O economista americano Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia em 2008, afirmou que as tarifas impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra produtos brasileiros não devem produzir os efeitos esperados e tendem a fortalecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).
Em artigo publicado nesta segunda-feira (20) na plataforma Substack, Krugman argumenta que a utilização das tarifas como forma de pressionar o Brasil não terá sucesso. As novas tarifas, confirmadas na semana passada, entram em vigor na próxima quarta-feira (22).
“Usar as tarifas para punir o Brasil por suas conquistas monetárias não terá sucesso”, escreveu o economista.
Segundo Krugman, o impacto econômico da medida será limitado, principalmente porque os próprios Estados Unidos dependem da importação de produtos brasileiros como café, suco de laranja e carne bovina, itens que estão entre os principais exportados pelo Brasil ao mercado norte-americano.

O economista também sustenta que a decisão da administração Trump está ligada ao sucesso do Pix, sistema brasileiro de pagamentos instantâneos. Há um ano, Krugman publicou um artigo no qual definiu o Pix como o “dinheiro do futuro”.
Em seu novo texto, ele questiona a justificativa para as críticas ao sistema financeiro brasileiro.
“Por que é injusto um país oferecer a seus cidadãos uma maneira melhor de fazer compras e pagar contas?”, escreveu.
Krugman também afirma que a administração Trump busca punir o Brasil por razões políticas.
“De certa forma, a administração Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia”, declarou. Segundo o economista, ao contrário dos Estados Unidos, o Brasil processou o ex-presidente Jair Bolsonaro por supostamente tentar fomentar uma revolta após perder a última eleição.
No artigo, o Nobel de Economia compara a posição do governo Trump em relação ao Pix à sua política energética e afirma que a atual administração norte-americana se opõe ao avanço tecnológico quando ele contraria interesses econômicos.
“Este governo se opõe ao progresso, sempre que o progresso contraria os interesses e a ideologia dos oligarcas que investiram dinheiro na campanha de Trump e no seu bolso”, escreveu.
Krugman também menciona um relatório do Federal Reserve (Fed), o banco central dos Estados Unidos, divulgado em 2022, que descreve o Pix como uma moeda digital do Banco Central do Brasil, “análoga ao dinheiro de papel”.
O economista ainda questiona se seria considerada uma prática comercial desleal quando uma empresa perde clientes para outra que oferece um serviço melhor e mais barato.
“Mas desde quando é uma prática comercial desleal uma empresa perder clientes para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?”, perguntou. Em seguida, comparou a situação ao serviço postal norte-americano. “Deveríamos fechar o serviço postal dos EUA porque ele oferece um serviço de entregas melhor e mais barato do que a UPS e a FedEx?”, acrescentou.
Segundo Krugman, integrantes do governo Trump estariam preocupados com a possibilidade de o Pix e sistemas semelhantes reduzirem a hegemonia internacional do dólar. No entanto, ele avalia que o Brasil é pequeno demais para provocar mudanças significativas no sistema global de pagamentos.
Para o economista, um desafio mais relevante ao dólar poderia surgir caso o Banco Central Europeu implemente o euro digital até 2029, conforme o planejamento divulgado pela instituição.
“Se isso acontecer, não é difícil imaginar que um número significativo de transações antes feitas em dólar passarão a ser feitas em euros digitais”, escreveu.
Krugman também questiona por que os Estados Unidos ainda não desenvolveram um dólar digital e afirma que a ausência desse sistema não decorre de limitações técnicas, mas da resistência de grupos de interesse.
“Não porque seja uma má ideia — como o Brasil demonstrou, seria uma ótima ideia. Mas existem poderosos grupos de interesse que se opõem a qualquer iniciativa desse tipo”, afirmou.
Na conclusão do artigo, Krugman cita a economista brasileira Monica de Bolle, que também avalia que as tarifas tendem a fortalecer politicamente o governo brasileiro e que seus efeitos econômicos devem ser limitados.
“Mas a evidente insensatez dessas novas tarifas não impedirá que elas aconteçam. O governo Trump declarou guerra ao futuro”, concluiu o Nobel de Economia.



