A Polícia Civil passou a investigar a atuação de dois seguranças acusados pela cirurgiã-dentista Giulia Falcão, de 27 anos, de não terem prestado socorro enquanto ela era agredida pelo marido, Ivo Vel Kos, de 48 anos, em frente à residência do casal, em Pinheiros, na Zona Oeste de São Paulo. A informação foi confirmada pela Secretaria da Segurança Pública (SSP) ao g1 nesta terça-feira (19).
Ivo, empresário conhecido no mercado financeiro, foi preso na madrugada de sábado (15). O advogado de defesa, Davi Gebara, informou que não vai se manifestar neste momento. O empresário se tornou réu por lesão corporal e ameaça.
Segundo a SSP, a conduta dos seguranças está sendo apurada pelo 15º Distrito Policial (Itaim Bibi).
“O caso foi registrado como lesão corporal, ameaça e violência doméstica, sendo relatado à Justiça. Quanto à atuação dos seguranças, os fatos são investigados no 15º DP (Itaim Bibi), que prossegue com as diligências para esclarecer todos os fatos”, afirmou a pasta.

Imagens de câmeras de segurança registraram parte da ocorrência. Nas gravações, o carro do casal chega à rua onde fica a residência e Giulia desce do veículo. Na sequência, Ivo aparece e avança em direção à mulher. As imagens mostram o momento em que ele desfere um soco, fazendo com que ela caia para trás.
Ao g1, Giulia afirmou que os dois seguranças foram omissos e não prestaram ajuda mesmo diante de seus pedidos de socorro.
“Eu desci do carro pedindo socorro aos seguranças da rua. Eles não me ajudaram a pedido do Ivo. Eu chorava, gritava, e eles não faziam nada. Eu gritava pedindo ajuda. Nisso, ele [marido] me desferiu um golpe no rosto e conseguiu me levar para dentro de casa à força, e as agressões continuaram”, relatou.
Segundo ela, as agressões prosseguiram dentro da residência.
“Na casa, eu consegui me trancar no banheiro e tentar ligar pro 190. O telefone não tinha linha. Aproveitei um descuido dele e consegui correr e fugir para a rua novamente aos gritos, o que fez com que todos os vizinhos saíssem e foram eles que me salvaram porque ele ia me matar. Os vizinhos afastaram ele de mim e me acolheram em casa até a chegada da polícia”.
A Justiça de São Paulo concedeu nesta quarta-feira (19) medidas protetivas de urgência a Giulia e determinou a restituição de seus bens pessoais e do veículo de sua propriedade.
Até terça-feira (18), a cirurgiã-dentista relatava que não conseguia entrar na própria residência depois que parentes trocaram a fechadura.
“Eu saí do hospital e fui lá [na casa]. Meus sogros proibiram minha entrada, e o chaveiro estava trocando a fechadura. Eu falava com meus funcionários, e eles estavam com medo. Fizeram isso porque defendem o filho”, disse ao g1.
Com a medida protetiva, Ivo está proibido de manter contato com Giulia por qualquer meio, incluindo comunicação eletrônica, pessoal ou por intermédio de terceiros. A Justiça também fixou distância mínima de 300 metros da vítima, da residência dela, do local de trabalho e de seus familiares.
Ivo é conhecido no mercado financeiro por ter sido sócio-fundador da antiga securitizadora Virgo, localizada na região da Faria Lima. Em 2025, a empresa se envolveu em um escândalo financeiro após ser alvo de uma investigação por fraude.
De acordo com o boletim de ocorrência, Giulia contou que as agressões começaram após uma discussão durante o trajeto de volta para casa, por volta das 23h. Segundo o relato, Ivo teria dado socos no rosto e no corpo dela ainda dentro do carro.
Ao chegarem nas proximidades da residência, a mulher teria tentado sair do veículo para pedir ajuda. Giulia afirmou à polícia que Ivo continuou as agressões utilizando um taco de beisebol e também a ameaçou com uma arma de choque. Ela disse ainda que tentou ligar para a Polícia Militar, mas o marido pegou seu celular.
Ao g1, Giulia afirmou que o percurso entre o local onde estavam e a residência durava aproximadamente oito minutos e que as agressões continuaram depois da chegada à rua do imóvel.
A cirurgiã-dentista publicou nas redes sociais um relato sobre o episódio e fotografias mostrando o rosto. Segundo ela, a decisão de tornar o caso público ocorreu porque, em episódios anteriores, o marido teria negado as agressões.
“Eu vi a morte de perto. Resolvi mostrar para que minha palavra não deixasse de valer diante da dele. Ela já pratica agressão física contra mim desde o namoro e faz tortura psicológica. Meu marido tem uma imagem de bom-moço, homem de honra. Eu já falei em público diversas vezes e, quando ele nega, ninguém acredita [em mim]”, disse.
Segundo o boletim de ocorrência, policiais militares foram acionados pelo Copom para atender ao caso. No local, os agentes ouviram versões diferentes apresentadas pelo casal e constataram que ambos tinham lesões aparentes.
Giulia foi levada à 4ª Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) Norte, onde prestou depoimento e solicitou medida protetiva. Os dois também passaram por exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal (IML).
A delegada de plantão determinou a prisão em flagrante de Ivo por lesão corporal e ameaça, com aplicação da Lei Maria da Penha. Ele também foi indiciado pelos crimes.
Em depoimento, Ivo negou ter agredido Giulia dentro do carro e afirmou que foi atacado por ela com socos e chutes. Segundo sua versão, houve uma discussão depois que o casal retornou de um jantar e Giulia teria ficado alterada após consumir bebidas alcoólicas.
O empresário também negou ter agredido a mulher dentro da residência, usado um taco de beisebol ou feito ameaças com uma arma de choque. Ele declarou ainda que teria sido Giulia quem o ameaçou de morte.
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública informou que um homem de 48 anos foi preso em flagrante na madrugada de sexta-feira (15), na Rua Desembargador Mamede, na Zona Oeste da capital.
“Um homem de 48 anos foi preso em flagrante na madrugada desta sexta-feira (15), na Rua Desembargador Mamede, na zona oeste da capital. A vítima, uma mulher de 27 anos, relatou ter sido agredida, além de ameaçada.
Ambos apresentaram lesões aparentes e foram encaminhados para exame de corpo de delito. O caso foi registrado como lesão corporal, violência doméstica e ameaça na 4ª DDM. A prisão foi convertida em preventiva.”
O Grupo Previx, empresa de segurança que atua na região, contestou a versão apresentada pela defesa e afirmou que é necessário diferenciar dois profissionais que, segundo a companhia, estavam no local.
De acordo com a empresa, um agente do Grupo Previx fazia patrulhamento de rotina quando percebeu a situação e, conforme o relato dele, acionou imediatamente a Polícia Militar. A companhia afirma ainda que o funcionário permaneceu próximo para prestar apoio.
A Previx sustenta que as imagens não mostram esse profissional participando ou auxiliando o agressor a conduzir Giulia para dentro da residência.
Já o homem que, segundo a vítima, teria ajudado a levar a dentista em direção ao imóvel seria, de acordo com a empresa, um segurança local, também chamado de “guariteiro”. A Previx afirma que ele não faz parte de seu quadro de funcionários e não possui vínculo com o grupo.
A empresa declarou lamentar profundamente o episódio, prestar solidariedade a Giulia e permanecer à disposição das autoridades para eventuais esclarecimentos. Também afirmou repudiar qualquer conduta que desrespeite a vontade de uma pessoa, especialmente de uma potencial vítima de violência doméstica.
Fonte: G1



