Acidentes de trânsito envolvendo carros de luxo deixaram mortos, feridos e famílias que ainda aguardam indenizações em São Paulo. Em reportagem exibida pelo Fantástico, vítimas e familiares relataram as dificuldades enfrentadas após ocorrências em que veículos de alto valor estiveram envolvidos.
No último domingo (26), Diego da Silva estava trabalhando durante a coleta de lixo quando foi atingido por um carro que trafegava em alta velocidade por uma rua de São Paulo. O jovem tinha 19 anos, deixou uma filha de um ano e a esposa grávida. O casal morava com a mãe dele.
“Eu vi que meu menino tinha sido arrastado daquele jeito, meu Deus, que dor meu filho não sentiu naquela hora. Pergunto a Deus: por que Deus permitiu o meu filho viver só 19 anos?”, afirmou Elineide Maria da Silva, mãe de Diego.
O carro era conduzido pelo empresário chinês Guofang Huang, de 53 anos. Segundo o delegado Rodolfo Alcantelado, o motorista apresentava sinais evidentes de embriaguez após a colisão.

“A gente conseguia ver os olhos, a fala, muito troncada, o próprio odor alcoólico. Subindo a escada aqui da delegacia, ele teve necessidade de apoio de policiais. A hora que eu pedi para ele ficar em pé ali, ele não conseguia sequer ficar em pé sozinho. Ele estava num nível de embriaguez, assim, não comum”, relatou o delegado.
A defesa de Huang afirmou que ele prestaria a devida assistência aos familiares da vítima.
Segundo os últimos dados divulgados pelo Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), o consumo de álcool ao volante provocou a morte de 13.075 brasileiros em apenas um ano.
Três dias antes da morte de Diego, o sargento Fábio Pereira de Souza, de 50 anos, também morreu após ser atingido por um carro de luxo. O veículo trafegava na contramão em uma das avenidas mais movimentadas de São Paulo.
Fábio foi arremessado e morreu no local. O carro era dirigido por Bruno Yasuo Shimizu, de 22 anos, que foi preso. Na quinta-feira, o Ministério Público denunciou o motorista por homicídio qualificado contra o policial militar.
A defesa de Bruno declarou que “apresentará sua versão no momento e na forma adequados”. Ainda segundo a reportagem, em 2020, quando tinha 16 anos, ele já havia batido na traseira de outra motocicleta. O condutor da moto foi arremessado e também morreu.
Em outro caso, ocorrido em agosto de 2025, o Fantástico teve acesso à íntegra das imagens de um acidente envolvendo um Porsche que avançou o sinal vermelho na Avenida Faria Lima e bateu em outro veículo.
O carro esportivo era conduzido pelo influenciador Samuel Sant’Anna, conhecido como Gato Preto. A também influenciadora Ana Beatriz Miranda, a Bia Miranda, estava no banco do passageiro.
No veículo atingido estavam Edson e o filho. O pai foi a única pessoa que viu as condições do rapaz, que sofreu uma lesão na mandíbula.
“Logo após o acidente, um dos réus subiu no carro, gritou pro meu cliente, ameaçou meu cliente, falou coisas pro meu cliente pesadíssimas”, afirmou Filipe Martarelli, advogado das vítimas.
“A outra ré fez uma postagem em nível nacional pra milhares de pessoas transformando aquele acidente com meu cliente com a mandíbula quebrada, machucado, sangrando, numa grande novela nacional”, acrescentou.
Segundo a polícia, Gato Preto havia consumido bebida alcoólica e usado drogas. Imagens inéditas mostraram ainda um segurança retirando objetos do carro, além da movimentação do próprio influenciador.
O filho de Edson foi socorrido e se recuperou. Samuel foi detido e liberado posteriormente para responder ao processo em liberdade. Mais tarde, porém, foi preso por não pagar pensão alimentícia.
A vítima busca uma indenização, mas Samuel não concorda com o pagamento. Enquanto não existe uma decisão, o Porsche permanece no pátio da polícia e será levado a leilão na próxima semana. A Justiça poderá destinar o valor arrecadado à família de Edson.
“O valor que a gente está pedindo nessa indenização pode ter certeza, é muito menor que o valor de um Porsche”, disse o advogado.
Os advogados de Samuel não responderam aos contatos do Fantástico. A defesa de Bia Miranda afirmou não reconhecer qualquer responsabilidade, argumentando que ela era apenas passageira do veículo.
“O que a gente quer aqui é, simplesmente, ser indenizado e mostrar pra sociedade que uma pessoa que faz o que eles fizeram não pode passar impune”, declarou a família.
