Criminosos que aplicam o golpe da falsa central bancária não precisam invadir computadores nem descobrir senhas para roubar dinheiro. Em muitos casos, a própria vítima é convencida a realizar transferências e outras operações acreditando que está seguindo instruções para proteger a conta. Em um dos casos relatados, o prejuízo chegou a R$ 600 mil.
A fraude costuma começar com uma ligação ou mensagem que aparenta ser legítima. O criminoso pode saber o nome da vítima, utilizar a foto do gerente verdadeiro e até fazer a chamada a partir de um número associado ao profissional. Em seguida, cria uma situação de emergência, como uma suposta compra, transferência suspeita ou invasão da conta.
A intenção é provocar medo e fazer com que a pessoa tome decisões rapidamente, antes de ter tempo para desconfiar.
“É uma espécie de hackeamento da mente”, explicou um especialista ouvido pelo Fantástico.

A estratégia utiliza principalmente dois gatilhos psicológicos: autoridade e urgência. O criminoso pode se apresentar como gerente, funcionário da auditoria ou especialista do setor de segurança e, logo depois, afirmar que existe um problema que precisa ser solucionado imediatamente.
Um dos argumentos usados é: “Você precisa fazer isso agora porque daqui a dez minutos a sua conta será totalmente zerada”.
Com medo de perder o dinheiro, a vítima passa a acreditar que está seguindo um procedimento de segurança. Na realidade, está sendo conduzida pelo próprio golpista para movimentar os recursos.
Advogado perdeu cerca de R$ 600 mil
Um advogado do Paraná foi vítima desse tipo de fraude. Ele preferiu não ter a identidade revelada e também não quis participar de uma gravação presencial.
A abordagem começou com uma mensagem que aparentava ter sido enviada pela gerente do banco. A suposta funcionária perguntou se ele reconhecia um pagamento e enviou um comprovante contendo informações pessoais, entre elas o CPF e o valor da operação.
Para reforçar a aparência de legitimidade, a mensagem orientava o cliente a não clicar em links nem realizar pagamentos.
Depois, ele recebeu a informação de que um especialista da área de segurança entraria em contato.
Era outro criminoso.
De acordo com o advogado, a mulher que assumiu a ligação passou a orientá-lo em procedimentos dentro do aplicativo bancário. Ela afirmava que seria necessário acessar códigos e realizar operações para cancelar transações suspeitas.
“Começa a te envolver psicologicamente”, relatou.
A preocupação com uma possível invasão da conta fez com que ele continuasse seguindo as instruções recebidas.
“Você já está totalmente consumido por esse abalo, essa falha de autoproteção”, afirmou.
O prejuízo foi de aproximadamente R$ 600 mil. Os criminosos retiraram o dinheiro disponível na conta, utilizaram o cheque especial e ainda contrataram um financiamento em nome da vítima.
Golpe cria falsa sensação de segurança
A estratégia dos criminosos não depende necessariamente de convencer a vítima de uma única vez. O método é conduzi-la gradualmente.
Primeiro, o golpista apresenta um suposto problema. Depois, demonstra conhecer informações verdadeiras sobre a vítima. Em seguida, assume uma posição de autoridade e oferece uma falsa solução.
Por fim, estabelece uma situação de urgência para evitar que a pessoa encerre a conversa e procure o banco por outro canal.
Uma gravação obtida pela reportagem mostra um criminoso que se passava por gerente orientando a vítima durante uma operação no aplicativo.
“Pode clicar em continuar novamente no verdinho.”
A vítima questiona o procedimento:
“Parece um código, mas é dinheiro.”
O golpista continua conduzindo a operação e afirma que o procedimento faria parte da proteção da conta.
A fraude só termina depois que o dinheiro é movimentado.
Informações pessoais tornam golpe mais convincente
O conhecimento de dados pessoais é outro fator que aumenta a eficácia da fraude. Os criminosos podem ter acesso ao nome, CPF, informações bancárias e outros dados da vítima, tornando a conversa mais convincente.
A abordagem pode incluir ainda uma falsa identificação do banco e características do gerente verdadeiro.
Com o avanço da tecnologia, os golpes também ficaram mais sofisticados. Já existem relatos de vítimas que afirmaram ter ouvido uma voz praticamente idêntica à de um gerente conhecido.
A inteligência artificial pode ser utilizada para reproduzir vozes e tornar as ligações ainda mais convincentes.
“Já tive relatos assim, e aí a vítima acredita piamente que está falando com o gerente bancário”, relatou um especialista.
Quadrilhas aplicam golpe em larga escala
Os criminosos também trabalham com abordagens em massa. A estratégia é repetida com dezenas de pessoas, sem a expectativa de que todas sejam enganadas.
“Evidentemente que o criminoso não espera sucesso em todas, mas no mínimo que ele alcança, ele já acaba causando um prejuízo muito significativo para a vítima de forma individual e para toda a sociedade”, explicou um investigador.
Por trás das ligações podem existir quadrilhas divididas em diferentes funções. Enquanto uma equipe entra em contato com as vítimas, outra pode atuar na obtenção de dados. Há ainda grupos responsáveis pela criação de sites falsos ou pela movimentação do dinheiro roubado.
Segundo investigadores, quadrilhas de diferentes estados podem atuar em conjunto. Há também casos de pessoas envolvidas nas fraudes que estão fora do Brasil.
Dinheiro passa por várias contas
Depois que a vítima realiza uma transferência, os valores podem circular rapidamente por diferentes contas bancárias. A prática dificulta o rastreamento e reduz as chances de recuperação do dinheiro.
“Esse fluxo financeiro acaba sendo redirecionado para múltiplas contas para tentar ocultar esse valor financeiro”, explicou um especialista.
Por esse motivo, comunicar o banco rapidamente após perceber a fraude pode ser determinante para tentar recuperar os valores.
O advogado do Paraná, porém, não conseguiu ser ressarcido pelo prejuízo de aproximadamente R$ 600 mil. Além do dinheiro retirado da conta, ele ficou com o cheque especial utilizado pelos criminosos e com um financiamento contratado em seu nome.
“Você sai de vítima para inadimplente, sem recurso, sem amparo”, afirmou.
Como se proteger do golpe da falsa central
A principal recomendação é desconfiar de qualquer contato que crie uma situação emergencial e peça ao cliente para realizar operações com a justificativa de proteger a própria conta.
Os bancos não solicitam que clientes façam transferências para uma conta indicada por um suposto funcionário para cancelar uma operação ou proteger o dinheiro.
Também não devem ser fornecidas senhas, tokens ou códigos de segurança durante uma ligação recebida.
A orientação é interromper o contato e procurar a instituição financeira por um canal oficial, preferencialmente pelo aplicativo, pelo telefone indicado no cartão ou por outro meio que já seja conhecido pelo cliente.
A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mantém um portal com informações sobre diferentes modalidades de golpes e orientações para prevenção.
Fonte: FANTÁSTICO



