IA promete revolucionar o trabalho, mas já levanta alerta sobre empregos mais vulneráveis

A rápida evolução da inteligência artificial (IA) está transformando o mercado de trabalho e alimentando um debate cada vez mais intenso: a tecnologia será uma aliada dos profissionais ou substituirá milhões de trabalhadores? Enquanto empresas investem bilhões em ferramentas capazes de automatizar tarefas, estudos já apontam impactos concretos em setores mais expostos à nova tecnologia.

Gigantes da tecnologia e grandes corporações têm apostado na IA não apenas para aumentar a produtividade, mas também para reduzir custos com mão de obra. Nesse cenário, cresce a utilização dos chamados “agentes de IA”, sistemas que executam funções específicas e, em alguns casos, desempenham atividades que exigem alto nível de qualificação.

A mudança é tão significativa que economistas vencedores do Prêmio Nobel defenderam recentemente que o mundo precisa agir imediatamente para garantir que a inteligência artificial contribua para elevar o padrão de vida, em vez de provocar uma substituição em larga escala de trabalhadores.

Os reflexos já começam a aparecer. Em Londres, empresas relataram dificuldades para encontrar profissionais com as habilidades exigidas por um mercado que está sendo remodelado pela IA. Embora a transformação ainda esteja em estágio inicial, especialistas afirmam que algumas tendências já são visíveis.

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Um dos principais indicadores utilizados pelo setor mede até que ponto modelos de inteligência artificial conseguem executar tarefas que antes dependiam exclusivamente de pessoas, especialmente no desenvolvimento de software.

Há três anos, os grandes modelos de linguagem (LLMs) eram capazes de realizar apenas atividades que levavam segundos ou poucos minutos para um ser humano concluir. Hoje, esses sistemas executam tarefas muito mais complexas, equivalentes a cerca de uma hora de trabalho humano.

Os modelos atuais já conseguem identificar falhas em contratos de criptomoedas e até desenvolver e otimizar o próprio modelo de IA, atividades que normalmente exigiriam várias horas de trabalho especializado. A expectativa é que a próxima geração desses sistemas seja capaz de realizar seu próprio desenvolvimento de forma praticamente completa já no próximo ano ou pouco depois.

Embora esse avanço seja mais evidente na programação de software, especialistas observam sinais semelhantes em outras áreas, como análise financeira, trabalhos jurídicos preliminares e funções de entrada na indústria criativa.

Os estudos mais abrangentes sobre o impacto da IA no emprego vêm dos Estados Unidos. Utilizando quatro anos de dados do mercado de trabalho, pesquisadores compararam ocupações mais expostas à automação — como desenvolvimento de software e atendimento ao cliente — com profissões menos suscetíveis, entre elas profissionais da saúde, cuidadores de crianças e cabeleireiros.

Uma análise da Universidade de Stanford indica que o nível de emprego entre jovens de 22 a 25 anos caiu 2,7% desde a popularização do ChatGPT. Nos setores considerados mais expostos à inteligência artificial, como finanças, desenvolvimento de software e indústrias criativas, a redução chega a 12,8%.

Apesar desses resultados, não há consenso entre os economistas. Parte dos especialistas considera que fatores como o aumento das taxas de juros também podem explicar parte dessa retração no mercado de trabalho.

Outro indicador relevante é a queda nas vagas anunciadas pela internet após o lançamento do ChatGPT e de outros modelos de linguagem. Segundo uma análise da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), setores altamente expostos à IA, como telemarketing e serviços jurídicos, apresentaram desempenho inferior em relação a áreas menos afetadas, como construção civil, limpeza e preparação de alimentos.

No Reino Unido, esse movimento ocorreu em um período de estabilidade ou redução das taxas de juros e antes mesmo do aumento da contribuição previdenciária conhecida como National Insurance. De acordo com diversos indicadores internacionais, a forte concentração do setor de serviços torna o país especialmente vulnerável a possíveis perdas de postos de trabalho causadas pela inteligência artificial.

Outro dado que chama atenção é o crescimento acelerado do consumo de tokens — pequenas unidades de texto utilizadas pelos sistemas de IA para compreender, processar e gerar linguagem. Em média, um token corresponde a aproximadamente três quartos de uma palavra em inglês.

Durante 2026, o uso desses recursos disparou. O volume de tokens consumidos cresceu muito mais rapidamente do que a redução do custo por token, impulsionado principalmente pelos chamados agentes de IA, capazes de executar tarefas automaticamente.

Grandes empresas passaram, inclusive, a criar rankings internos para incentivar funcionários a utilizarem o máximo possível dessas ferramentas, buscando ganhos de produtividade.

Entretanto, o uso intensivo gerou custos extremamente elevados. Em muitos casos, as contas alcançaram valores tão altos que diversas empresas começaram a limitar o acesso aos modelos mais avançados.

Esse cenário pode indicar que existem limites econômicos para a substituição do trabalho humano. Dependendo da atividade, manter trabalhadores virtuais pode se tornar mais caro do que empregar pessoas.

Ao mesmo tempo, muitas companhias, inclusive no Ocidente, vêm migrando para modelos de inteligência artificial mais baratos, desenvolvidos a partir de tecnologias chinesas disponibilizadas gratuitamente no mercado.

Embora ainda exista grande incerteza sobre o ritmo dessa transformação, especialistas afirmam que a inteligência artificial já está alterando o mercado de trabalho e tende a ampliar seus efeitos sobre diversas profissões nos próximos anos.

Fonte: G1