Muito antes do histórico duelo da “Mão de Deus”, em 1986, a rivalidade entre Argentina e Inglaterra já havia ganhado contornos dramáticos dentro de uma Copa do Mundo. O ponto de partida ocorreu no Mundial de 1966, disputado na Inglaterra, quando o capitão argentino Antonio Rattín protagonizou um dos episódios mais polêmicos da história do torneio ao desafiar a arbitragem e realizar gestos considerados provocativos contra os anfitriões.
Rattín, que morreu no último sábado, foi o personagem central das quartas de final disputadas em 23 de julho de 1966, no estádio de Wembley. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o meio-campista foi expulso verbalmente pelo árbitro alemão Rudolf Kreitlein após insistentes reclamações. Na época, a Fifa ainda não utilizava cartões amarelos e vermelhos, e as punições eram comunicadas apenas de forma verbal.
Anos depois, em entrevista concedida ao jornal argentino La Nación, em 2016, Rattín afirmou que considerava a arbitragem favorável aos ingleses e tentou, sem sucesso, pedir um intérprete para entender o motivo da expulsão.
“Aquele cara estava dando tudo para eles: escanteios, faltas. Ele até inventava toques de mão. Tudo para o time da casa. Então mostrei a ele minha braçadeira de capitão e, por vários minutos, pedi um intérprete para me explicar. Aí me lembro que, aos 35 minutos do primeiro tempo, a Roma cobrou um tiro de meta e passou para o Marzolini na esquerda. Continuei insistindo para o árbitro chamar um intérprete, e ele me expulsou”, relatou.

O ex-jogador também recordou que permaneceu no gramado cercado pelos companheiros antes de deixar o campo.
“Fiquei parado no meio do campo, e meus companheiros de equipe me cercaram para impedir que me expulsassem. Mas então o vice-presidente da FIFA e vários outros dirigentes entraram. Não tive escolha a não ser ir para o vestiário.”
A saída de Rattín acabou marcada por duas atitudes que ajudaram a alimentar a rivalidade entre argentinos e ingleses. Primeiro, ele se sentou por alguns minutos sobre o tapete vermelho reservado ao camarote da Rainha Elizabeth II, mesmo sem a presença da monarca no estádio. Em seguida, enquanto caminhava em direção ao vestiário, reagiu às provocações da torcida.
“Fui me sentar no tapete vermelho do camarote da Rainha. Ela não estava no estádio, mas mesmo assim fiquei sentado lá por uns cinco minutos. Depois me levantei e fui para o vestiário, que ficava atrás do gol. Não havia túnel de acesso. Enquanto caminhava, vi os torcedores jogando chocolate. Eu abria a embalagem, mastigava um pouco e jogava de volta. Então cheguei à esquina do campo e vi uma pequena bandeira britânica tremulando nos postes de canto. Torci-a na mão, olhei para os torcedores e disse: ‘Seus filhos da p… ingleses!’ Aí eles começaram a jogar latas de cerveja fechadas em mim. Então, meio que corri para não ser atingido na cabeça por uma delas”, contou.
O episódio teve reflexos diretos na organização das Copas do Mundo. Como consequência das dificuldades enfrentadas pela arbitragem para comunicar advertências e expulsões, a Fifa introduziu os cartões amarelo e vermelho na edição de 1970, realizada no México. Até então, todas as punições eram anunciadas verbalmente. Naquele Mundial, cinco cartões foram exibidos.
A rivalidade ganhou um novo capítulo na década de 1980, período marcado pela Guerra das Malvinas, em 1982. O conflito entre Argentina e Reino Unido pelo controle do arquipélago — chamado de Falklands pelos britânicos — durou cerca de três meses e terminou com a rendição argentina. Segundo os dados do conflito, morreram 649 militares argentinos, 255 militares britânicos e três moradores das ilhas. Apesar da derrota, o tema permanece presente no debate político e na memória dos argentinos.
Quatro anos depois, as duas seleções voltaram a se enfrentar nas quartas de final da Copa do Mundo de 1986, no Estádio Azteca, no México. Diego Maradona marcou dois dos gols mais emblemáticos da história do futebol: o primeiro ficou conhecido como “A Mão de Deus”, por ter sido anotado com a mão, enquanto o segundo entrou para a história após uma arrancada em que driblou praticamente toda a defesa inglesa.
A vitória por 2 a 1 classificou a Argentina para a semifinal, na qual derrotou a Bélgica por 2 a 0. Na decisão, venceu a Alemanha por 3 a 2 e conquistou o título mundial, consolidando Maradona como principal nome daquela Copa.
O confronto voltou a acontecer em 1998, na França, pelas oitavas de final. Após empate por 2 a 2 no tempo normal, David Beckham foi expulso em um lance envolvendo Diego Simeone. A decisão foi para os pênaltis, e a Argentina venceu por 4 a 3.
O reencontro seguinte ocorreu na fase de grupos da Copa do Mundo de 2002, no Japão. Desta vez, a Inglaterra levou a melhor com vitória por 1 a 0, graças a um gol de pênalti marcado por David Beckham. A derrota contribuiu para a eliminação da Argentina ainda na primeira fase do torneio.
Fonte: GE



