São Paulo pode ter sol, frio, chuva e vento no mesmo dia por causa da combinação de diferentes sistemas meteorológicos que atuam sobre a cidade. A famosa ideia de que a capital paulista reúne “as quatro estações do ano em um dia” tem, segundo especialistas, uma explicação científica.
O meteorologista César Soares explica que a localização de São Paulo, na região Sudeste, favorece a influência simultânea ou sucessiva de frentes frias, brisas marítimas, corredores de umidade vindos da Amazônia e grandes massas de ar seco.
Outro fator importante é a ampla amplitude térmica da cidade, caracterizada pela diferença significativa entre as temperaturas registradas ao longo de um mesmo dia. Assim, é possível enfrentar uma manhã fria e uma tarde quente ou experimentar uma queda acentuada de temperatura em poucas horas após a mudança na atuação das massas de ar.
A combinação entre o calor que chega das regiões Norte e Nordeste, as massas de ar frio vindas do Sul e a umidade do litoral contribui para as mudanças rápidas. Em determinadas situações, São Paulo pode registrar sol pela manhã e, poucas horas depois, ter queda de temperatura, chuva e ventos.

Historicamente, as estações do ano na capital são relativamente bem definidas. O verão concentra as temperaturas mais altas, o inverno é a estação mais fria, enquanto outono e primavera funcionam como períodos de transição.
Esse padrão, porém, vem sendo alterado pelo avanço da crise climática. Segundo César Soares, São Paulo está em uma condição especialmente favorável ao excesso de calor.
Da “terra da garoa” à cidade dos temporais
A instabilidade meteorológica não é a única característica que está mudando. São Paulo também ficou conhecida como “terra da garoa”, expressão popularizada por Tonico e Tinoco na música “São Paulo da Garoa”.
Com o aumento da temperatura média, entretanto, os dias de garoa estão se tornando menos frequentes. O professor Humberto Ribeiro da Rocha, do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP), afirma que, enquanto a temperatura média global aumentou cerca de 1,2°C desde 1900, a capital paulista teve elevação de 2,4°C nas máximas diárias e de 2,8°C nas mínimas.
Esse aquecimento também favorece a ocorrência de temporais. Para César Soares, grandes volumes de chuva devem se tornar cada vez mais comuns na cidade.
Segundo o meteorologista, o aumento do calor mantém temperaturas mais elevadas e influencia diretamente a formação das tempestades. Alagamentos, inundações e outros problemas urbanos associados às chuvas intensas passam a fazer parte desse novo cenário.
A antiga garoa era favorecida pela circulação de umidade proveniente do mar combinada à presença de uma atmosfera mais fria, condição que facilitava a formação de nebulosidade e chuva fina.
De acordo com César, esse tipo de precipitação, que era comum em diferentes épocas do ano, vem sendo substituído por temporais no fim da tarde. Antes mais característicos do verão, eles agora podem ocorrer em qualquer estação, sem um período específico.
Clima de São Paulo pode mudar definitivamente
Para o climatologista e professor Carlos Nobre, a ciência indica que já não é possível simplesmente recuperar o clima característico que São Paulo tinha no passado.
Nobre afirma que o planeta deverá atingir 1,5°C de aquecimento até 2030. Por isso, mesmo com esforços para recuperar áreas naturais, o retorno aos padrões climáticos anteriores não é considerado uma opção.
A preocupação agora está em evitar um cenário ainda mais grave, com aquecimento de 2,5°C até 2050.
Segundo o professor, o dióxido de carbono permanece aproximadamente 150 anos na atmosfera, o que impede respostas rápidas de engenharia e torna inevitável que o planeta alcance 1,5°C de aquecimento até 2030. Sem uma redução drástica nas emissões de gases de efeito estufa, a temperatura pode chegar a 2,5°C em 2050, alterando definitivamente o clima de regiões subtropicais, como São Paulo, para condições tropicais.
Para evitar esse cenário, Nobre defende zerar as emissões provenientes de combustíveis fósseis, do desmatamento e da agropecuária, além de implementar um projeto global de restauração florestal de 6 milhões de quilômetros quadrados para absorver CO₂.
Mesmo com essas medidas extremas, os estudos apontam que a temperatura ainda poderia atingir um pico de 1,7°C em 2045 antes de começar a recuar.
Assim, a velha imagem de São Paulo como uma cidade capaz de apresentar “quatro estações em um dia” pode estar dando lugar a uma característica ainda mais marcante: uma capital mais quente e com maior frequência de temporais.
Fonte: G1



