Pais confundem riso de filha com brincadeira, mas menina tinha crise epiléptica rara em MG

A fotógrafa Alinne Barbosa, de 38 anos, moradora de Contagem (MG), percebeu que algo estava errado quando a filha, Eduarda, de 9 anos, não conseguia parar de rir. O episódio durou mais de uma hora e só deixou de parecer uma brincadeira quando a mãe notou que as pupilas da menina estavam dilatadas. No hospital, a família descobriu que Eduarda apresentava uma crise gelástica, um tipo raro de crise epiléptica caracterizada por risos involuntários.

“Foi assustador. É um misto de sentimentos”, disse Alinne, em entrevista.

Segundo a mãe, tudo começou por volta das 21h, enquanto as duas arrumavam a cozinha depois de um lanche.

“Ela estava me ajudando a arrumar a cozinha depois de lancharmos. Até que ela olhou para mim e começou a gargalhar, sem motivo aparente. Depois de gargalhar bastante com ela, chegou o momento em que aquela situação, até então descontraída, perdeu a graça”, contou.

CONTINUA DEPOIS DA PUBLICIDADE

Alinne chegou a pedir que a filha parasse de rir, mas percebeu que ela não conseguia controlar o comportamento.

“Mas ela continuou a gargalhar. Nesse momento, já havia passado cerca de uma hora desde o início da crise. Fui um pouco mais ríspida com ela, pedindo que parasse de sorrir, e, ao olhar para ela, percebi que estava com o olhar distante. Foi aí que entendi que não se tratava de uma simples crise de riso”, lembrou.

Como é estudante de técnico em enfermagem, Alinne decidiu verificar alguns sinais vitais da filha.

“Aferi os sinais vitais: frequência cardíaca e respiratória, saturação e glicemia. Todos estavam normais, com exceção das pupilas, que estavam dilatadas. Foi, então, que realmente percebi que ela poderia estar sofrendo uma crise epiléptica. Por coincidência, havia estudado sobre crises epilépticas cerca de um mês antes”, relatou.

Ela chamou o marido e levou Eduarda ao hospital. Na triagem, a enfermeira também percebeu a dilatação das pupilas e acionou imediatamente a pediatra, que solicitou uma tomografia de crânio e chamou o neuropediatra.

Durante o exame, Eduarda continuou apresentando a crise.

“Mesmo com o resultado da tomografia normal, a pediatra, juntamente com o neurologista, concluiu que se tratava de uma crise epiléptica gelástica isolada. No caso dela, eles explicaram que a crise poderia ter sido desencadeada por ansiedade ou estresse, que talvez a Eduarda não tivesse conseguido expressar”, afirmou Alinne.

O episódio começou por volta das 21h e seguiu até 1h05 da madrugada, quando a menina finalmente conseguiu dormir depois de horas rindo.

“Por mais que eu já suspeitasse que se tratava de uma crise epiléptica, foi assustador. É um misto de sentimentos. Mas o que me manteve calma, primeiramente, foi Deus e, depois, a informação de que ela não seria considerada uma criança com epilepsia”, destacou a mãe.

Quando Eduarda acordou, Alinne explicou o que havia ocorrido de uma maneira que a menina pudesse compreender.

“Tentei explicar, de forma lúdica e fácil de entender, o que é a crise que ela teve, para que ela pudesse compreender o que aconteceu sem ficar assustada. Ela se lembra de tudo”, afirmou.

Até o momento, Eduarda apresentou apenas esse episódio. A família ainda não sabe qual tratamento será necessário.

“Ainda não sabemos qual tratamento ela vai precisar. Estamos sem plano de saúde e fui até o posto de saúde para tentar conseguir uma consulta com um neurologista, mas ainda estamos aguardando o agendamento. Isso nos preocupa, porque não sabemos quanto tempo vai levar para conseguirmos passar por um especialista”, ressaltou Alinne.

Apesar do susto, segundo a mãe, a menina está bem e mantém a rotina normalmente.

“Está seguindo a vida normalmente, como qualquer criança da idade dela”, disse.

Alinne decidiu publicar no Instagram um vídeo mostrando a crise para alertar outros pais sobre esse tipo de manifestação. A gravação, publicada em 11 de agosto, viralizou e já acumula mais de 9 milhões de visualizações.

“Nunca imaginei que poderia vivenciar uma situação como essa dentro da minha própria casa e com a minha filha. Quando a Eduarda começou a gargalhar, jamais imaginei, naquele primeiro momento, que aquilo pudesse ser uma manifestação epiléptica. Para quem está de fora, pode parecer apenas uma criança rindo sem motivo, e foi justamente isso que aconteceu inicialmente conosco”, afirmou.

