Operação desarticula esquema milionário de roubo de remédios contra o câncer com apoio do TCP

A Polícia Civil do Rio de Janeiro deflagrou, nesta terça-feira (21), a Operação Metástase para desarticular uma organização criminosa especializada no roubo de medicamentos oncológicos e imunossupressores. Segundo a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas da Capital (DRFC-Cap), o grupo contava com o apoio da facção Terceiro Comando Puro (TCP), movimentou cerca de R$ 33 milhões em apenas um ano e utilizava empresas de fachada para recolocar os produtos roubados no mercado.

Até a última atualização da operação, cinco pessoas haviam sido presas. Três delas foram identificadas como Fernanda Rodrigues França, apontada como integrante do núcleo de receptadores; Stefano Montovani Fernandes, apontado como chefe do esquema e responsável por encomendar roubos de cargas; e Umberto Xavier de Lima, também investigado por receptação. Os três negaram as acusações.

De acordo com o delegado André Prates, os criminosos agiam com extrema violência para roubar medicamentos que, em muitos casos, seriam destinados ao abastecimento da rede pública de saúde.

“Roubam medicamentos que, muitas vezes, têm como destino o abastecimento da rede pública de saúde. E roubam de forma extremamente violenta, com fuzis e batedores”, afirmou o delegado.

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Após os roubos, as cargas eram levadas para o Complexo da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro. Segundo Prates, no local ocorria o pagamento aos assaltantes, além do armazenamento, fracionamento e distribuição dos medicamentos para diversas regiões do país por meio de empresas farmacêuticas de fachada.

“Não é só um crime contra o patrimônio ou contra a paz pública. Afeta diretamente pacientes que dependem desses medicamentos para o seu tratamento”, destacou o delegado.

A Justiça expediu cinco mandados de prisão preventiva e 97 mandados de busca e apreensão, autorizados pela 1ª Vara Especializada em Organização Criminosa do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. As ordens judiciais foram cumpridas no Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Pará.

No estado do Rio, as equipes atuaram no Complexo da Maré, onde houve intenso confronto armado e barricadas incendiadas, além de endereços na Baixada Fluminense. Em São Paulo, os mandados foram cumpridos na capital, em Santo André e São Caetano do Sul. Também houve diligências em Goiânia (GO) e Belém (PA), com apoio das forças policiais locais.

A investigação também resultou em pedidos de bloqueio de R$ 30 milhões em contas bancárias, além do sequestro de imóveis, veículos de luxo e outros bens utilizados para ocultar o patrimônio da organização.

Durante as buscas em Santo André, na residência de Stefano Montovani Fernandes, policiais localizaram medicamentos contra o câncer dentro de um veículo Jaguar, que foi apreendido.

A operação provocou impactos no Complexo da Maré. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, duas unidades de atenção primária suspenderam temporariamente o funcionamento, enquanto outras duas mantiveram os atendimentos, mas interromperam as visitas domiciliares.

As investigações da DRFC-Cap apontam que a organização criminosa era altamente estruturada e violenta, especializada em roubar medicamentos de alto valor destinados tanto à rede pública quanto à privada de saúde.

Os investigadores identificaram a participação do grupo em pelo menos 40 roubos semelhantes nos últimos seis meses e uma movimentação financeira superior a R$ 33 milhões entre 2025 e 2026, realizada por meio de empresas de fachada.

A Polícia Civil também constatou que parte dos medicamentos roubados era reinserida em instituições públicas de saúde em diferentes estados do país.

Segundo a apuração, a quadrilha era dividida em quatro núcleos responsáveis por etapas distintas da operação criminosa: roubadores, núcleo logístico-financeiro intermediário, núcleo logístico-financeiro final e suporte territorial.

Após os assaltos, praticados por criminosos fortemente armados, os medicamentos eram levados para áreas dominadas pelo TCP no Complexo da Maré. A facção fornecia apoio bélico e proteção aos roubadores, enquanto outro núcleo realizava o armazenamento, o fracionamento e a redistribuição dos produtos.

Para ocultar a origem ilícita das cargas, os integrantes utilizavam empresas de fachada, transportadoras, entregadores e laranjas. As investigações ainda revelaram a atuação de integrantes responsáveis por aliciar funcionários de transportadoras para obter informações privilegiadas sobre rotas e cargas.

Ao todo, foram identificadas 25 empresas de fachada distribuídas entre Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás e Pará, utilizadas para receptar os medicamentos roubados e movimentar os recursos da organização criminosa.

Segundo a Polícia Civil, os produtos eram revendidos tanto para hospitais privados quanto, em alguns casos, para instituições públicas de saúde por meio de processos licitatórios na modalidade de tomada de preços. Ao oferecer preços inferiores aos praticados no mercado regular, o grupo conseguia inserir medicamentos de origem criminosa na cadeia formal de fornecimento.

A corporação alertou que o esquema representa uma grave ameaça à saúde pública. Medicamentos oncológicos e imunossupressores exigem rigoroso controle de temperatura e armazenamento durante todo o transporte. Quando essas condições não são respeitadas, os produtos podem perder a eficácia, sofrer contaminação ou até gerar substâncias nocivas.

Ainda conforme a Polícia Civil, o elevado volume de medicamentos roubados pode comprometer o abastecimento dos sistemas de saúde, afetando diretamente pacientes oncológicos, transplantados e pessoas com doenças autoimunes que dependem desses tratamentos.

Fonte: G1