lideranças religiosas, campanhas estaduais e pelo movimento “Imparáveis”.
A mudança ocorre em um momento de disputa interna no bolsonarismo e às vésperas das convenções partidárias. Segundo aliados, Michelle pretende preservar o capital político construído durante sua passagem pelo comando do segmento feminino do partido, especialmente entre mulheres conservadoras e o eleitorado evangélico.
A nova fase começou a ser estruturada ainda durante o conflito com Flávio Bolsonaro. Enquanto o partido administrava os impactos do rompimento político, Michelle reduziu aparições públicas, ampliou reuniões por videoconferência e passou a concentrar esforços nas candidaturas femininas que ajudou a fortalecer.
Rede política passa a ser principal ativo
No entorno da ex-primeira-dama, a avaliação é que sua força política não depende exclusivamente do cargo que ocupava no PL Mulher, mas das conexões estabelecidas com deputadas, prefeitas, vereadoras, dirigentes estaduais e lideranças religiosas em diferentes regiões do país.

A estratégia ficou evidente após a crise com Flávio. Dois dias depois de tornar público o desentendimento, enquanto o senador realizava uma conversa reservada com Jair Bolsonaro, Michelle esteve na sede nacional do PL gravando vídeos de campanha para candidatas do partido em Roraima.
O movimento foi interpretado por aliados como um sinal de que ela deixaria o comando do PL Mulher, mas continuaria atuando junto à rede política formada durante sua gestão.
Movimento “Imparáveis” amplia atuação fora do partido
Um dos principais símbolos da nova estratégia é o movimento “Imparáveis”, lançado recentemente pela equipe de comunicação da ex-primeira-dama.
Segundo interlocutores, o projeto não tem objetivo de substituir o PL Mulher nem funcionar como uma estrutura oficial da legenda. A proposta é criar uma comunidade de mobilização em torno das pautas defendidas por Michelle, especialmente relacionadas às mulheres, com inspiração em modelos de engajamento semelhantes aos chamados “fandoms”.
O movimento vinha sendo preparado havia meses e tinha lançamento inicialmente previsto para 2027, durante um encontro nacional com mulheres eleitas apoiadas por Michelle no ciclo eleitoral de 2026. A saída dela do comando do PL Mulher antecipou o cronograma.
Inspirado na música “Unstoppable”, da cantora Sia, o projeto busca transmitir uma mensagem de resistência e ampliar a mobilização para além das estruturas partidárias tradicionais.
Candidatas próximas formam núcleo de influência
Nos bastidores, aliados afirmam que Michelle já trabalha com uma lista de candidaturas consideradas prioritárias para a eleição deste ano.
Antes da crise interna, ela havia definido um grupo de 19 mulheres que receberiam maior acompanhamento durante a campanha. O grupo reúne parlamentares, presidentes estaduais do PL Mulher e candidatas que ganharam projeção durante sua passagem pelo comando do segmento feminino.
Entre os nomes citados estão:
- Rosana Valle (SP);
- Roberta Roma (BA);
- Ana Campagnolo (SC);
- Cris Tonietto (RJ);
- Delegada Sheila (MG);
- Carlise Cwiatkowski (PR);
- Gislayne Yamashita (MT);
- Carol de Toni (SC);
- Bia Kicis (DF);
- Priscila Costa (CE).
A avaliação de aliados é que uma bancada maior formada por essas mulheres manteria a influência de Michelle dentro do bolsonarismo, mesmo sem um cargo oficial no partido.
A deputada federal Rosana Valle, presidente do PL Mulher em São Paulo, afirmou que a liderança da ex-primeira-dama ultrapassa a função partidária.
“Michelle Bolsonaro teve papel muito importante na mobilização das mulheres e na aproximação de muitas brasileiras com a política. Esse trabalho deixou um legado e merece todo reconhecimento”, declarou.
Questionada sobre uma possível perda de força política após a saída do comando do PL Mulher, Rosana afirmou que a influência não depende apenas de cargos.
“Influência política não depende apenas de um cargo. Michelle Bolsonaro construiu uma liderança própria, fruto do trabalho que realizou e da conexão que estabeleceu com milhares de mulheres em todo o Brasil”, disse.
Agenda deve priorizar campanhas e igrejas
Com o novo formato de atuação, Michelle pretende concentrar esforços em campanhas consideradas estratégicas pelo seu grupo político, além de ampliar a presença junto ao eleitorado evangélico.
Entre as agendas previstas estão viagens para Santa Catarina, Roraima e Distrito Federal. Em Santa Catarina, há expectativa de participação em eventos com a deputada estadual Ana Campagnolo (PL). No Distrito Federal, a tendência é de aproximação com a governadora Celina Leão (PP), que esteve ao lado de Michelle durante a crise com Flávio.
Em Roraima, onde já gravou inserções para candidatas do partido, a previsão é de realização de compromissos presenciais.
Parte da estratégia continuará sendo feita de forma remota, com gravação de vídeos, reuniões virtuais, mensagens personalizadas e mobilização pelas redes sociais. Segundo aliados, o modelo ganhou força desde que Jair Bolsonaro passou a cumprir prisão domiciliar e permitiu que Michelle mantivesse contato frequente com lideranças estaduais.
Outro eixo considerado prioritário será a aproximação com igrejas e grupos religiosos. Michelle deve ampliar participações em congressos femininos, encontros religiosos e eventos ligados a instituições como a Igreja Batista Atitude, liderada pelo pastor Josué Valandro Jr., e a Sara Nossa Terra, do bispo Robson Rodovalho.
Distanciamento de Flávio marca nova fase política
A nova configuração também ficou evidente na relação com a campanha presidencial do PL. Michelle não participou do ato realizado no Ceará, primeira agenda de Flávio Bolsonaro no estado após o conflito entre os dois.
O evento havia sido planejado anteriormente para lançar candidaturas da legenda e chegou a ser cogitado como uma primeira participação pública conjunta da ex-primeira-dama e do senador, hipótese descartada após o rompimento.
Mesmo ausente, Michelle foi representada por Priscila Costa (PL-CE), uma de suas principais aliadas no estado, que organizou a mobilização das mulheres para o evento.
Apesar do afastamento político, integrantes do PL afirmam que Michelle continuará participando da eleição. O deputado Bibo Nunes (PL-RS) declarou que ela seguirá como uma das principais figuras de mobilização da legenda entre o eleitorado feminino.
“A Michelle vai fazer campanha para as mulheres dela, que eram do PL Mulher Nacional. Ela tem muita credibilidade com as mulheres”, afirmou.
No sábado, em uma tentativa de reduzir a crise, Flávio Bolsonaro leu uma carta escrita pelo pai, Jair Bolsonaro, na qual o ex-presidente o nomeava como seu “porta-voz” e defendia união da direita bolsonarista.
Embora o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, continue tentando convencer Michelle a disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal, aliados dizem que ela ainda não tomou uma decisão.
Entre pessoas próximas, cresce a avaliação de que permanecer fora da chapa poderia permitir que Michelle amplie a construção de seu próprio grupo político, percorrendo o país ao lado das candidatas que ajudou a formar e fortalecendo sua presença junto às igrejas.
Fonte: OGLOBO