Ela disse que decidiu compartilhar a experiência por acreditar que a informação pode ajudar outras famílias a reconhecer sinais incomuns e buscar atendimento médico.

“Acredito que compartilhar a nossa experiência pode ajudar outros pais a reconhecerem sinais que talvez passem despercebidos e a procurarem ajuda médica quando perceberem que algo não está normal”, destacou.

“Não quero causar medo ou preocupação, mas mostrar que informação também é uma forma de cuidado. No nosso caso, perceber que aquele riso não era habitual fez toda a diferença para que buscássemos atendimento e entendêssemos o que estava acontecendo com a Eduarda”, finalizou.

A crise gelástica é um tipo raro de crise epiléptica em que a pessoa apresenta um ataque de riso ou até mesmo um sorriso prolongado que surge sem motivo emocional e não pode ser controlado.

“Diferente de rir de algo engraçado, aqui o riso é ‘desligado’ da emoção — é o cérebro disparando um comportamento de riso por causa de uma descarga elétrica anormal, não porque a pessoa esteja se divertindo. Geralmente, dura menos de um minuto”, explicou Letícia Pereira de Brito Sampaio, neurologista infantil do Hospital Vila Nova Star, da Rede D’Or.

Segundo a especialista, podem ocorrer várias crises sucessivas, com intervalos muito curtos, o que provavelmente aconteceu com Eduarda.

Letícia afirmou que esse tipo de crise é raro dentro do universo das epilepsias e não há um número definido de incidência na população geral.

“Não tem um número de incidência na população geral. Os estudos publicados têm poucos pacientes, o que já indica o quanto esse tipo de crise é incomum e também subdiagnosticado, já que, muitas vezes, passa despercebida até que apareçam sinais mais evidentes”, disse.

Entre os principais sinais estão riso sonoro, que é a manifestação mais comum, ou sorriso prolongado sem motivo aparente. A expressão pode parecer genuinamente emocional ou ser mais mecânica, semelhante a uma careta sem sentimento associado.

Em alguns casos, também podem ocorrer movimentos ritmados de ombros e tronco. A pessoa geralmente permanece consciente durante a crise. O riso também pode ser seguido de olhar parado, gestos automáticos ou até uma crise mais generalizada. A duração média fica entre cerca de 20 segundos e pouco mais de um minuto.

Segundo Letícia, a causa mais frequentemente associada às crises gelásticas, principalmente em crianças, é o hamartoma hipotalâmico, uma pequena malformação localizada no hipotálamo e que não é um tumor maligno.

“Mas, as crises gelásticas também podem vir de lesões em outras áreas, como lobo frontal, temporal, insular ou parietal, por exemplo, displasias corticais, esclerose mesial temporal, pequenos tumores benignos (DNET) ou más-formações do desenvolvimento cortical. Em alguns pacientes a ressonância magnética é normal, sem lesão visível”, explicou.

A neurologista orienta que crianças que apresentem episódios desse tipo sejam levadas a um neurologista, preferencialmente um especialista em epilepsia, o quanto antes.

“Como o riso ‘sem graça’ pode ser confundido com comportamento normal, o diagnóstico costuma demorar, muitas vezes, só é feito quando aparecem sintomas mais graves”, afirmou.

“Por isso, episódios repetidos de riso estereotipado (sempre igual), sem motivo, especialmente se vierem acompanhados de outros sinais (olhar parado, perda de contato, movimentos estranhos), merecem investigação com um exame chamado vídeo-EEG, que grava simultaneamente o comportamento e a atividade elétrica cerebral”, acrescentou.

A especialista também destacou a importância da investigação precoce.

“Quando ligada ao hamartoma hipotalâmico, essa epilepsia pode vir acompanhada de puberdade precoce e dificuldades cognitivas, e o diagnóstico precoce ajuda a orientar o tratamento”, afirmou.

O tratamento depende da causa identificada. Segundo Letícia, normalmente é feita inicialmente uma tentativa de controle com medicamentos antiepilépticos, embora esse tipo de epilepsia possa apresentar resistência aos remédios.

“Primeiro, geralmente se tenta o controle com medicação antiepiléptica, só que, esse tipo de epilepsia costuma ser bastante resistente aos remédios”, disse.

Quando existe uma lesão identificável, como hamartoma, displasia, tumor benigno ou cicatriz no lobo temporal, a cirurgia pode ser a alternativa mais eficaz.

“Quando há uma lesão identificável (hamartoma, displasia, tumor benigno, cicatriz no lobo temporal), a cirurgia costuma ser a opção mais eficaz, removendo ou tratando a lesão responsável pelas crises. Os resultados cirúrgicos são bons: a maioria dos pacientes operados fica livre de crises ou tem melhora significativa”, finalizou.

Fonte: Revista Marie Claire