O ex-auditor fiscal Paulo Sérgio Siqueira do Prado, conhecido como “PP”, firmou acordo de delação premiada com o Ministério Público de São Paulo (MP-SP) no processo que investiga um suposto esquema bilionário de pagamento de propinas dentro da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo (Sefaz-SP).
Segundo o MP, PP teria ligação direta com dois dos principais investigados no caso: Artur Gomes da Silva Neto, chamado de “rei Artur” ou “King”, e Alberto Toshio Murakami, conhecido como “Americano”. Ambos são apontados como integrantes centrais do esquema envolvendo as empresas Ultrafarma e Fast Shop.
Artur Gomes da Silva Neto está preso, enquanto Murakami é considerado foragido da Justiça. A investigação apura suspeitas de manipulação de créditos tributários relacionados ao Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS), com suposta aceleração irregular de pagamentos antecipados em benefício de grandes empresas dos setores varejista e atacadista.
De acordo com os investigadores, o grupo atuaria em áreas estratégicas da Fazenda paulista em troca de valores milionários. O objetivo seria favorecer empresas por meio da liberação de créditos tributários supostamente inflados.

Delação pode revelar participação de servidores investigados
Segundo a investigação, Paulo Sérgio Siqueira do Prado seria um elo entre Artur Gomes da Silva Neto e Alberto Murakami dentro da estrutura da Sefaz-SP.
Após a homologação do acordo de colaboração premiada, a Justiça deve avaliar o desbloqueio de bens e o levantamento das restrições patrimoniais impostas ao ex-auditor no início das apurações.
A expectativa dos promotores é que as informações fornecidas por PP ajudem a esclarecer a participação de cerca de 40 servidores públicos da Secretaria da Fazenda investigados nas três operações realizadas pelo MP-SP para desmontar o suposto esquema.
PP se aposentou em 2024, mas durante sua trajetória profissional ocupou cargos de destaque na Receita Estadual de São Paulo. Em agosto de 2014, foi nomeado inspetor fiscal na Delegacia Regional Tributária da Capital.
Posteriormente, assumiu de forma interina a chefia da Delegacia Regional Tributária da Capital II durante afastamentos de Marcelo Bergamasco Silva, atual subsecretário da Receita Estadual.
O ex-auditor também era conhecido por sua atuação junto à Associação dos Auditores Fiscais da Receita Estadual de São Paulo (Afresp).
Três operações investigam esquema na Sefaz-SP
As suspeitas de corrupção dentro da Secretaria da Fazenda levaram o Grupo de Atuação Especial de Combate aos Delitos Econômicos (Gedec), do Ministério Público, a deflagrar três operações para investigar servidores da pasta.
A primeira delas foi a Operação Ícaro, realizada em 2 de agosto de 2025. A ação apontou suposto favorecimento às empresas Ultrafarma e Fast Shop, com pagamentos de propinas que, segundo o MP, teriam ultrapassado R$ 1 bilhão.
Na operação, foram presos Artur Gomes da Silva Neto e os empresários Sidney Oliveira, fundador da Ultrafarma, e Mário Otávio Gomes, diretor estatutário da Fast Shop.
A Operação Mágico de Oz, em 13 de março de 2026, foi um desdobramento da Ícaro. A ação cumpriu 20 mandados de busca e apreensão e dois mandados de prisão temporária em São Paulo, Osasco, Valinhos e Tupi Paulista. Auditores fiscais foram afastados dos cargos, assim como o vice-prefeito de Tupi Paulista, suspeito de envolvimento no caso.
Já a Operação Fisco Paralelo, deflagrada em 26 de março de 2026, realizou a terceira fase das investigações. Foram cumpridos 22 mandados de busca e apreensão em São Paulo, Campinas, Vinhedo e São José dos Campos.
Os alvos eram servidores de diferentes áreas estratégicas da Sefaz-SP, incluindo as Delegacias Regionais Tributárias da Lapa, Butantã, ABCD e Osasco, além da Diretoria de Fiscalização. Segundo o MP, 16 servidores da Fazenda, entre ativos e aposentados, estavam entre os principais investigados.
Em abril deste ano, por determinação do secretário da Fazenda e Planejamento, Samuel Kinoshita, cinco auditores foram demitidos.
Principais suspeitos investigados pelo MP
Artur Gomes da Silva Neto, o “King”, é apontado pelo Ministério Público como um dos mentores da organização criminosa. A suspeita é de que ele articulava a distribuição de processos administrativos entre auditores para favorecer empresas em troca de propina.
Segundo denúncia apresentada pelo MP-SP à Justiça, Artur teria recebido R$ 383,6 milhões em propinas e movimentado mais de R$ 1 bilhão dentro do esquema envolvendo fraudes em créditos de ICMS.
Alberto Toshio Murakami, o “Americano”, é auditor fiscal aposentado e um dos principais investigados. Ele atuava na Delegacia Regional Tributária III (Butantã), onde analisava pedidos de ressarcimento de ICMS de empresas como a Ultrafarma.
O MP afirma que Murakami emitia pareceres favoráveis para acelerar liberações de créditos tributários em troca de propina. Desde agosto de 2025, ele é considerado foragido e, em janeiro de 2026, a Justiça paulista determinou sua inclusão na Difusão Vermelha da Interpol. Investigadores afirmam que ele estaria nos Estados Unidos.
Paulo Sérgio Siqueira do Prado, o “PP”, é ex-delegado tributário da Receita Estadual. Além dos cargos ocupados na Delegacia Regional Tributária da Capital, ele é investigado por suposta participação no esquema apurado nas operações Ícaro, Mágico de Oz e Fisco Paralelo, sendo apontado como possível elo entre os outros dois principais suspeitos.
Fonte: G1



