Trump volta a alegar fraude eleitoral e acusa China de interferência nas eleições de 2020

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltou a levantar acusações sem comprovação sobre fraude nas eleições presidenciais de 2020 e afirmou que divulgará documentos sigilosos que, segundo ele, demonstrariam uma suposta interferência da China no processo eleitoral americano. O discurso foi feito a menos de quatro meses das eleições legislativas de novembro, em um momento em que pesquisas indicam possível dificuldade para o Partido Republicano manter sua maioria no Congresso.

Antes de abordar o tema eleitoral, Trump fez um balanço positivo de seu governo, destacando resultados na economia, na política migratória, a intervenção dos Estados Unidos na Venezuela, realizada em janeiro, e criticando o ex-presidente Joe Biden. O republicano também mencionou brevemente a guerra no Irã.

“Há dois anos, nosso país estava morto. Agora, somos o país mais em alta de todo o mundo. A América é respeitada como nunca antes. Temos mais dinheiro sendo investido nos Estados Unidos do que em qualquer outro momento da história do nosso país. Mais americanos estão trabalhando hoje do que nunca”, afirmou.

Na sequência, Trump anunciou que pretende divulgar documentos que, segundo ele, comprovariam que dados do sistema eleitoral americano, como nomes, endereços, telefones e preferências partidárias de eleitores, ficaram expostos a agentes estrangeiros, especialmente chineses. Em diversos estados norte-americanos, porém, parte dessas informações já é pública e pode ser acessada pela internet.

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“Essas informações incluem nomes, endereços, números de telefone, preferências partidárias e outros dados sensíveis que seriam necessários para se registrar para votar e participar de outras atividades ilícitas. O que é exatamente o que estava acontecendo”, declarou. Trump também acusou Pequim de financiar jornalistas para produzir reportagens negativas contra ele e afirmou que “o governo chinês queria que o presidente dos EUA perdesse a próxima eleição”.

Até o momento, não há informações de que os documentos mencionados tragam elementos inéditos. Trump também não explicou de que forma a China teria utilizado os dados supostamente obtidos.

Em investigações realizadas anteriormente, a comunidade de inteligência dos Estados Unidos apontou indícios de ações da Rússia e do Irã para influenciar a opinião pública em favor de Trump, sem identificar tentativas de alterar o resultado das eleições. Em relação à China, as apurações concluíram, em 2020, que o país possuía capacidade para interferir no processo eleitoral, mas optou por não fazê-lo.

O governo chinês sempre classificou as acusações como “absurdas e ridículas” e, até o momento, não comentou a nova declaração do presidente americano. Em setembro, o presidente chinês Xi Jinping tem viagem prevista para Washington.

Durante o discurso, Trump também afirmou, citando uma investigação do Departamento de Segurança Interna, que 278 mil pessoas sem cidadania americana conseguiram se registrar para votar nas eleições de 2020. Segundo ele, o número real seria ainda maior. A alegação, repetida desde antes das eleições de 2016 e reforçada após sua derrota para Joe Biden em 2020, nunca foi acompanhada de provas.

O presidente voltou a acusar o FBI de encobrir suspeitas de fraude no estado de Michigan e classificou o sistema eleitoral americano como vulnerável.

“Essas revelações expõem um sistema eleitoral tão falho e tão vulnerável que ninguém consegue defendê-lo. É indefensável”, afirmou.

Trump também retomou críticas às urnas eletrônicas, alegando que os equipamentos são suscetíveis a ataques, embora não tenha citado casos concretos de violação. Recentemente, ele determinou uma auditoria nas máquinas de votação, e, em fevereiro, a então diretora da Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, realizou uma análise em equipamentos utilizados em Porto Rico sem encontrar irregularidades.

