A personalização de conteúdos e anúncios no TikTok pode ampliar riscos para crianças e adolescentes, segundo especialistas ouvidos pelo GLOBO. O alerta ocorre após a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) afirmar que a plataforma violou a proteção de dados de pelo menos 20% das crianças brasileiras, que tiveram o feed personalizado a partir de informações coletadas sobre o comportamento delas na rede social.
A psicóloga Luisa Sabino, especializada em dependência digital, chama atenção para os efeitos da exposição contínua ao chamado “feed personalizado”. Como o cérebro de crianças e adolescentes ainda está em desenvolvimento, determinados conteúdos e anúncios apresentados repetidamente podem reforçar comportamentos e padrões.
— A primeira infância e, principalmente, a adolescência são fases de formação da identidade, construção da autoestima e desenvolvimento da capacidade crítica. Então, dependendo do conteúdo de um feed extremamente personalizado, ele pode ir reforçando padrões de comparação, determinados ideais de beleza, de estética e de performance. A gente vê também comportamentos de consumo que acabam sendo reforçados. Então, de certa forma, a preocupação principal não é simplesmente a personalização, mas uma certa assimetria entre uma criança que ainda está desenvolvendo seus recursos para compreender e regular suas escolhas e um sistema extremamente sofisticado, que vai aprendendo, a todo minuto, a manter aquela atenção e interação.
Além dos possíveis impactos relacionados ao consumo, Sabino aponta o risco de uma “redução da diversidade da experiência”. Isso ocorre quando a personalização passa a oferecer repetidamente conteúdos semelhantes aos interesses já demonstrados pelo usuário.

— Se eu demonstro interesse por um tipo de conteúdo específico, posso passar a experimentar uma visão de mundo muito mais estreita ou restrita da realidade, nas chamadas bolhas algorítmicas. Então, a gente não está falando apenas sobre o conteúdo que uma criança escolhe consumir, mas também sobre um sistema que escolhe continuamente quais conteúdos serão colocados diante dela. São situações bem delicadas, que precisam de alerta constante.
Segundo a psicóloga, crianças e adolescentes, especialmente os mais novos, possuem capacidade limitada para identificar a intenção existente por trás de determinados conteúdos, sobretudo quando envolvem publicidade. Por esse motivo, ela considera necessária a supervisão dos responsáveis.
— É importante sempre lembrar que o mundo digital é um novo mundo e que as crianças e adolescentes precisam de um certo guia. Precisam ser guiadas tanto no mundo real quanto no mundo digital.
Outro ponto de preocupação envolve a coleta irregular de informações de crianças e adolescentes. A advogada especializada na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) Silvana Campos alerta para a possibilidade de esses dados chegarem às mãos de criminosos.
— Há o risco de criminosos obterem esses dados, coletados indevidamente pelas redes sociais, ou até de funcionários venderem essas informações. Existe um comércio clandestino dos chamados mailings, que são listas de dados sigilosos separadas de acordo com o perfil e o interesse do comprador. Com acesso ao CPF e a outros dados de crianças e adolescentes, criminosos podem abrir contas falsas, aplicar golpes e até rastrear a localização das vítimas para possíveis sequestros. Tudo isso pode se tornar uma forma de manipulação e exploração comercial, com impactos a longo prazo.
Para Campos, apesar do surgimento de novas legislações voltadas à proteção de crianças e adolescentes no ambiente digital, ainda existem dificuldades práticas para fiscalizar as plataformas e garantir a segurança desse público.
— A proteção de dados para menores exige uma mudança real e estrutural na engenharia e no modelo de negócios das empresas de tecnologia, que precisam adotar transparência e mecanismos de consentimento e validação de um maior ou responsável. Não basta apenas a autodeclaração, tem que ter um nível maior de cuidado, fiscalização e também acabar com a publicidade baseada em perfil comportamental, proibindo o uso do rastreamento comercial
A advogada também defende que a responsabilidade pela segurança de crianças e adolescentes na internet seja compartilhada entre plataformas, famílias e órgãos fiscalizadores.
— É responsabilidade das plataformas agir diante de denúncias feitas pelos pais. Esses casos também devem ser analisados pela Agência Nacional de Proteção de Dados. Mas os pais e responsáveis também têm responsabilidade pela proteção dos menores, inclusive pelos atos e prejuízos causados por eles.
A educadora parental Cíntia Matos, por sua vez, considera que os responsáveis não devem limitar a proteção apenas à proibição de determinados conteúdos. Segundo ela, o diálogo e a comunicação com os filhos são fundamentais.
— Não adianta o pai ou a mãe proibir o filho de acessar certos conteúdos se não vai ficar ao lado dele durante todo o tempo em que estiver na internet. Não existe controle parental nem segurança absoluta se não for na base da confiança. O controle parental é necessário para limitar o tempo que essa criança fica no celular, mas não é suficiente para protegê-la do que está exposta ali. O que vai protegê-la do que acontece nas redes sociais, da divulgação de informações pessoais e da exposição a predadores e comportamentos inadequados é, acima de tudo, a comunicação.
Na avaliação de Matos, essa conversa deve abordar de maneira clara os riscos provocados pela exposição e pelo compartilhamento de dados pessoais nas redes sociais.
— Acho que subestimamos muito a capacidade dos nossos filhos de entender. Podemos conversar francamente e explicar: “Filho, olha só, do mesmo jeito que eu não te deixo na rua sozinho, as redes sociais são um ambiente em que a gente não tem controle sobre o que as pessoas fazem”. Embora a gente tenha a impressão de que a pessoa não vai chegar à nossa casa, hoje as pessoas podem ter acesso a muitas informações pessoais por conta das redes sociais, e os filhos precisam saber disso.
A educadora reforça que omitir informações na tentativa de proteger crianças pode impedir que elas desenvolvam uma percepção adequada sobre os riscos presentes no ambiente digital.
— O diálogo deve ser nesse sentido, de dizer exatamente o que está acontecendo, porque, às vezes, na tentativa de poupar a criança e achar que ela não tem idade para entender, omitimos informações que são importantes para que ela desenvolva a noção do risco que corre estando nas redes sociais, compartilhando informações pessoais ou filmando a própria casa e divulgando essas imagens.
Fonte: OGLOBO



