Uma emenda parlamentar de R$ 280 mil, atribuída pela Polícia Federal (PF) ao presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, foi utilizada integralmente para custear um show de 90 minutos da dupla sertaneja Thaeme & Thiago durante a 21ª Festa do Peão de Boiadeiro de Guaimbê, município de cerca de 5,5 mil habitantes no interior de São Paulo.
Os recursos foram repassados por meio de um convênio com o Ministério do Turismo e, segundo documentos obtidos pelo O GLOBO, tiveram como único destino o pagamento da apresentação artística realizada em 8 de novembro de 2025.
A investigação da Polícia Federal apura a atuação de Valdemar Costa Neto na indicação de recursos do Orçamento da União, apesar de ele não exercer mandato parlamentar. Oficialmente, a emenda de comissão aparece registrada em nome do líder do PL na Câmara, deputado Sóstenes Cavalcante (RJ). No entanto, segundo a PF, parlamentares do partido eram utilizados para formalizar indicações previamente definidas pelo presidente da legenda.
Na semana passada, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens de Valdemar e suspendeu a execução das despesas relacionadas às emendas investigadas.

Prefeita defende aplicação dos recursos
A prefeita de Guaimbê, Márcia Helena Pereira Cabral Achilles, afirmou que o município depende de apoio federal para promover eventos culturais e disse ter sido surpreendida ao descobrir que os recursos eram provenientes de uma emenda atribuída a Valdemar Costa Neto.
“Me espantei quando saiu que era dinheiro de emenda do Valdemar. Achava que era um programa do Ministério, até por que eu não sou do PL. Acredito que isso aí, do presidente do partido incluir alguns municípios, foi algo feito não só por ele, mas por outros. É uma prerrogativa deles.”
Ela também defendeu o valor pago pela apresentação da dupla sertaneja.
“Teve o show, teve a festa. Para a contratação do show, o Ministério tem que aprovar. A prefeitura não contrata qualquer artista. Tem artistas por R$ 400 mil, R$ 500 mil, R$ 600 mil, mas não sou eu que vou mensurar o valor do trabalho deles.”
Nota fiscal comprova pagamento
A nota fiscal obtida pelo O GLOBO registra o pagamento de R$ 280 mil à empresa THM & THG Produções Artísticas pela apresentação de Thaeme & Thiago, com duração de uma hora e meia, durante a festa realizada em Guaimbê.
O documento informa que a contratação ocorreu por inexigibilidade de licitação e inclui os dados bancários da empresa — agência, conta-corrente e chave PIX — utilizados para o recebimento dos recursos.
Segundo os documentos, o Ministério do Turismo transferiu os R$ 280 mil à Prefeitura de Guaimbê, que contratou a dupla. Após o evento, a empresa emitiu a nota fiscal vinculando o pagamento ao convênio federal, indicando que toda a verba foi destinada ao cachê da apresentação.
O convênio foi assinado em 30 de outubro de 2025, prevendo repasse de R$ 280 mil da União e contrapartida municipal de apenas R$ 500. No plano de trabalho, a prefeitura justificou que o evento estimularia o turismo, movimentaria o comércio local e valorizaria as tradições culturais do município. O acordo permaneceu vigente até 8 de janeiro de 2026.
Embora a emenda esteja formalmente vinculada ao deputado Sóstenes Cavalcante, a investigação da PF sustenta que a indicação partiu de Valdemar Costa Neto.
Outros eventos também receberam recursos
Os documentos analisados apontam que o financiamento de shows com recursos das emendas investigadas não ficou restrito a Guaimbê.
Outra emenda de R$ 220 mil, também atribuída pela Polícia Federal a Valdemar Costa Neto, foi utilizada para custear integralmente as atrações do 79º aniversário de Macedônia (SP).
Desse total, R$ 190 mil foram destinados ao show da cantora Mariana Fagundes, enquanto R$ 30 mil financiaram a apresentação da dupla Neto & Jr., ambas com duração de uma hora e meia.
O O GLOBO também identificou um terceiro convênio semelhante em Cafelândia (PR), onde o Ministério do Turismo firmou acordo de R$ 290 mil para financiar shows durante o 43º aniversário do município.
A principal atração voltou a ser Thaeme & Thiago, contratada por R$ 291 mil, valor superior ao pago em Guaimbê. A apresentação ocorreu em 21 de novembro de 2025, mas a nota fiscal só foi emitida e atestada pela prefeitura em 26 de março de 2026, cerca de quatro meses depois.
Cachês aumentaram nos últimos anos
Contratos públicos mostram uma valorização gradual do cachê da dupla sertaneja.
Em 2019, a Prefeitura de Rio Bananal (ES) pagou R$ 116 mil por um show. Em 2022, Parapuã (SP) desembolsou R$ 140 mil por uma apresentação semelhante. Em 2023, Araranguá (SC) contratou a dupla por R$ 130 mil.
Já em 2025, a Prefeitura de São Sebastião do Rio Verde (MG) pagou R$ 200 mil pelo espetáculo. Nos convênios financiados com recursos federais, os valores chegaram a R$ 280 mil em Guaimbê e R$ 291 mil em Cafelândia, ambos para apresentações de aproximadamente 90 minutos.
Sóstenes comenta investigação
Procurado, o deputado Sóstenes Cavalcante afirmou que as emendas vinculadas ao seu nome possuem natureza compartilhada e seguem deliberação das comissões permanentes da Câmara.
“Todas as emendas em outros Estados fora do Rio de Janeiro, que são indicadas em meu nome, são emendas de comissão, que são indicados pela liderança ao presidente da comissão, que submete a voto dos membros da comissão para o devido pagamento, conforme manda a lei.”
Conforme revelou o O GLOBO, a Polícia Federal sustenta que Valdemar Costa Neto indicava diretamente recursos do Orçamento da União utilizando parlamentares do PL para formalizar os pedidos.
Na decisão da semana passada, o ministro Flávio Dino acolheu os indícios apresentados pela PF, determinou o bloqueio de R$ 119,2 milhões em bens do dirigente partidário e suspendeu a execução das despesas relacionadas às emendas sob investigação.
Nos bastidores do STF, ministros demonstram preocupação com o que consideram um desvirtuamento do sistema de emendas parlamentares. Segundo integrantes da Corte, pessoas sem mandato eletivo ou cargo público não deveriam exercer influência sobre a destinação de recursos do Orçamento da União. Magistrados também avaliam que episódios como o de Guaimbê reforçam a necessidade de ampliar o controle e a fiscalização da execução das verbas públicas.
Procurados, Valdemar Costa Neto, o Ministério do Turismo e a assessoria da dupla Thaeme & Thiago não haviam se manifestado até a publicação da reportagem.
Fonte: OGLOBO



