Mensagens obtidas pela Polícia Federal (PF) e analisadas pelo Ministério Público de São Paulo (MP-SP) revelam contatos entre oficiais da Polícia Militar, incluindo coronéis da reserva, e investigados por suposta atuação em esquemas relacionados ao Primeiro Comando da Capital (PCC). As conversas mencionam convites para viagens, hospedagens em colônias de férias da corporação, pedidos de favores e indícios de pagamentos de propina, segundo os investigadores.
O material foi localizado pela Polícia Federal durante uma investigação envolvendo doleiros. Ao identificar possíveis conexões entre policiais militares e suspeitos ligados à facção criminosa, a PF encaminhou as informações ao Ministério Público paulista, que deu continuidade às apurações.
No centro da investigação está o coronel da reserva Luiz Carlos Pereira Martins, aposentado da Polícia Militar desde 2019. Conforme o relatório do MP-SP, ele mantinha contato frequente com Cleber Azevedo dos Santos e Robson Martins de Souza, investigados por envolvimento com o PCC. Os promotores afirmam que o oficial era considerado um “grande amigo” dos dois e apontam indícios de que ele atuava para facilitar o acesso do grupo a integrantes da corporação.
Entre as mensagens analisadas está uma conversa de setembro de 2020, em um grupo denominado “Viajar Gente Linda”. Nela, Pereira Martins convida os participantes para uma estadia na colônia de férias de oficiais da PM em Campos do Jordão. O convite foi aceito por Cleber Azevedo dos Santos, que, segundo a investigação, já era alvo de apurações por suspeita de ligação com a organização criminosa.

Dois anos depois, em setembro de 2022, novas mensagens mostram conversas entre o coronel da reserva e Robson Martins de Souza sobre uma reserva na colônia de férias de Boraceia, no litoral paulista. Para o Ministério Público, os diálogos reforçam a proximidade entre os investigados e o oficial.
As apurações também apontam indícios de influência dentro da corporação. Em uma conversa registrada em 2023, Cleber envia ao coronel a fotografia de um oficial da PM e pergunta se ele o conhecia. Pereira Martins responde que o policial era seu amigo e se oferece para fazer contato diretamente. Na avaliação dos investigadores, a troca de mensagens fortalece a suspeita de que o coronel utilizava sua rede de relacionamentos na Polícia Militar em benefício do grupo investigado.
Segundo o Ministério Público, Cleber Azevedo dos Santos é apontado como um dos principais operadores financeiros do esquema, mantendo contatos tanto com integrantes da cúpula do PCC quanto com policiais militares. Já Robson Martins de Souza seria responsável pela articulação de pagamentos de propina a agentes públicos. Os dois foram presos nesta semana durante uma operação das autoridades.
Uma das mensagens consideradas mais relevantes pelos investigadores foi registrada em outubro de 2022. Após uma conversa sobre coronéis da PM, um integrante do grupo envia a foto de uma sacola com dinheiro e informa o valor de R$ 270 mil. A Polícia Federal trabalha com a hipótese de que os recursos poderiam ser destinados ao coronel Luiz Carlos Pereira Martins e ao coronel José Augusto Coutinho.
A investigação também indica que parte do dinheiro teria origem em um esquema de lavagem de recursos envolvendo comerciantes da região do Brás, na capital paulista. De acordo com o MP-SP, valores provenientes do tráfico de drogas, operações com criptomoedas e golpes eram transferidos por meios digitais e posteriormente sacados em espécie para aparentar origem legal.
O coronel José Augusto Coutinho, ex-comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo e ex-comandante da Rota, também é citado nas investigações. Mensagens analisadas pela PF fazem referências ao oficial, e os investigadores apontam ainda uma possível ligação entre Coutinho e um doleiro conhecido como Amin, atualmente foragido.
A defesa de José Augusto Coutinho afirmou que as menções ao coronel são “meramente incidentais e indiretas” e sustentou que não existe atribuição de qualquer conduta ilícita ao oficial. Segundo os advogados, a inocência dele será demonstrada ao longo das investigações.
Além desse caso, Coutinho já era alvo de procedimentos conduzidos pela Corregedoria da Polícia Militar relacionados ao PCC. Um deles apura a suspeita de que policiais tenham prestado segurança privada a uma empresa de ônibus ligada à facção criminosa. Outro investiga um possível vazamento de informações que teria permitido a fuga de Marcos Roberto de Almeida, conhecido como Tuta, apontado como uma das principais lideranças da organização criminosa fora dos presídios.
As conversas analisadas também fazem referência a supostos pagamentos destinados a policiais civis. Em uma troca de mensagens, Robson Martins de Souza solicita dinheiro em espécie para realizar pagamentos relacionados a delegacias identificadas por números. Em outra conversa, Cleber menciona a necessidade de reunir R$ 100 mil para pagar policiais do Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic). Há ainda um áudio de 2022 no qual ele relata uma cobrança de R$ 300 mil relacionada a uma investigação envolvendo Robson.
Em nota, a defesa de Cleber Azevedo dos Santos afirmou que ele nunca atuou como operador financeiro do PCC e negou qualquer envolvimento dos policiais citados com suas empresas ou influência na resolução de questões empresariais. O advogado de Robson Martins de Souza não respondeu aos contatos da reportagem.
O Ministério Público informou que as investigações envolvendo os policiais seguem em andamento e que não comentará o caso neste momento. A Secretaria da Segurança Pública de São Paulo declarou que as corregedorias das polícias Militar e Civil adotaram providências para apurar os fatos e que eventuais responsabilidades serão investigadas com rigor. Já o coronel Luiz Carlos Pereira Martins não respondeu aos contatos da reportagem.
Fonte: FANTÁSTICO



