Ex-comandante da Aeronáutica diz que Forças Armadas perderam confiabilidade durante governo Bolsonaro

O ex-comandante da Aeronáutica Carlos de Almeida Baptista Junior afirmou que as Forças Armadas perderam confiabilidade durante o governo de Jair Bolsonaro. A avaliação foi feita em entrevista concedida por ocasião do lançamento do livro “Eu disse NÃO: uma trincheira antigolpista”, da Autêntica Editora.

Baptista Junior, que comandou a Força Aérea durante a gestão Bolsonaro, relata na obra os bastidores da resistência dentro das Forças Armadas às pressões para que o então presidente permanecesse no poder após a derrota para Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições de 2022.

Testemunha central no processo que condenou Bolsonaro e militares do primeiro escalão de seu governo à prisão por tentativa de golpe, o ex-comandante falou sobre os momentos de maior tensão daquele período, o rompimento com Walter Braga Netto e os impactos que, em sua avaliação, o governo provocou sobre a imagem das Forças Armadas.

Questionado sobre a decisão de lançar o livro durante o período eleitoral, Baptista Junior disse que não pretende interferir nas eleições.

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“Muitas pessoas começaram a dizer que eu estava lançando no período eleitoral para influenciar as eleições. Não tenho a menor intenção que um livro influencie hoje no Brasil as eleições dentro dessa polarização enorme. Não escrevi o livro para ser um instrumento de propaganda eleitoral para nenhum dos candidatos. No último capítulo, falo que nós também somos os culpados das mazelas do Brasil. Isso passa pelo nosso voto. E não só o voto para presidente. Achei que, se desse tempo, seria bom que algumas pessoas pudessem ler e entender essa reflexão para não nos colocarmos na posição de vítima nem de culpado.”

Sobre o motivo de não ter publicado o relato anteriormente, afirmou que não poderia fazê-lo enquanto estava na ativa e também não considerava adequado lançar a obra enquanto estavam em andamento as ações no Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à tentativa de golpe.

“Primeiramente, eu não podia fazer isso enquanto estava na ativa. Depois, eu não ia lançar o livro durante o período em que as ações do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a tentativa de golpe estavam em andamento. Era inimaginável eu testemunhar e escrever um livro logo depois. E, em terceiro lugar, leva tempo para escrever um livro, encontrar uma editora. Quando vi a possibilidade de lançá-lo antes das eleições, achei que seria bom.”

Baptista Junior também afirmou considerar cada vez menos provável que o Brasil volte a enfrentar uma tentativa semelhante de ruptura institucional, embora não descarte completamente essa possibilidade.

“Acho que a cada dia é menos provável, mas não acho impossível.”

Ao comentar a dificuldade de parte da população em acreditar na tentativa de golpe, o ex-comandante relacionou o fenômeno ao populismo e à forma como eleitores assimilam discursos políticos.

“O populismo só existe porque há quem acredite em qualquer coisa que um populista fala. Hoje, só existe um populista Lula ou um populista Bolsonaro porque seus seguidores acreditam naquilo que eles falam. Acreditam que esse é o mito, acreditam que aquele é o pai dos pobres. Isso são construções políticas. Temos um processo mental que nos leva a compreender e a filtrar aquilo que a gente não gosta e só aprovar aquilo em que já temos alguma tendência a acreditar.”

Baptista Junior disse ainda que não imaginava que Bolsonaro avançaria tanto na tentativa de permanecer no poder porque, segundo ele, o então presidente sabia que não teria apoio unânime das Forças Armadas.

“Eu não achei que ele fosse tão longe porque Bolsonaro sabia que não ia ter unanimidade nas Forças Armadas para um golpe. Não foi surpresa para ele não ter unanimidade. Teria um defeito de raciocínio muito grande para acreditar nisso. Então não sei se ele tem ou não.”

Ao relembrar sua chegada ao comando da Aeronáutica, em meio à crise que resultou na saída do ministro da Defesa e dos comandantes das Forças, afirmou não se arrepender de ter aceitado o cargo.

“De maneira alguma. Eu estava indicado para ir para Nova Iorque servir dois anos na ONU. Já tinha vendido algumas coisas de casa. E eu trocaria isso para comandar a Força Aérea por um mês. Isso não é diálogo de demagogo, não. Você imagina, depois de 40 anos passando por tantas funções que eu passei, eu achava que podia fazer a diferença na instituição que é a minha casa. Meu pai comandou a Força Aérea. Eu queria tentar dar um foco mais operacional para a Força Aérea, cumprindo a missão de defesa da pátria. Estava muito confortável com isso. Não estava confortável com essa parte política.”

Sobre a presença de militares no governo Bolsonaro, Baptista Junior avaliou que houve integrantes demais das Forças Armadas no primeiro escalão, embora tenha considerado positiva a participação em empresas estatais e alguns órgãos de previdência.

“Creio que foram militares demais no primeiro escalão. Nas empresas estatais e alguns órgãos de previdência, acho que os militares foram muito bem.”

O ex-comandante também explicou por que sugeriu antecipar a troca de comando das Forças Armadas antes da posse de Lula.

