Ministro da Fazenda chama Milei de ‘palhaço’ e diz que economia do Brasil supera a da Argentina

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira (27) que a economia brasileira apresenta indicadores superiores aos da Argentina e classificou o presidente argentino, Javier Milei, como “palhaço”. A declaração foi feita durante entrevista à Rádio Jornal, de Pernambuco, em resposta às críticas feitas por Milei ao Brasil durante visita ao país no último fim de semana.

Segundo Durigan, o Brasil registra indicadores econômicos mais favoráveis, como menor risco-país, baixa taxa de desemprego, inflação controlada, recordes na balança comercial, safra agrícola expressiva e redução do desmatamento.

“O palhaço do presidente da Argentina veio ao Brasil ontem e falou de Brasil, quando o risco-país da Argentina é muito mais alto, a dívida pública é muito mais alta, a inflação é muito mais alta”, declarou o ministro.

Posteriormente, em entrevista à GloboNews, Durigan afirmou que a declaração foi uma manifestação pessoal e não representa uma posição oficial do governo federal. Ainda assim, justificou a reação afirmando que Javier Milei direcionou críticas à política econômica brasileira.

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“Não tem o menor cabimento um presidente de outro país vir aqui, sem comunicação oficial, xingar as autoridades, criticar a política econômica, fazendo dancinha. Não dava pra não responder”, afirmou.

Indicadores econômicos

Dados de mercado mostram que o risco-país da Argentina está em aproximadamente 430 pontos no início desta semana, enquanto o indicador brasileiro gira em torno de 130 pontos.

O risco-país mede a percepção dos investidores sobre a capacidade de um país cumprir seus compromissos financeiros e manter estabilidade econômica e política. Quanto menor o índice, maior tende a ser a confiança do mercado e menores costumam ser os custos para obtenção de crédito.

Já em relação ao endividamento público, os números do Fundo Monetário Internacional (FMI) mostram cenário diferente. A dívida pública argentina encerrou 2025 equivalente a 80,3% do Produto Interno Bruto (PIB), após queda impulsionada pelo ajuste fiscal promovido pelo governo Milei. No Brasil, a dívida atingiu 93,3% do PIB no mesmo período, segundo o mesmo critério do FMI, mantendo trajetória de alta.

Os indicadores de inflação também apresentam diferenças. A Argentina encerrou 2025 com inflação de 31,5%, a menor desde 2017, enquanto sua economia cresceu 4,4% no período.

No Brasil, a inflação foi de 4,26% em 2025 e a economia registrou crescimento de 2,3%, em um ambiente marcado por juros elevados.

Visita de Milei ao Brasil

Javier Milei esteve no Brasil no fim de semana para participar do lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência da República.

Durante discurso de cerca de 30 minutos realizado no sábado (25), em São Paulo, o presidente argentino chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de “lixo careca” após o magistrado negar autorização para uma visita a Jair Bolsonaro. Milei também criticou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e suas políticas sociais, referindo-se ao petista como “presidiário”.

Desde o fim de 2023, o governo argentino implementa um programa de austeridade fiscal que eliminou o déficit público, reduziu significativamente a inflação e levou a economia a crescer 4,4% em 2025. Para este ano, a expectativa é de expansão próxima de 3%.

Juros e economia brasileira

Na mesma entrevista, Durigan também comentou o cenário econômico brasileiro e descartou a possibilidade de recessão em 2027.

“Não dá pra entrar na onda dessas pessoas que dizem que vai virar apocalipse”, afirmou.

O ministro reconheceu que os juros elevados afetam famílias, empresas, agricultores e as próprias contas públicas.

“Juros [altos] que afetam todo mundo, agricultores, famílias, empresas. Eu tenho que pagar juros altos pra rolar a dívida, me incomoda muito”, disse.

Segundo Durigan, a redução das taxas de juros depende da diminuição dos gastos obrigatórios, da manutenção do arcabouço fiscal e até do eventual endurecimento da regra fiscal, além da modernização do Estado.

Ele afirmou que a economia deverá desacelerar, mas rejeitou a previsão de retração da atividade.

“Se fala em recessão porque, como o juro está alto, tende a desacelerar. Nossa projeção é de 2% [de alta do PIB em 2027], mas tem gente falando em 1% [de crescimento]. Não é recessão. Taxa de juros altos tem esse papel, desaquecer a economia. Economia vai desacelerar, mas falar em recessão é um exagero”, concluiu.

Boulos também criticou Milei

Pelas redes sociais, o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos, também reagiu às declarações de Javier Milei durante a visita ao Brasil.

“Ninguém leva a sério Javier Milei. Não apenas por ser uma caricatura patética, que envergonha o cargo que ocupa. Mas, acima de tudo, por ser um puxa-saco de Trump”, escreveu.

Banco Mundial aponta recuperação argentina

Em relatório divulgado em abril deste ano, o Banco Mundial afirmou que a Argentina tem se destacado economicamente na América Latina, enquanto Brasil e México enfrentam perda de dinamismo em razão das condições financeiras restritivas, do espaço fiscal limitado e das incertezas relacionadas à política comercial.

O organismo projeta crescimento de 3,6% para a economia argentina neste ano, após expansão de 4,4% em 2025 e retração de 1,3% em 2024.

Para o Brasil, a previsão é de crescimento de 2,2%, abaixo dos 2,8% registrados em 2025 e dos 3,4% observados em 2024.

Segundo o Banco Mundial, o ajuste fiscal promovido pelo governo Milei, aliado à reforma tributária, ao Regime de Incentivo a Grandes Investimentos (RIGI), às mudanças no mercado de trabalho e às ações para melhorar o ambiente de negócios, ajudou a reduzir o risco soberano, conter a inflação e estimular a retomada do consumo e dos investimentos privados.

O relatório ressalta, entretanto, que a Argentina ainda enfrenta riscos relevantes relacionados às necessidades de financiamento externo, às reservas internacionais líquidas negativas e ao acesso limitado aos mercados internacionais de crédito.

Em relação ao Brasil, o Banco Mundial avalia que o crescimento tende a desacelerar devido aos juros elevados, às restrições financeiras e ao cenário internacional menos favorável, indicando que uma recuperação mais consistente dependerá da normalização da política monetária e da redução das pressões externas.

Fonte: G1