Estreito de Ormuz vira foco da crise do petróleo e pressiona economia dos EUA

A escalada das tensões no Estreito de Ormuz criou um “novo normal” para o mercado internacional de petróleo, marcado por forte volatilidade nos preços, incertezas geopolíticas e impactos nas cadeias globais de abastecimento. Mesmo sem um bloqueio da rota, ameaças militares e disputas pelo controle da passagem passaram a influenciar diariamente o custo do petróleo e do transporte marítimo.

Além dos efeitos sobre o mercado de energia, a região se tornou um importante instrumento de pressão do Irã no conflito com os Estados Unidos e um desafio para o presidente Donald Trump, que enfrenta os impactos econômicos da crise às vésperas das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para novembro.

Nos últimos dias, novas ofensivas entre os dois países colocaram em dúvida o cessar-fogo anunciado em junho e reacenderam as preocupações com a segurança da navegação na região, impulsionando novamente os preços do petróleo.

Na segunda-feira (13), o barril do tipo Brent, referência internacional da commodity, chegou a subir mais de 9%, alcançando US$ 83,04, após Trump anunciar que os Estados Unidos pretendem controlar o Estreito de Ormuz e cobrar uma taxa de 20% sobre as cargas que utilizarem a rota. Já nesta terça-feira (14), o Brent avançou para US$ 86,47, o maior valor registrado em cerca de quatro semanas.

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O Estreito de Ormuz liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e responde pela passagem de aproximadamente 20% de todo o petróleo consumido no mundo, tornando-se uma das rotas estratégicas mais importantes para o abastecimento global.

Segundo Jackson Campos, especialista em comércio exterior, o mercado entrou em uma nova fase caracterizada pela volatilidade constante.

“A principal característica desse novo cenário é a volatilidade e a incerteza”, afirma. Para ele, mesmo sem interrupção efetiva do fornecimento, o risco de bloqueios faz com que armadores, seguradoras e refinarias reajam preventivamente, elevando custos de frete e seguro marítimo.

Campos destaca ainda que qualquer declaração política ou ameaça envolvendo Estados Unidos e Irã passou a provocar reações imediatas nos preços, incorporando o risco geopolítico ao custo das operações.

Na avaliação do economista Adriano Pires, sócio-fundador e diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), o Estreito de Ormuz tornou-se a principal referência para a formação dos preços do petróleo no curto e médio prazo.

Segundo ele, os conflitos recentes, incluindo a guerra entre Rússia e Ucrânia, reforçaram a relação entre segurança energética, segurança alimentar e inflação. Pires afirma que Rússia e Oriente Médio ocupam posições estratégicas na produção global de petróleo, gás natural e fertilizantes, e acredita que a disputa pelo controle de Ormuz deverá manter períodos alternados de maior e menor tensão.

A volatilidade do petróleo também representa um desafio para Donald Trump, que tem defendido preços mais baixos da energia para estimular a economia dos Estados Unidos e conter a inflação.

De acordo com Gunter Rudzit, professor de Relações Internacionais da ESPM, o Irã identificou justamente esse ponto de vulnerabilidade da economia americana ao utilizar o Estreito de Ormuz como instrumento de pressão.

“O Irã ganhou a guerra justamente porque entendeu que o Estreito de Ormuz fechado faria com que o preço do petróleo e dos combustíveis subisse nos EUA. Isso afeta o eleitor, atingindo até mesmo a base ‘MAGA’ do presidente Trump”, afirma.

Nos Estados Unidos, os preços da gasolina já começaram a subir. Segundo a associação automobilística AAA, o valor médio nacional atingiu US$ 3,84 por galão em 9 de julho, alta de cinco centavos em apenas um dia, embora ainda abaixo do pico de US$ 4,56 registrado em maio.

A proximidade das eleições de meio de mandato aumenta a preocupação da Casa Branca. Em novembro, os eleitores escolherão governadores, os 435 integrantes da Câmara dos Representantes e 35 senadores. Atualmente, o Partido Republicano controla as duas Casas do Congresso.

Para Adriano Pires, um petróleo acima de US$ 90 por barril representaria um problema político para Trump, já que encareceria combustíveis e elevaria a inflação. Segundo ele, a expectativa é que o governo tente evitar que a cotação ultrapasse esse patamar até as eleições.

Durante o auge da crise provocada pelas tensões no Estreito de Ormuz, entre março e abril, o petróleo chegou a se aproximar de US$ 120 por barril.

Já Jackson Campos acredita que o mercado tende a se adaptar gradualmente ao novo cenário, buscando diversificar fornecedores e firmar contratos mais flexíveis para reduzir a dependência da rota enquanto a situação permanecer instável.

Fonte: G1