Decisão de Moraes amplia tensão entre Michelle e Flávio Bolsonaro

A decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), que proibiu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência da República, de visitar o ex-presidente Jair Bolsonaro, provocou reações entre aliados e abriu novas interpretações sobre os impactos políticos da medida no núcleo familiar e na campanha do Partido Liberal.

A determinação, com validade de 90 dias, faz com que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro passe a ser a principal interlocutora do marido em um momento considerado estratégico para a definição de alianças estaduais e das convenções partidárias que antecedem as eleições presidenciais.

Embora uma declaração manuscrita de Jair Bolsonaro coloque Flávio como seu único porta-voz e, segundo aliados, desautorize Michelle no contexto do racha familiar, a restrição imposta por Moraes muda a dinâmica interna. Na prática, Michelle passa a ter acesso direto ao ex-presidente, enquanto Flávio ficará impedido de visitá-lo pelo menos até o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.

Nos bastidores do PL, integrantes avaliam que a decisão fortalece Michelle dentro do círculo mais próximo de Bolsonaro, mas também pode beneficiar politicamente Flávio ao reforçar, perante parte do eleitorado, a narrativa de perseguição judicial ao ex-presidente e seus aliados.

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Um integrante da cúpula do partido afirmou ao blog que a decisão oferece argumentos para o discurso de perseguição ao STF.

“Se a equipe de marketing quisesse ter encomendado um fato político bom, não poderia ter encomendado um melhor”, declarou.

Além de Flávio, Jair Bolsonaro também está proibido de manter comunicação com o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, que vive nos Estados Unidos, e com o presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, investigado no caso da suposta trama golpista.

Valdemar também afirmou ao blog que a medida tende a favorecer Flávio politicamente.

“Isso só vai fazer o Flávio subir ainda mais nas pesquisas, porque perante os eleitores ninguém gosta de ver um filho ser proibido de visitar o pai”, disse.

Integrantes da campanha do senador afirmam que a decisão faz parte de uma sequência de medidas judiciais que, na avaliação deles, prejudicam interesses do PL. Entre os exemplos citados está a manutenção do desembargador Ricardo Couto no governo interino do Rio de Janeiro, em vez da posse do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Douglas Ruas (PL).

Outro impacto apontado por aliados envolve a articulação política da campanha presidencial. Com Flávio impedido de visitar o pai, cresce a dificuldade para concluir negociações de palanques estaduais e avançar no projeto de unificação da direita, defendido por Jair Bolsonaro em carta divulgada recentemente.

Durante uma transmissão ao vivo realizada na segunda-feira (13), Flávio criticou a decisão de Moraes e comparou a situação ao período em que Luiz Inácio Lula da Silva esteve preso durante a campanha presidencial de 2018.

“Lula podia fazer tudo, qual o critério agora com o presidente Bolsonaro? Ele está censurado, não pode usar as suas redes sociais”, afirmou.

Enquanto isso, a expectativa dentro do partido se volta para Michelle Bolsonaro. Após deixar a presidência do PL Mulher, alegando a necessidade de cuidar integralmente do marido e da filha do casal, Laura, a ex-primeira-dama voltou a ganhar protagonismo político.

Desde a divulgação de um vídeo de 27 minutos em que acusou Flávio de maltratá-la e de “apunhalá-la pelas costas”, Michelle tem afirmado a aliados que não pretende participar da campanha do enteado.

Com Flávio e Valdemar afastados do contato direto com Jair Bolsonaro, Michelle reassume o papel de principal interlocutora do ex-presidente. Embora outras visitas continuem autorizadas, aliados avaliam que nenhuma possui o mesmo grau de influência.

Carlos Bolsonaro segue visitando o pai com frequência, mas está concentrado em viabilizar sua candidatura ao Senado por Santa Catarina. Jair Renan Bolsonaro também atua na articulação de sua candidatura à Câmara dos Deputados pelo mesmo estado.

Nos bastidores do PL, permanece a dúvida sobre qual será a postura de Michelle diante do novo cenário. Integrantes do partido não sabem se ela atuará como ponte entre Flávio e Jair Bolsonaro ou se utilizará o acesso privilegiado ao marido para defender sua posição no conflito familiar.

Fonte: G1