Crise em Ceuta: o que se sabe sobre a chegada de milhares de imigrantes à Espanha vindos do Marrocos

A cidade autônoma espanhola de Ceuta voltou ao centro de uma grave crise migratória após receber uma nova onda de imigrantes vindos do Marrocos. Milhares de pessoas cruzaram a fronteira, principalmente pelo mar, nadando até o território espanhol, o que levou o governo da Espanha a mobilizar militares para reforçar a segurança na região.

As autoridades espanholas acompanham o aumento do fluxo migratório enquanto trabalham para identificar os recém-chegados, ampliar o controle da fronteira e acelerar os processos de retorno quando houver respaldo legal.

Cerca de 60 mil migrantes chegaram a Ceuta em 24 horas

Segundo o Ministério do Interior da Espanha, aproximadamente 60 mil migrantes entraram em Ceuta nas últimas 24 horas até esta sexta-feira (31). A maior parte dos recém-chegados é formada por jovens marroquinos, embora também haja famílias e crianças entre os migrantes.

O fluxo já vinha crescendo ao longo da última semana, deixando os centros de acolhimento da cidade próximos do limite antes da chegada da nova onda de pessoas.

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Número de mortos ainda apresenta divergência

As mortes durante a travessia ainda são alvo de números diferentes entre as autoridades.

Fontes policiais ouvidas pela agência espanhola EFE informaram que pelo menos 43 pessoas morreram ao tentar chegar a Ceuta. Já o governo local confirma oficialmente 34 mortes.

Segundo as autoridades de Ceuta, os corpos foram recuperados pelas forças de segurança espanholas nas águas da região.

A rota entre o norte da África e a Espanha é considerada uma das mais perigosas para migrantes, com centenas de mortes registradas todos os anos por organizações humanitárias.

Embora Ceuta esteja localizada no continente africano, parte dos imigrantes chegou à cidade nadando pela costa, sem realizar a tradicional travessia pelo Mar Mediterrâneo em direção ao território europeu continental.

Onde fica Ceuta e por que a cidade é estratégica?

Ceuta é uma cidade autônoma da Espanha localizada no norte da África e, ao lado de Melilla, representa um dos únicos territórios da União Europeia com fronteira terrestre no continente africano.

Situada às margens do Mar Mediterrâneo, em frente ao Estreito de Gibraltar, a cidade pertence à Espanha há séculos. No entanto, o Marrocos reivindica a soberania sobre o território, o que gera frequentes tensões diplomáticas entre os dois países.

Por integrar a Espanha, Ceuta também faz parte da União Europeia e se tornou uma das principais portas de entrada para migrantes que tentam alcançar o bloco europeu.

Espanha reforçou segurança na fronteira

Diante do aumento expressivo das chegadas, o governo espanhol enviou unidades do Exército para atuar em apoio à Guarda Civil e às forças policiais, que relataram estar sobrecarregadas com o volume de pessoas cruzando a fronteira.

O primeiro-ministro Pedro Sánchez anunciou uma visita a Ceuta nesta sexta-feira (31), acompanhado pelo ministro do Interior, Fernando Grande-Marlaska.

Além do reforço militar, o governo espanhol informou que pretende ampliar a cooperação com o Marrocos para fortalecer o controle da fronteira e acelerar a devolução de migrantes quando houver base legal.

União Europeia declarou apoio à Espanha

A União Europeia manifestou apoio ao governo espanhol diante da crise e afirmou estar preparada para ampliar a cooperação na proteção da fronteira externa do bloco.

Entre as medidas em estudo está o reforço das operações da Frontex, agência europeia responsável pelo controle das fronteiras.

Crise lembra episódio registrado em 2021

A atual situação remete à crise migratória ocorrida em maio de 2021, quando cerca de 5 mil pessoas atravessaram a fronteira entre Marrocos e Ceuta em apenas um dia.

Na ocasião, o episódio foi associado ao desgaste diplomático entre os dois países após a Espanha receber para tratamento médico o líder da Frente Polisário, movimento que defende a independência do Saara Ocidental.

O Saara Ocidental é um território localizado no norte da África disputado há décadas. A maior parte da região está sob controle do Marrocos, enquanto a Frente Polisário reivindica a criação de um Estado independente. A Organização das Nações Unidas (ONU) classifica o território como não autônomo e defende uma solução negociada, tornando a questão uma das principais fontes de tensão diplomática entre o Marrocos e diversos países europeus, entre eles a Espanha.

De onde vieram os migrantes?

Segundo as autoridades espanholas, a maioria dos recém-chegados é formada por cidadãos marroquinos, embora também tenham sido identificadas pessoas de outras nacionalidades africanas.

Até o momento, não há informações precisas sobre as regiões de origem nem sobre as rotas terrestres utilizadas antes da chegada à fronteira de Ceuta.

O que provocou a nova onda migratória?

As causas do aumento repentino do fluxo migratório ainda estão sendo investigadas.

O governo espanhol informou que existem indícios da atuação de redes criminosas especializadas no tráfico de pessoas, que teriam incentivado ou organizado parte das travessias após mudanças recentes na interpretação das regras para devolução imediata de migrantes interceptados no mar.

As autoridades ressaltaram que, até o momento, não há qualquer indício de envolvimento do governo marroquino na organização das entradas.

Como ocorreu a travessia?

Grande parte dos migrantes conseguiu chegar a Ceuta nadando ao redor dos quebra-mares localizados na praia de Tarajal, ponto que marca a fronteira entre Espanha e Marrocos.

Outros atravessaram caminhando pelos espigões costeiros ou tentaram superar as cercas que separam os dois territórios.

O que acontecerá com os imigrantes?

Os migrantes que chegaram a Ceuta passarão por processos de identificação e serão encaminhados para centros de acolhimento enquanto as autoridades espanholas analisam individualmente cada situação.

Quem solicitar proteção internacional terá o pedido examinado conforme a legislação espanhola. Já aqueles que não se enquadrarem nos critérios poderão ser devolvidos ao Marrocos, de acordo com os acordos bilaterais existentes e as decisões da Justiça da Espanha.

Fonte: G1