Taxa de 20% proposta por Trump em Ormuz pode render dezenas de milhões de dólares por navio

A proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de cobrar uma taxa equivalente a 20% sobre toda a carga transportada pelo Estreito de Ormuz pode gerar uma arrecadação de dezenas de milhões de dólares por embarcação, caso seja colocada em prática. O anúncio foi feito na segunda-feira em meio à escalada das tensões entre Washington e Teerã, após o fim do cessar-fogo firmado em abril.

Simulações baseadas em cargas que cruzaram a hidrovia mostram o potencial financeiro da medida. Um dos exemplos é o petroleiro Humanity, apontado pela empresa de análise Kpler como um dos seis navios que atravessaram o estreito no último fim de semana transportando cerca de 2 milhões de barris de petróleo iraniano.

Considerando o preço de referência do petróleo Brent, em aproximadamente US$ 83,30 (R$ 429,08) por barril, a carga é estimada em US$ 166,6 milhões (R$ 858,16 milhões). Nesse cenário, uma cobrança de 20% renderia aos Estados Unidos cerca de US$ 33,3 milhões (R$ 171,53 milhões) apenas com essa embarcação.

Outro caso citado pela Kpler é o petroleiro Capetan Andreas, que transportava aproximadamente 500 mil barris de derivados de petróleo do Kuwait. Como esses produtos possuem valor inferior ao petróleo bruto, com preços entre US$ 45 e US$ 65 por barril, segundo a publicação especializada Ship & Bunker, a arrecadação estimada variaria entre US$ 4,5 milhões (R$ 23,17 milhões) e US$ 6,5 milhões (R$ 33,47 milhões).

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As projeções indicam valores muito superiores às tarifas atualmente cobradas pelo Irã para a passagem de embarcações no estreito, que podem chegar a US$ 2 milhões (R$ 10,30 milhões) por navio. No caso do Humanity, a taxa anunciada por Trump seria aproximadamente 16 vezes maior que a cobrada por Teerã.

As estimativas, porém, são apenas simulações. Até o momento, o governo americano não divulgou detalhes sobre a forma de cálculo da tarifa nem informou se haverá exceções ou critérios específicos para a cobrança.

Trump diz que EUA devem ser compensados

Segundo Donald Trump, a taxa tem como objetivo compensar os custos das operações militares e de segurança realizadas pelos Estados Unidos na região.

Em entrevista à Fox News, o presidente afirmou que os EUA passarão a atuar como “guardiões” do Estreito de Ormuz e defendeu que o país seja remunerado por esse papel.

“Vamos receber dinheiro para protegê-lo. Muito dinheiro. Tudo o que queremos é ser reembolsados por fazer tudo isso, por colocar nosso povo em perigo”, declarou.

Trump também afirmou que Washington está “tomando o controle” da passagem marítima e voltou a acusar o Irã de agir de má-fé durante as negociações entre os dois países.

Irã rejeita proposta e endurece discurso

A reação iraniana ocorreu poucas horas depois. Em pronunciamento em vídeo, o porta-voz do comando militar Khatam al-Anbiya afirmou que o país não permitirá, “sob nenhuma circunstância”, qualquer interferência dos Estados Unidos na administração do Estreito de Ormuz.

O militar também advertiu os países do Golfo, afirmando que qualquer colaboração com Washington será considerada “um ato de guerra”.

Posteriormente, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, respondeu de forma irônica à proposta de Trump em publicação na rede X.

“O presidente está absolutamente certo. Quem proporciona a passagem segura de embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz deve ser compensado por esse serviço. O Irã sempre foi o GUARDIÃO do Estreito e continuará sendo para SEMPRE.”

Na mesma publicação, acrescentou:

“20% é, obviamente, demais. Seremos justos.”

Teerã também reafirmou que não permitirá interferência americana em uma área considerada estratégica para o transporte mundial de petróleo e gás. O governo iraniano responsabilizou os Estados Unidos pelo retorno da instabilidade na região, enquanto a Guarda Revolucionária acusou Washington de colocar em risco o abastecimento global de energia.

Acordo de paz enfrenta crise

O aumento das tensões ocorre em um momento de fragilidade do acordo firmado em 17 de junho entre Estados Unidos e Irã, que previa uma trégua de 60 dias para negociações sobre o encerramento do conflito.

Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmaeil Baqaei, o entendimento atravessa um momento delicado.

“Não há dúvida de que o acordo está em crise. Mas o Irã nunca foi o primeiro a deixar de cumprir seus compromissos.”

Na semana passada, Trump declarou que o cessar-fogo estava encerrado após ataques iranianos contra embarcações na região.

No centro da disputa permanece o Estreito de Ormuz, corredor marítimo por onde, antes da guerra, transitavam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito comercializados no mundo.

Embora o acordo previsse a reabertura da hidrovia, o Irã autorizou apenas um corredor de navegação próximo à sua costa e descartou o retorno ao modelo de livre circulação existente antes do conflito.

Os ataques e ameaças contra embarcações reduziram drasticamente o tráfego marítimo pelo estreito em março, provocando escassez global de combustíveis. Após o cessar-fogo, o fluxo registrou recuperação parcial, mas segue abaixo dos níveis observados antes da guerra.

Fonte: OGLOBO