A eleição para o governo de São Paulo em outubro pode quebrar um padrão histórico de mais de quatro décadas: pela primeira vez desde a retomada das eleições diretas para governador, em 1982, o primeiro turno tende a ser disputado apenas por dois candidatos de partidos com maior expressão política. O cenário coloca frente a frente o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-prefeito da capital Fernando Haddad (PT).
A configuração preocupa aliados do PT porque abre a possibilidade de uma vitória de Tarcísio já na primeira rodada, sem a necessidade de segundo turno. Caso isso aconteça, o governador reeleito teria maior disponibilidade para participar da disputa presidencial, especialmente em um eventual confronto entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apoiando a campanha do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.
Além de Tarcísio e Haddad, a corrida pelo Palácio dos Bandeirantes terá candidatos de partidos menores: Carlos Machado (PCB), Vera Lúcia (PSTU) e Vivian Mendes (UP). As legendas não possuem representação no Congresso Nacional, têm menor exposição em rádio e televisão, não recebem recursos do fundo eleitoral e, por lei, as emissoras não são obrigadas a incluí-las em debates.
Na prática, o desenho atual transforma a disputa paulista em uma espécie de antecipação do segundo turno. Para ser reeleito no primeiro turno, Tarcísio precisa alcançar mais de 50% dos votos válidos, contando ainda com a vantagem de disputar o cargo ocupando a máquina estadual e com apoio da maioria dos prefeitos paulistas.

São Paulo representa o maior colégio eleitoral do país, com cerca de 34 milhões de eleitores, aproximadamente 22% do eleitorado nacional.
Pesquisa aponta vantagem de Tarcísio
Na pesquisa Datafolha divulgada no último dia 5, Tarcísio apareceu com 46% das intenções de voto, enquanto Haddad registrou 30%. Considerando apenas os votos válidos, excluindo brancos e nulos, o governador chegaria a 52%.
Vera Lúcia apareceu com 5%, enquanto Carlos Machado e Vivian Mendes tiveram 4% cada. No entanto, os três candidatos não pontuaram na pesquisa espontânea, quando o eleitor responde sem receber uma lista de nomes. Nesse cenário, Tarcísio teve 21% das citações e Haddad, 8%.
Historicamente, candidatos de partidos menores costumam perder espaço ao longo da campanha e parte desses votos migra para nomes de legendas maiores, principalmente com maior estrutura partidária e tempo de propaganda eleitoral.
Saída de candidaturas de direita alterou cenário
Segundo o levantamento, o PT esperava que a candidatura do deputado federal Kim Kataguiri (Missão), ligado ao Movimento Brasil Livre (MBL), permanecesse na disputa pelo governo paulista. O parlamentar, porém, desistiu da corrida e decidiu concorrer à reeleição.
Também havia expectativa sobre uma candidatura da federação PSDB-Cidadania, com o ex-prefeito de São José dos Campos Paulo Serra, que disputará uma vaga na Câmara dos Deputados.
Na última pesquisa Datafolha que incluiu esses nomes, divulgada em março, Kataguiri e Serra registraram 5% cada. Enquanto o Missão deve manter neutralidade na disputa, a tendência é que Serra e os tucanos apoiem Tarcísio.
Histórico mostra disputa paulista com mais candidatos competitivos
O possível confronto direto entre Tarcísio e Haddad já no primeiro turno não tem precedente recente na política paulista. Desde 1982, sempre houve pelo menos um terceiro candidato competitivo além dos dois primeiros colocados.
O padrão se manteve mesmo durante o período de predominância do PSDB em São Paulo, partido que governou o estado entre 1995 e 2023. Em diversas eleições, candidatos de outras legendas tiveram votações expressivas e ajudaram a levar a disputa para uma segunda etapa.
Em 2022, Tarcísio e Haddad também se enfrentaram, mas precisaram disputar o segundo turno. Na primeira fase, eles superaram o então governador Rodrigo Garcia (PSDB), além de nomes como Vinicius Poit (Novo) e Elvis Cezar (PDT).
O histórico paulista reúne disputas marcadas por múltiplas candidaturas fortes. Em 1982, por exemplo, Franco Montoro (PMDB) venceu Reynaldo de Barros (PDS) em uma eleição que também contou com Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jânio Quadros (PTB).
Ao longo das décadas seguintes, nomes como Paulo Maluf, José Serra, Geraldo Alckmin, José Genoíno, Marta Suplicy, Aloizio Mercadante, Celso Russomanno, Paulo Skaf e outros candidatos tiveram votações relevantes e impediram disputas restritas a apenas dois grupos.
Em 2018, a eleição paulista teve um dos segundos turnos mais apertados da história, quando João Doria (PSDB) venceu Márcio França (PSB) por cerca de 741 mil votos de diferença.
Cenário paulista ganha peso nacional
A disputa pelo governo de São Paulo volta a ser estratégica para os principais grupos políticos do país. Em 2022, o estado teve papel decisivo na eleição presidencial, quando Lula venceu Jair Bolsonaro pela menor margem da história: 50,9% contra 49,1%.
Embora Bolsonaro tenha vencido no estado naquela ocasião, Lula e Haddad conseguiram superar o adversário na capital paulista e em municípios da região metropolitana, como Diadema, Osasco, Francisco Morato, Itapecerica da Serra e São Bernardo do Campo.
Diante da atual configuração eleitoral e da indefinição do palanque petista em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil, a disputa paulista passa a ter ainda mais importância nas estratégias nacionais de 2026.
Fonte: OGLOBO



