Facções criminosas passaram a utilizar drones carregados com explosivos em áreas do Rio de Janeiro disputadas por grupos rivais. Imagens obtidas pela polícia e registros feitos por moradores revelam ataques, danos a imóveis, pessoas feridas e o medo crescente entre quem vive nessas comunidades.
Em um dos vídeos, moradores percebem a aproximação de um drone transportando uma granada. Um homem alerta a mãe momentos antes da explosão:
“Mãe, o drone com a granada aqui, ó! (…) Vai soltar aqui na rua! Soltou.”
Logo depois, é possível ouvir o artefato explodindo.

O temor também acompanha moradores dentro das próprias residências. Uma mulher descreve a sensação de insegurança provocada pelos ataques:
“A gente vive com muito medo mesmo dentro do nosso quintal, mesmo dentro de casa.”
Um dos episódios analisados pelo Fantástico foi registrado pelo próprio drone utilizado pelos criminosos. As imagens, posteriormente obtidas pela polícia, mostram uma bomba caseira sendo lançada em direção a um carro onde estariam integrantes de uma facção rival.
Após a explosão, os envolvidos podem ser ouvidos comemorando.
Dois homens aparecem correndo ao lado do veículo e um deles é atingido. Registros feitos por moradores mostram ferimentos na perna da vítima e marcas provocadas por estilhaços na lateral do automóvel.
O ataque ocorreu durante o dia, em uma área onde havia circulação de moradores.
As explosões também têm atingido residências. Em uma casa, uma bomba explodiu ao alcançar o telhado e destruiu parte da cozinha e de um quarto. Em outra comunidade, um explosivo caiu sobre uma árvore no quintal de um imóvel e estourou uma janela.
Um morador afirmou que as explosões passaram a ser frequentes na região e que a violência já afeta pessoas sem qualquer relação com a disputa entre as facções. Ele citou a própria filha, que costuma andar de bicicleta pelo local.
Outro morador relatou ter sido atingido por estilhaços durante um dos ataques.
“E quando falaram: ‘Olha o drone, olha o drone’, eu só ouvia esse barulho da hélice e um barulhão, um clarão e todo mundo gritando. (…) Acertou minha perna, o estilhaço acertou minha perna.”
De acordo com a polícia, os artefatos empregados nesses ataques são granadas improvisadas conhecidas como “bombas tubo”. Elas são produzidas com tubos de PVC preenchidos com pólvora, parafusos e cacos de vidro.
Durante quase dois meses, a equipe acompanhou do alto a rotina de comunidades dominadas por organizações criminosas. As imagens registraram ruas onde homens circulam armados com fuzis, além de barricadas, trincheiras e pontos de venda de drogas próximos a residências.
Em uma das cenas, uma mulher aparece cuidando de um bebê enquanto traficantes armados comercializam drogas no térreo do imóvel.
Em outro registro, uma festa de aniversário com brinquedos destinados a crianças acontece ao lado de um homem armado com um fuzil.
Na semana passada, segundo imagens feitas por moradores, explosivos lançados por um drone atingiram uma festa de rua. Duas crianças e um homem ficaram feridos.
A presença dessas aeronaves também passou a alterar a rotina dos espaços públicos. Na Favela do Quitungo, na Zona Norte do Rio, campos de futebol permanecem vazios durante a noite. Diante do menor sinal de um drone, até mesmo criminosos evitam ficar em áreas abertas.
Em algumas comunidades, traficantes começaram a instalar coberturas sobre as ruas para dificultar ataques vindos do alto.
Segundo o delegado Marcos Mota, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (COANT), essas estruturas funcionam como proteção contra o lançamento de explosivos.
“O emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades é pra evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo.”
A disputa entre os grupos criminosos também chegou aos equipamentos destinados a detectar e impedir a operação dos drones.
Segundo fontes ouvidas pela reportagem, traficantes passaram a utilizar aparelhos capazes de identificar esses equipamentos no céu e as chamadas “bazucas antidrone”, que interrompem a comunicação entre o drone e a pessoa responsável pelo controle.
Para Marcos Mota, possuir esse tipo de tecnologia pode representar uma vantagem na disputa territorial.
“Você ganha olhos no céu (…) A gente está falando aqui de disputa de espaço aéreo”, afirma.
O delegado também ressalta que a expansão do uso dessas tecnologias exige acompanhamento constante das forças de segurança.
“É uma realidade que se impôs e nós não podemos fechar os olhos, a gente tem que compreender o fenômeno e tentar antecipar o que vai vir no futuro.”
Dados do Disque Denúncia indicam crescimento no registro de drones utilizados com explosivos. O primeiro relato de um aparelho equipado com granada foi feito em 2023.
Em 2024, foram registradas quatro ocorrências.
No ano passado, houve 73 denúncias envolvendo traficantes e outras 14 relacionadas a milicianos que, segundo os registros, também utilizam drones para lançar granadas e explosivos.
O emprego dessas aeronaves adiciona uma nova dimensão à disputa que já ocorre nas ruas. Para os moradores das comunidades, a violência das facções passou a representar também uma ameaça que pode chegar pelo céu.
Procurado pela reportagem, o Departamento de Controle do Espaço Aéreo (DECEA) informou, por meio de nota, que realiza a gestão do espaço aéreo brasileiro com foco na segurança e na regularidade da navegação.
O órgão acrescentou que, por se tratar de fatos que podem envolver investigação criminal, eventuais informações ou providências devem ser solicitadas às autoridades responsáveis pela segurança pública.
A Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) também informou, em nota, que a segurança das rotas utilizadas por drones nas proximidades de aeroportos envolve articulações com a Polícia Federal e o Ministério da Justiça e Segurança Pública. Segundo a agência, ela participa dessas articulações quando é demandada.
No Rio de Janeiro, a Secretaria de Segurança Pública afirmou reconhecer os riscos representados pelo uso de drones por organizações criminosas.
De acordo com a pasta, o enfrentamento desse problema exige integração com o governo federal, que deverá destinar drones e equipamentos antidrone para reforçar a atuação das forças de segurança.
A secretaria informou ainda que criou uma divisão especializada para combater esse tipo de crime.
Fonte: FANTÁSTICO



