O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez um pedido público de desculpas à ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na quinta-feira, em um gesto que busca colocar fim à crise familiar e política que se tornou pública há um mês. A reconciliação ocorre em um momento de desgaste para a pré-campanha presidencial do parlamentar, que enfrenta dificuldades para ampliar alianças e recuperar apoio, especialmente entre o eleitorado feminino.
O movimento foi considerado uma vitória política de Michelle Bolsonaro. Após a divulgação do vídeo pelo enteado, ela respondeu nas redes sociais afirmando que aceitava o pedido de desculpas e defendendo a união do grupo político em torno do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Segundo aliados, Flávio resistia a fazer um gesto público de reconciliação, mas acabou pressionado por integrantes do PL diante do impacto negativo provocado pelo conflito, que contribuiu para desgastes internos e afetou sua imagem durante a pré-campanha.
No vídeo direcionado à madrasta, o senador reconheceu o momento delicado enfrentado pelo grupo e afirmou que ninguém é perfeito.

“O momento é difícil para todo mundo. Ninguém é perfeito. Eu não sou perfeito e, mais uma vez, peço desculpas por alguns momentos que causaram desconforto”, declarou.
Flávio também destacou o papel desempenhado por Michelle no cuidado com Jair Bolsonaro diante das restrições impostas ao ex-presidente.
“Com a covardia que fizeram com meu pai, ela tem a responsabilidade de cuidar dele no dia a dia. Todo mundo sabe que, até hoje, até nós, os filhos, estamos proibidos de ver o próprio pai, o que aumenta ainda mais a importância dela. Ela precisa ser reconhecida e respeitada também por isso.”
O senador afirmou ainda que o campo conservador precisa permanecer unido e disse que o país “não aguenta mais quatro anos de PT”, pedindo apoio para sua pré-campanha.
Michelle respondeu por meio de um vídeo publicado no Instagram, no qual afirmou aceitar o pedido de desculpas.
“O nosso propósito pelo bem do povo sempre foi maior que desentendimentos, por isso aceito seu pedido. Eu te desculpo. Vamos sentar, conversar, ajustar os detalhes e juntos vamos reunir um grande exército de pessoas de bem para resgatarmos o nosso Brasil. Façamos isso pelo nosso maior líder, Jair Bolsonaro.”
Após a manifestação, a ex-primeira-dama informou que embarcaria no voo presidencial utilizado por Flávio Bolsonaro.
Crise teve origem em disputa no Ceará
O atrito entre os dois começou após divergências relacionadas à formação de palanques políticos no Ceará. No mês passado, Michelle divulgou um vídeo acusando o enteado de tê-la humilhado, episódio que desencadeou a crise pública e levou ao seu afastamento da presidência do PL Mulher.
Durante o pedido de desculpas, Flávio reconheceu o trabalho realizado pela ex-primeira-dama no comando do segmento feminino do partido.
“Todos nós reconhecemos o grande trabalho que ela fez no PL Mulher. Percorreu o Brasil inteiro por uma causa, inspirando milhares de mulheres a ingressarem na vida pública.”
A aproximação foi articulada por lideranças como o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e a governadora do Distrito Federal, Celina Leão (PP). Segundo interlocutores, Michelle condicionou a reconciliação a um pedido público feito pelo próprio enteado.
Pré-campanha enfrenta outros desafios
A tentativa de pacificação ocorre enquanto Flávio Bolsonaro enfrenta outros obstáculos em sua pré-campanha.
Além da crise familiar, partidos do Centrão demonstraram resistência em integrar uma eventual coligação liderada pelo PL. O presidente do PP, Ciro Nogueira, comunicou que a legenda não participará da chapa, decisão que também afasta o União Brasil por causa da federação entre os partidos.
O senador também tenta administrar repercussões relacionadas à sua ligação com Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master. Na quinta-feira, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou a abertura de investigação sobre o financiamento do filme biográfico de Jair Bolsonaro, cuja negociação foi conduzida por Flávio com Vorcaro.
Também repercutiram informações de que o escritório do senador emitiu uma nota fiscal de R$ 500 mil para uma empresa cujo sócio teria operado repasses do Banco Master em outra sociedade.
Nos últimos dias, Flávio passou a adotar um discurso mais alinhado ao do ex-presidente Jair Bolsonaro, ampliando críticas ao sistema político e chegando a divulgar informações falsas sobre as urnas eletrônicas. Em uma transmissão ao vivo realizada na quinta-feira, afirmou que “contra mim e minha família vale tudo”.
Michelle pode ganhar protagonismo
Apesar da reconciliação, Michelle Bolsonaro não deverá participar da convenção nacional do PL, marcada para este sábado, que oficializará a candidatura de Flávio à Presidência.
Nos bastidores, porém, cresce a expectativa de que ela retome as articulações políticas e dispute uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal.
O presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, atribuiu a ausência da ex-primeira-dama à necessidade de permanecer ao lado de Jair Bolsonaro.
“Acho que ela não vai à convenção por causa do Bolsonaro. Não tem quem a substitua (no cuidado)”, afirmou.
Considerada uma das principais lideranças do bolsonarismo entre o eleitorado feminino e evangélico, Michelle também poderá assumir um papel estratégico na comunicação entre Jair Bolsonaro e Flávio. Com as restrições impostas pelo ministro Alexandre de Moraes, do STF, que impedem o senador de visitar o ex-presidente, aliados avaliam que a ex-primeira-dama poderá atuar como principal interlocutora entre pai e filho.
Fonte: OGLOBO