Diarista morreu após ser atropelada por Porsche em 2019
Em julho de 2019, pouco antes das 6h de uma sexta-feira, outro Porsche atropelou uma pedestre na Rua Augusta, em São Paulo. A vítima, Audenilce Bernardina, de 65 anos, foi arremessada a 15 metros de distância.
O carro era conduzido pelo empresário Fábio Alonso, que havia saído de uma balada. O filho da vítima, Fábio Silva, afirmou que a mãe era “uma pessoa excepcional” e lamentou o que considera impunidade.
“Uma pessoa excepcional. Ela foi tirada de nós. Acho que isso é o que mais dói, saber da impunidade”, disse.
Segundo o advogado da família, Daniel Gonçalves, Fábio Alonso permaneceu na balada das 23h30 às 4h30. A polícia teria verificado, durante o inquérito, que havia consumo de bebidas alcoólicas registrado na comanda.
“Então, quer dizer, ele assumiu o risco de produzir o resultado”, afirmou o advogado.
A Justiça determinou o pagamento de R$ 60 mil para cada familiar. Para a defesa da vítima, porém, o valor era desproporcionalmente baixo em relação ao carro utilizado e à condição financeira do empresário.
A defesa de Fábio afirmou que tentou, por mais de um ano, chegar a um acordo com a família e apresentou uma proposta de R$ 450 mil, recusada pelos familiares. Os advogados, contudo, não responderam por que a indenização mínima estabelecida pela Justiça, na casa de R$ 1 milhão, não havia sido paga.
Enquanto a dívida não é quitada, o valor aumenta. Na esfera criminal, Fábio Alonso responde por homicídio doloso e será levado a júri em outubro.
O mesmo motorista já havia se envolvido em outro acidente grave em 2014. Segundo o advogado da vítima, ele também atingiu um motociclista, que morreu, e foi condenado apenas por crime de trânsito.
Racha na Rodovia dos Imigrantes matou duas mulheres
Outro caso ocorreu em 2018, quando, segundo a polícia, uma Mercedes e um Camaro participavam de um racha na Rodovia dos Imigrantes. Duas famílias voltavam da praia em outro veículo, que foi atingido pela Mercedes.
Duas mulheres morreram no local. O motorista do carro atingido ficou paraplégico, assim como o filho de Wesley, que tinha menos de dois anos na época.
Wesley Bispo atualmente trabalha como motorista de aplicativo e cria o menino sem a mãe, uma das mulheres que morreram no acidente.
“Financeiramente, afetou tudo. As minhas contas todas atrasadas, nome sujo. Meu filho tá precisando de cadeira de roda, precisando de coisas e eu não tenho nem como comprar”, contou Wesley.
O motorista da Mercedes era o empresário André Micheletti. Ele foi condenado em segunda instância a 10 anos de prisão por crime de trânsito, pelas mortes de duas pessoas e por lesão corporal. Micheletti recorre em liberdade.
Além da condenação criminal, ele foi obrigado a pagar R$ 2,6 milhões em indenizações às famílias.
“Ele nunca pagou. Nós executamos, encontramos dois apartamentos no Morumbi, um que está em nome da mãe dele, falecida, que não houve inventário, que já está bloqueado. O outro apartamento dele, da esposa, que também já está bloqueado”, afirmou Cézar Augusto Oliveira, advogado de Wesley.
Segundo a defesa da vítima, dois veículos Land Rover blindados foram encontrados registrados em nome de terceiros. Uma Mercedes-Benz, também de alto valor, foi localizada em nome de um empreiteiro que teria feito uma obra no apartamento de Micheletti.
Apenas um veículo estaria registrado no nome do empresário: um Porsche, bloqueado pela Justiça. Micheletti afirmou não saber onde o carro está, mas o Fantástico encontrou multas recentes relacionadas ao veículo, sendo uma delas registrada há menos de um mês.
Os filhos de Micheletti também publicaram fotos de férias recentes nos Estados Unidos e nas Bahamas.
Em declaração à Justiça, Micheletti negou ter provocado o acidente e afirmou que não foi omisso no atendimento às vítimas.
“Peguei o meu extintor de incêndio, e ao contrário de tudo que todos estavam falando, eu me joguei debaixo do carro e fui tentar apagar o fogo”, declarou.
Enquanto Wesley enfrenta dificuldades financeiras e cuida do filho, André Micheletti vive em São Paulo, em um bairro nobre e em um condomínio de alto padrão.
O Fantástico tentou entrevistá-lo, mas não recebeu retorno. A defesa de Wesley também não se manifestou.
“Tipo assim, a vida dele tá seguindo como se ele não tivesse feito nada. Nunca prestou nenhuma assistência com nada, nunca ajudou com nada. A minha [vida] tá parada com o meu filho e a família”, afirmou Wesley.
Fonte: FANTÁSTICO