“Naquela tensão, entre os dias 14 e 22 de novembro de 2022, eu achei que nós precisaríamos dar alguns recados para a sociedade. Na minha cabeça, era uma maneira de mostrar que não haveria ruptura institucional porque nós iríamos passar o comando das Forças para os escolhidos pelo presidente eleito. Ou seja, nós não vamos continuar como comandantes porque haverá mudança de governo.”

Segundo ele, a proposta acabou sendo interpretada de forma diferente e gerou a percepção de que os comandantes não queriam prestar continência ao presidente eleito.

“Repercutiu como uma crise, como o desejo de não prestar continência para o presidente eleito. Isso não existe. A continência é um ato de saudação à autoridade, não à pessoa. Todos os militares devem continência ao presidente da República, seja quem for. Vi que a repercussão não era bem aquela que tínhamos previsto. Almocei com o ministro Múcio e ele colocou seu desconforto com essa passagem antecipada de comando. Eu disse que o objetivo era dar um recado claro sobre a transição. Ele pediu para eu passar o comando após a posse de Lula. Como o Múcio é imbrigável, alterei a data para tudo correr dentro da normalidade.”

Baptista Junior apontou os dias 14, 22 e 24 de novembro de 2022 como os momentos de maior tensão.

“Os dias 14, 22 e 24 de novembro de 2022 foram muito tensos, todos eles. Foi quando o presidente Bolsonaro acreditou na possibilidade do Instituto Voto Legal ter achado um erro nas urnas.”

O ex-comandante contou ainda ter conversado com Bolsonaro cerca de dez dias depois dos atos de 8 de janeiro, quando viu uma entrevista do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, atribuindo aos militares parte dos erros do ex-presidente.

“Uns 10 dias depois do 8 de janeiro vi uma televisão com uma tarja embaixo de uma entrevista do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, dizendo que muitos dos erros de Bolsonaro eram culpa dos militares. Quando vi aquilo, tirei uma foto da tela e mandei para ele, que estava nos Estados Unidos. Em seguida, ele me ligou. Eu falei: ‘Presidente, olha aqui o que está acontecendo. Depois de tudo isso, quem vai levar toda essa carga são as Forças Armadas. O senhor podia ter acabado com isso.’ Ele respondeu que não seria capaz de mudar o pensamento dessas pessoas. Eu acho que ele podia ter mandado todo mundo para casa, reconhecido a derrota.”

Ao avaliar os efeitos da gestão Bolsonaro sobre os militares, Baptista Junior afirmou que as Forças Armadas perderam confiabilidade perante parte da sociedade.

“As Forças perderam confiabilidade, talvez seja essa palavra. Porque sempre houve uma parte da sociedade, até pelo nosso processo histórico, que não tinha um bom alinhamento, uma boa percepção das Forças Armadas, e agora esse leque ampliou. Mas confio que as Forças Armadas vão recuperar essa confiabilidade mantendo sua postura de Estado, de que não estão aqui para defender A ou B.”

Ele também relatou que os meses anteriores e posteriores às eleições foram particularmente difíceis em razão das reuniões sobre fiscalização das urnas e das trocas de mensagens entre o Ministério da Defesa e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

“Os meses de novembro e os anteriores foram muito difíceis por conta das reuniões da fiscalização das urnas e das trocas de mensagens entre o Ministério da Defesa e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). O apoio da minha esposa foi fundamental. A quadra de tênis me ajudou a descarregar energia também.”

Baptista Junior, que relata sofrer de insônia, afirmou que manteve convicção sobre a necessidade de cumprir a lei, mesmo diante de críticas de antigos amigos.

“Eu tinha muita convicção do que deveria ser feito. Não cura insônia, mas garante que você não tenha no futuro um arrependimento. Mostro no livro a quantidade de amigos que devo ter perdido, que acham que não aceitar um golpe é apoiar alguma atitude do outro governo. Eles diziam: ‘O BJ não aprovou o golpe porque concorda com a corrupção’. Eu não concordo com os excessos de poder, eu não concordo com muitas coisas que há de errado no país em todos os governos. Mas o golpe não é a solução desses problemas. Só ia trocar o sinal da equação. O que eu fiz foi cumprir a lei, e não quero ser herói por causa disso. Ninguém deveria ser herói por cumprir a lei ao não apoiar o golpe.”

Ao falar sobre os custos pessoais dessa posição, destacou principalmente o rompimento de amizades e citou o episódio envolvendo Walter Braga Netto.

“Senti muito perder amigos, mas minha amizade com essas pessoas não pode depender delas ficarem fazendo uma revolução ou um golpe de Estado em grupos de WhatsApp, fragilizando a postura legalista da Força Aérea que eles serviram ou da instituição que disseram amar e proteger. Mas o pior foi ouvir um grande amigo mandar um major atacar os comandantes da Força Aérea, do Exército e suas famílias. Colocar a família nisso passou do limite, e tenho certeza de que Braga Neto se arrependeu.”

Questionado sobre a possibilidade de retomar o contato com Braga Netto, Baptista Junior afirmou que o episódio ainda representa um ponto de ruptura na relação entre os dois.

“Ainda me machuca muito ele ter mandado ferrar com a família. Isso é um ponto de ruptura. Em alguns aspectos, acho que ou é zero, ou é um. Eu não sei se, depois que virar zero, tem como voltar a ser um.”

Fonte: OGLOBO