O Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) aprovou nesta terça-feira (14) o aumento da mistura obrigatória de etanol anidro na gasolina, que passa de 30% para 32%. A medida terá validade inicial de 180 dias, podendo ser prorrogada por mais 180 dias, e foi adotada em meio à volatilidade do mercado internacional de petróleo.
Segundo o CNPE, a ampliação da participação do etanol produzido no Brasil busca reduzir a dependência de combustíveis fósseis importados e fortalecer a matriz energética nacional. A decisão ocorre em um momento de alta nos preços do petróleo, impulsionada pelo aumento das tensões entre Estados Unidos e Irã, que geram preocupação sobre possíveis interrupções no transporte de petróleo pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passava cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo antes do conflito.
Embora o governo defenda que a nova mistura é segura, especialistas alertam que veículos mais antigos ou sem calibração específica podem apresentar aumento no consumo de combustível, corrosão e desgaste de componentes.
A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) já havia defendido que a mudança fosse precedida por mais estudos técnicos. Segundo engenheiros, um dos principais desafios está na compatibilidade dos materiais, principalmente em veículos importados e modelos mais antigos desenvolvidos para operar com menores concentrações de etanol.

O CNPE afirma que testes avaliaram desempenho, dirigibilidade, partida a frio, consumo e emissões tanto em laboratório quanto em condições reais de uso. Conforme o conselho, a mistura E32 apresentou comportamento equivalente ao das misturas anteriores, sem impactos relevantes no funcionamento dos veículos, inclusive os equipados com motores não flex.
Apesar disso, o engenheiro e diretor de combustíveis da Associação Brasileira de Engenharia Automotiva (AEA), Rogério Gonçalves, explica que automóveis mais antigos tendem a sofrer mais com a nova concentração de etanol. Segundo ele, podem ocorrer corrosão e desgaste em componentes do sistema de injeção, provocando falhas de funcionamento, aumento do consumo, maiores emissões e até danos à bomba de combustível e aos bicos injetores.
O etanol anidro, embora passe por processo de desidratação, pode absorver água do ambiente e transportá-la para o interior do motor. A presença dessa umidade pode comprometer componentes metálicos, aumentar a condutividade elétrica e favorecer a corrosão eletroquímica.
Entre as peças que entram em contato direto com o combustível estão tanque, boia, bomba de combustível, linhas metálicas e plásticas, bicos injetores, câmara de combustão, pistões e vedações. Especialistas afirmam que todos esses componentes precisam estar preparados para suportar a nova concentração de etanol.
Profissionais da área de manutenção também alertam para possíveis ressecamentos de mangueiras e borrachas, oxidação de bombas e bicos injetores e dificuldades na partida do motor, principalmente em veículos fabricados há 20 ou 30 anos, equipados com carburador ou sistemas de injeção eletrônica mais simples.
Segundo Fábio Rhoden, da Flacht Motorsport & Classic Center, esses veículos podem apresentar marcha lenta irregular, perda de potência, engasgos durante acelerações, entupimento mais rápido do filtro de combustível e redução da vida útil das velas de ignição.
Nos modelos importados modernos sem tecnologia flex, a Unidade de Controle Eletrônico (ECU) pode chegar ao limite de compensação da mistura, resultando em aumento expressivo do consumo.
O impacto também pode ser financeiro. Conforme Vinicius Giungi, proprietário da Benimports, os componentes mais procurados por proprietários de veículos importados são velas, bombas de combustível, bicos injetores, sensores, mangueiras e peças de vedação.
Segundo ele, marcas como Audi, BMW, Mercedes-Benz, Porsche, Land Rover e modelos importados da Volkswagen, como o Golf GTI, estão entre as que mais demandam esses componentes.
Entre os defeitos relatados estão entupimento dos bicos injetores, desgaste prematuro das bombas de combustível, ressecamento de mangueiras e vedações, oxidação de conectores elétricos, travamento dos injetores e redução da vida útil das velas de ignição.
Os custos podem ser elevados. Um bico injetor para uma BMW 320 fabricada entre 2012 e 2019 custa a partir de R$ 1.256 cada, sem considerar a mão de obra. Já a bomba de combustível de um Range Rover Evoque produzido entre 2011 e 2019 ultrapassa R$ 1.900.
A Anfavea reiterou ser favorável aos biocombustíveis e ao papel do etanol na descarbonização da frota brasileira, mas defende que qualquer aumento na mistura seja precedido por cronogramas rigorosos de testes, conforme normas técnicas da ABNT. A posição foi apresentada em conjunto com o Sindipeças.
Já a União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica) afirma que a proposta foi construída no âmbito do programa Combustível do Futuro, com participação de órgãos públicos, instituições de pesquisa e representantes dos setores automotivo, energético e regulatório.
Segundo a entidade, estudos realizados pelo Instituto Mauá de Tecnologia indicaram que a mistura E32 é tecnicamente viável para veículos leves e motocicletas movidos exclusivamente a gasolina, sem identificação de impactos no desempenho ou no funcionamento geral da frota analisada.
A Unica também afirma que o setor possui capacidade para atender ao aumento da demanda por etanol anidro, estimada em cerca de 1 bilhão de litros por ano, enquanto a produção poderá crescer aproximadamente 4 bilhões de litros na próxima safra. A entidade ainda estima que a medida pode reduzir a importação de aproximadamente 800 milhões de litros de gasolina por ano.
Fonte: G1



