O relatório final do Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa) sobre o acidente com o avião da Voepass, que caiu em Vinhedo (SP) e matou 62 pessoas em agosto de 2024, revelou que os pilotos conversavam sobre assuntos pessoais durante o voo e deixaram de acionar corretamente o sistema de degelo da aeronave, mesmo após diversos alertas emitidos pela cabine.
As informações foram apresentadas nesta quinta-feira (23) pelo tenente-coronel Paulo Mendes Fróes, responsável pela investigação, durante a coletiva de divulgação do relatório final.
Segundo o Cenipa, o ATR 72-500 acionou repetidas vezes o alerta electronic ice detector, responsável por indicar condições favoráveis à formação de gelo na aeronave. Nessas situações, os protocolos determinam medidas como alteração da velocidade de voo e acionamento do sistema de degelo.
Apesar disso, durante boa parte da gravação da caixa-preta, o comandante Danilo Romano e o copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva conversavam sobre temas pessoais.

Fróes informou que, às 13h11, quando a aeronave emitiu o quarto alerta relacionado ao acúmulo de gelo, o copiloto comentou que havia esquecido de ligar o sistema de degelo.
Na sequência, o comandante orientou que todos os sistemas de de-icing fossem acionados. O copiloto pediu confirmação da instrução e o comandante respondeu que já havia ligado os sistemas. No entanto, conforme a investigação, o equipamento permaneceu desligado.
Pouco depois, às 13h12, durante a quinta detecção de gelo, os pilotos continuavam tratando de assuntos particulares.
O investigador destacou que, embora ambos tivessem recebido os treinamentos exigidos para operar a aeronave em condições severas de formação de gelo, a atuação observada durante o voo não correspondeu ao nível mínimo de proficiência esperado, e os alertas emitidos pelo avião não receberam resposta adequada.
O relatório também aponta que o comandante enfrentava problemas pessoais que poderiam ter afetado seu desempenho e reduzido sua atenção aos alertas da aeronave. Ainda assim, tanto essa condição quanto a conduta da tripulação foram classificadas pelo Cenipa como fatores indeterminados, ou seja, não é possível afirmar que tenham contribuído diretamente para a queda.
Viúva do copiloto contesta hipótese de erro humano
Rosana Maria Ferreira, viúva do copiloto Humberto de Campos Alencar e Silva, defendeu o marido após a divulgação do relatório. Segundo ela, conversas pessoais durante o voo são comuns entre pilotos e, naquele momento, Humberto buscava acolher o comandante diante de dificuldades pessoais.
Ela também afirmou que o próprio Cenipa destacou a existência de 19 fatores contribuintes para o acidente e que investigadores lhe disseram que os pilotos fizeram tudo o que era possível diante da situação.
“Recebi com muito carinho a fala de que o meu marido fez o que tinha de ter feito. Tudo o que poderia ter feito, ele fez. Só isso já ameniza, já bate o veredito final. Não, ele não teve culpa”, declarou.
Como o Cenipa conduziu a investigação
Para elaborar o relatório final, o Cenipa realizou uma ampla investigação técnica, que incluiu:
- análise das duas caixas-pretas;
- reconstrução completa do voo, dos comandos dos pilotos e dos alertas emitidos pela aeronave;
- exames nos motores, nos sistemas de degelo e de proteção contra estol;
- avaliação das condições meteorológicas no dia do acidente;
- entrevistas com pilotos, mecânicos, despachantes e familiares dos tripulantes;
- estudo de mais de 15 mil voos realizados por aeronaves da mesma frota;
- testes em simuladores e um voo experimental com outro ATR 72-500;
- análise de registros de manutenção, certificados médicos e documentos técnicos.
Os investigadores também examinaram equipamentos eletrônicos da aeronave e até as lâmpadas dos painéis para identificar quais estavam acesas nos momentos que antecederam a queda.
Antes da divulgação pública, o documento passou pela revisão do Bureau d’Enquêtes et d’Analyses pour la Sécurité de l’Aviation Civile (BEA), da França, responsável pelo projeto da aeronave ATR 72-500, e do Transportation Safety Board (TSB), do Canadá, responsável pelo projeto dos motores.
Relatório não aponta culpados
O Cenipa reforçou que sua investigação possui caráter exclusivamente preventivo e tem como objetivo identificar fatores contribuintes e emitir recomendações para aumentar a segurança operacional da aviação.
O relatório não estabelece responsabilidades civis ou criminais.
Polícia Federal conclui investigação criminal
Paralelamente à apuração técnica, a Polícia Federal conduz um inquérito para verificar possíveis crimes relacionados ao acidente.
No fim de junho, familiares das vítimas tiveram acesso às transcrições das conversas gravadas na cabine da aeronave, documento elaborado pelo Instituto Nacional de Criminalística (INC) e utilizado na investigação da PF.
A expectativa dos advogados que representam as famílias é de que o inquérito seja concluído em breve e encaminhado ao Ministério Público Federal (MPF), podendo resultar em eventuais indiciamentos.
Após essa etapa, familiares pretendem ingressar com uma ação coletiva de responsabilidade civil por danos morais, sem prejuízo das ações individuais de indenização já em andamento. Segundo o advogado Leonardo Amarante, a medida busca responsabilizar empresas, pessoas físicas e eventuais instituições que possam ter contribuído, por ação ou omissão, para a tragédia.
Relembre o acidente
O acidente ocorreu em 9 de agosto de 2024. O ATR 72-500, matrícula PS-VPB, realizava o voo 2283 entre Cascavel (PR) e o Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP) quando caiu no quintal de uma residência em um condomínio de Vinhedo, no interior paulista.
As 62 pessoas a bordo — 58 passageiros e quatro tripulantes — morreram. Nenhum morador da casa atingida ficou ferido.
A tragédia foi o acidente mais grave da aviação brasileira desde o desastre com o voo da TAM, em 2007.
Em nota, a Voepass afirmou que o acidente foi o episódio mais difícil de sua história, ressaltou que sempre manteve padrões internacionais de segurança, destacou a experiência e certificação da tripulação e informou que continua colaborando de forma transparente com todas as autoridades responsáveis pela investigação.
Fonte: G1



