Flávio Bolsonaro perde apoio de federação e endurece discurso em meio à pressão na pré-campanha

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) enfrenta um momento de maior pressão em sua pré-campanha após sofrer um revés político com a decisão do PP de não integrar sua coligação. O posicionamento, anunciado pelo presidente da sigla, Ciro Nogueira, também afasta o União Brasil, já que os dois partidos integram uma federação. Paralelamente, o parlamentar passou a adotar um discurso mais alinhado ao do ex-presidente Jair Bolsonaro, com críticas mais duras ao Supremo Tribunal Federal (STF) e declarações questionando as urnas eletrônicas, informação que contraria evidências sobre a segurança do sistema eleitoral brasileiro.

A saída da federação representa um obstáculo para a campanha do senador, que também perde a possibilidade de ampliar o tempo de propaganda eleitoral na televisão. Nos bastidores, o Republicanos, apontado como possível alternativa para uma futura aliança, também demonstra resistência a um apoio já no primeiro turno, segundo interlocutores.

Entre os fatores que contribuíram para o distanciamento de partidos de centro está o discurso feito por Flávio Bolsonaro a diplomatas, no qual defendeu o envio do maior número possível de observadores internacionais para acompanhar as eleições e levantou dúvidas sobre o sistema eletrônico de votação. A postura reforçou, entre lideranças políticas, a percepção de que o senador se aproxima cada vez mais da retórica adotada por seu pai durante a Presidência da República.

Além das críticas ao sistema eleitoral, Flávio intensificou os ataques ao STF e ao ministro Alexandre de Moraes. A estratégia também inclui transmissões ao vivo com formato simplificado e o incentivo à presença de apoiadores em aeroportos durante viagens pelo país, reproduzindo cenas que marcaram a trajetória política de Jair Bolsonaro.

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Reservadamente, dirigentes do União Brasil, PP e Republicanos afirmam que essa mudança de postura afasta o senador da imagem mais moderada apresentada no início da pré-campanha. Em dezembro do ano passado, durante encontro com empresários em São Paulo, Flávio chegou a se definir como “moderado” e afirmou ser “o Bolsonaro que todo mundo quer”. Na mesma época, em entrevista ao jornal O Globo, destacou que havia tomado duas doses da vacina contra a Covid-19, diferenciando-se do pai.

Na noite de anteontem, dirigentes do PP se reuniram em Brasília com Ciro Nogueira e decidiram que a legenda adotará neutralidade na disputa presidencial. Com isso, os diretórios estaduais terão liberdade para definir seus apoios. Em alguns estados, como São Paulo, o partido poderá apoiar Flávio Bolsonaro, enquanto em outros, como a Paraíba, poderá caminhar com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Integrantes da direção do PP afirmam que o próximo passo deverá ser a oficialização da mesma posição pelo União Brasil. Segundo interlocutores, o presidente da legenda, Antonio Rueda, já vinha sinalizando que o partido seguiria o caminho da neutralidade.

Antes da definição, a campanha de Flávio Bolsonaro ainda tentou reverter o cenário. Entre as iniciativas esteve o convite para que a senadora Tereza Cristina (PP-MS) integrasse a chapa como candidata a vice-presidente. A parlamentar recusou o convite e informou que pretende disputar a presidência do Senado em 2027.

Aliados de Ciro Nogueira afirmam, sob reserva, que o dirigente do PP se irritou com o afastamento de Flávio após a operação da Polícia Federal que investiga a suposta atuação do senador para beneficiar Daniel Vorcaro, do Banco Master. A mudança na estratégia da pré-campanha também ocorreu após a divulgação de diálogos entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro nos quais o senador cobra recursos para financiar o filme “Dark Horse”, cinebiografia sobre Jair Bolsonaro.

Diante da sequência de desgastes, parte da equipe de campanha concluiu que seria necessário consolidar novamente o eleitorado bolsonarista antes de buscar apoio em outros segmentos. A partir desse diagnóstico, vídeos de Jair Bolsonaro passaram a aparecer com mais frequência nas redes sociais do filho, jingles passaram a destacar de forma mais explícita o legado do ex-presidente e eventos públicos voltaram a estimular mobilizações de apoiadores, incluindo o tradicional coro de “mito”.

Outra mudança foi a adoção das transmissões ao vivo como principal ferramenta de comunicação. Em uma das lives mais recentes, realizada após decisão do ministro Alexandre de Moraes que restringiu por 90 dias as visitas ao ex-presidente Jair Bolsonaro, Flávio apareceu em uma sacada no Rio de Janeiro tendo apenas uma bandeira do Brasil ao fundo. O formato foi repetido posteriormente em uma transmissão ao lado de Daniella Marques, filiada ao Republicanos e apontada como possível candidata a vice-presidente, para apresentar propostas voltadas ao público feminino.

Apesar do bom desempenho dessas transmissões entre parte da equipe, a estratégia não encontra consenso dentro do PL. Dirigentes avaliam que a retomada das críticas às urnas eletrônicas representa um erro político, por reabrir um tema que contribuiu para a inelegibilidade de Jair Bolsonaro e que, na visão de integrantes do partido, pouco ajuda na ampliação do eleitorado.

As declarações também receberam críticas de aliados externos. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), afirmou confiar nas urnas eletrônicas e defendeu que o debate político se concentre em propostas para o país.

Segundo Tarcísio, é necessário deixar de lado discussões que, em sua avaliação, não contribuem para o avanço do debate público e priorizar a apresentação de projetos para o Brasil.

Fonte: OGLOBO