Ao final do pronunciamento, o presidente pediu que o Congresso aprove seu pacote de reforma eleitoral, que prevê medidas como a obrigatoriedade de comprovação de cidadania para votar, restrições ao voto por correspondência, adoção de cédulas de papel e ampliação de auditorias eleitorais. Parlamentares, inclusive integrantes da base republicana, avaliam que as chances de aprovação antes das eleições de novembro são reduzidas.

“A todos os americanos: peço que peguem o telefone amanhã, liguem para seus representantes na Câmara e no Senado e exijam que a aprovem sem demora”, disse.

O discurso foi transmitido pelo canal oficial da Casa Branca no YouTube. As principais emissoras dos Estados Unidos, como ABC, CNN e NBC, optaram por não exibir a íntegra da fala. A MSNBC e a CBS transmitiram apenas trechos, enquanto a Fox News foi a única a disponibilizar o pronunciamento completo. Em 2023, a emissora fechou um acordo de US$ 787 milhões após divulgar acusações falsas de fraude envolvendo o sistema de votação eletrônica da Dominion Systems, citado novamente por Trump.

Antes da transmissão, havia expectativa de que o presidente abordasse as eleições de 2020 na Geórgia, estado onde solicitou que autoridades locais “encontrassem” votos suficientes para reverter a vitória de Joe Biden. O tema, no entanto, ficou fora da versão final do discurso.

O senador democrata Jon Ossoff, da Geórgia, criticou antecipadamente o pronunciamento.

“Eis o que vai acontecer hoje à noite: o mau perdedor mais famoso do mundo fará um discurso presidencial em horário nobre, movido pelo ressentimento, para insistir em suas queixas infantis sobre a eleição de 2020, enquanto sua guerra no Oriente Médio sai de controle e o custo de vida continua a subir para os americanos em todo o país”, declarou.

Os Estados Unidos não possuem um sistema nacional unificado de votação. Cada estado estabelece suas próprias regras eleitorais, utilizando diferentes métodos, como urnas eletrônicas, cédulas de papel e voto por correspondência. Especialistas apontam que essa diversidade frequentemente gera debates sobre o processo, mas ressaltam que não houve comprovação das alegações de fraude eleitoral apresentadas por Trump desde 2020.

O líder da maioria republicana no Senado, John Thune, evitou apoiar a retomada desse discurso.

“Não sei o que ele vai dizer. A única coisa que posso dizer é que estamos focados na eleição de 2026, pelo menos eu estou, e acredito que a maioria dos meus colegas também”, afirmou.

Pesquisas indicam que os republicanos enfrentam um cenário desafiador para as eleições legislativas de novembro, que renovarão toda a Câmara dos Representantes e dois terços do Senado. Caso os democratas recuperem o controle de uma das Casas, o governo poderá enfrentar maiores dificuldades para aprovar projetos nos dois anos finais do mandato.

Segundo levantamento Washington Post-Ipsos divulgado na quarta-feira, Trump registra 61% de desaprovação, índice que chega a 65% entre eleitores independentes. A pesquisa também aponta desgaste entre grupos tradicionalmente favoráveis ao presidente, como homens brancos, evangélicos brancos e moradores de áreas rurais.

O senador republicano John Kennedy afirmou que a principal preocupação da população continua sendo o custo de vida.

“Se você me perguntar: quando pais e mães se deitam para dormir à noite e não conseguem, com o que eles mais se preocupam? Eu diria que é com o custo de vida. É nisso que eu acredito, mas ele é o presidente, foi eleito pelo povo e pode falar sobre o que quiser”, disse.

Além da retomada do discurso sobre fraude eleitoral, Trump anunciou que poderá cortar recursos federais destinados ao combate ao terrorismo para estados que não adotarem regras defendidas por seu governo, como o uso de cédulas de papel, auditorias eleitorais mais amplas e exigência de comprovação de cidadania para votação. Críticos afirmam que a medida pode enfraquecer a confiança no sistema eleitoral americano caso os resultados não sejam favoráveis ao presidente.

Fonte: OGLOBO