Imagens feitas pela polícia mostram uma grande concentração de pessoas em uma quadra onde, segundo as investigações, era realizado um curso de operação de drones no Complexo da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro. A capacitação teria sido promovida por traficantes há cerca de duas semanas.
De acordo com a polícia, o treinamento faz parte do avanço do uso de drones pelo crime organizado. Os equipamentos passaram a ser adaptados para transportar e lançar granadas contra grupos rivais.
Além dos ataques entre facções, o uso irregular dos drones também preocupa pilotos. Alguns equipamentos já foram identificados sobrevoando áreas próximas às rotas de helicópteros e de aeronaves que chegam e saem do Aeroporto de Jacarepaguá, na Zona Oeste.
Segundo um piloto ouvido pelo RJ2, uma eventual colisão pode provocar danos graves e até deixar uma aeronave incontrolável.

Na semana passada, criminosos utilizaram um drone equipado com uma granada para atacar rivais na comunidade do Canal, em Vargem Grande. O explosivo atingiu um trailer, mas ninguém ficou ferido.
Segundo a Polícia Militar, os traficantes alugaram um apartamento na cobertura de um prédio no Recreio dos Bandeirantes e utilizaram o imóvel como ponto de decolagem do equipamento.
O percurso entre o local de lançamento e o ponto onde a bomba foi arremessada tinha aproximadamente dois quilômetros. O drone completou o trajeto em poucos segundos, sobrevoando um terreno vazio, o Rio Morto e áreas residenciais.
A PM prendeu dois homens suspeitos de envolvimento no ataque. Com eles, foram apreendidas outras granadas de fabricação caseira, dinheiro e o drone utilizado na ação.
Um dos desafios para combater o emprego criminoso desses equipamentos é que os drones são comercializados legalmente e podem ser comprados com facilidade pela internet.
O uso, porém, está sujeito a regras de segurança. Existem restrições para operações próximas a aeroportos e helipontos, além da exigência de autorização em determinadas situações no espaço aéreo.
Também é proibido voar acima de 400 pés, aproximadamente 120 metros, nas situações abrangidas pela regulamentação aplicável. Segundo as investigações, essas regras são ignoradas pelos criminosos.
A polícia também encontrou evidências de que integrantes do crime organizado estão ensinando outras pessoas a operar os equipamentos. Imagens produzidas há aproximadamente duas semanas mostram uma fila de interessados em participar de um curso que, de acordo com as investigações, seria oferecido por criminosos no Complexo da Penha.
Outra frente investigada está no Complexo do Alemão, também na Zona Norte. Imagens aéreas obtidas pelo RJ2 mostram ruas e vielas sendo cobertas por estruturas que dificultam o monitoramento realizado por drones.
O levantamento foi feito pela inteligência da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), da Polícia Civil. Os agentes compararam imagens de satélite registradas em novembro de 2025 com imagens aéreas produzidas em fevereiro de 2026.
Em um intervalo de apenas 84 dias, foram identificadas mudanças na paisagem. Em alguns pontos, ruas anteriormente visíveis passaram a ficar escondidas sob telhados.
Em uma das áreas analisadas, um espaço que funcionava como estacionamento recebeu uma cobertura de alvenaria. Em outro ponto, uma laje passou a contar com uma piscina.
As estruturas estão em uma região central do Complexo do Alemão considerada pela polícia de difícil acesso tanto por terra quanto pelo ar. Segundo os investigadores, seria também a área onde estaria escondida a cúpula do Comando Vermelho.
A suspeita da polícia é de que os telhados tenham sido instalados para impedir ataques realizados por facções rivais com explosivos transportados por drones. As coberturas, contudo, também dificultam o monitoramento policial.
“Eu acredito que o emprego principal desses telhados que vêm sendo colocados em algumas comunidades seja evitar o lançamento de artefatos explosivos por facções rivais. Mas, obviamente, isso traz um prejuízo muito grande para o monitoramento feito pela polícia, por exemplo”, afirmou Marcos Motta, coordenador da Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas (Coant).
No Rebu, em Senador Camará, na Zona Oeste, uma rua localizada às margens da linha do trem também está quase completamente coberta. Em abril, a Polícia Civil e a Prefeitura de Niterói destruíram parte de uma estrutura semelhante construída em uma comunidade da cidade.
Segundo a Polícia Civil, o crime organizado passou a empregar drones para monitorar territórios, acompanhar a movimentação das forças policiais e atacar grupos rivais.
Atualmente, a corporação investiga 18 ocorrências envolvendo bombas lançadas por drones e suspeita que o número real de episódios seja maior.
“Hoje o drone não é usado só pela facção. Qualquer criminoso vai fazer o emprego desse drone porque ele traz uma vantagem estratégica, ele ganha olhos no céu”, disse Marcos Motta, da Coant.
Dados do Disque-Denúncia também mostram aumento dos relatos envolvendo drones com explosivos. O primeiro registro de um equipamento carregando uma granada ocorreu em 2023. Em 2024, foram contabilizadas quatro denúncias.
Já em 2025, houve 73 denúncias relacionadas a traficantes e outras 14 envolvendo milicianos.
Fonte: G1



