Uma perícia contratada pela Go Up Entertainment, produtora responsável por “Dark Horse”, apontou que 72% dos gastos do filme sobre a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro ocorreram nos Estados Unidos. Além desse dado, outro ponto da prestação de contas chamou a atenção de cinco produtores do mercado audiovisual brasileiro: os valores destinados às etapas iniciais do projeto, considerados muito acima do padrão para produções desse porte.
Segundo a perícia encomendada pela Go Up, a chamada “soft produção”, fase embrionária em que são definidas questões conceituais do filme, consumiu US$ 2,68 milhões. O montante representa 20% do orçamento total de US$ 13,39 milhões, equivalente a R$ 75,18 milhões no cálculo do perito Anísio Costa Castelo Branco.
Em produções cinematográficas, segundo os produtores ouvidos, essa fase costuma representar entre 3% e 5% do orçamento. Outro ponto destacado é que as filmagens realizadas no Brasil custaram menos do que a soma dos valores destinados à “soft produção” e à pré-produção, etapa anterior às gravações que envolve ensaios do elenco e viagens da equipe às locações escolhidas.
O levantamento foi anexado aos autos de uma investigação sigilosa conduzida pela Polícia Civil de São Paulo. Por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino, o material será agora compartilhado com a Polícia Federal.

A Go Up Entertainment é comandada pela jornalista Karina Gama e nunca lançou nenhum filme nos cinemas brasileiros.
Os cinco produtores ouvidos pela equipe do blog classificaram como fora do padrão os gastos registrados na chamada “soft produção” de “Dark Horse”.
No mercado audiovisual, essa etapa, também conhecida como “soft pré”, reúne inicialmente o núcleo central da produção para definir diretrizes criativas e técnicas. É nesse período que começam decisões sobre atores, locações, fotografia — incluindo os tipos de câmeras que serão utilizados — e conceitos de figurino, entre outros aspectos.
“Em média, uma soft tem 10 pessoas, uma pré-produção tem entre 50 e 80 e uma filmagem vai ter entre 100 a 150 pessoas. Não faz o mínimo sentido esses gastos, a soft é apenas para definir conceito. Essa prestação de contas é uma peça de ficção”, disse à equipe do blog um produtor com ampla atuação no mercado.
Na avaliação desse profissional, considerando o orçamento oficial de US$ 13,39 milhões, a etapa deveria ter custado entre US$ 400 mil e US$ 670 mil. O valor corresponderia a apenas 25% dos US$ 2,68 milhões efetivamente informados na perícia contratada pela Go Up.
A pré-produção de “Dark Horse”, por sua vez, teve custo de US$ 2,66 milhões, ligeiramente inferior ao montante gasto na “soft produção”, conforme o documento elaborado pelo perito Castelo Branco.
O número também provocou questionamentos porque a pré-produção exige a mobilização de diferentes equipes, elaboração de figurinos, viagens de preparação técnica para as gravações e ensaios com o elenco escolhido.
De acordo com a perícia encomendada pela Go Up, as duas etapas preliminares ocorreram nos Estados Unidos entre julho e agosto de 2025. As filmagens foram realizadas posteriormente, em outubro, nos Estados Unidos e no Brasil.
Outros números apresentados no documento também foram questionados por profissionais renomados do setor.
“Um custo de ‘soft pré’ e pré-produção mais alto que a produção no Brasil não faz nenhum sentido”, afirmou um segundo produtor que analisou os números de “Dark Horse” a pedido da equipe do blog.
As filmagens no Brasil teriam custado US$ 3,728 milhões, valor inferior aos US$ 5,347 milhões resultantes da soma da “soft produção” e da pré-produção, duas fases que mobilizam um número menor de profissionais.
Segundo a perícia privada contratada pela Go Up, durante as gravações em São Paulo, o filme reuniu 11 atores americanos, mais de 800 figurantes e aproximadamente 350 profissionais.
Entre os gastos classificados na rubrica de produção de “Dark Horse” no Brasil estão cachês do elenco internacional, salários e diárias da equipe, contratação de seguranças privados, emissão de passagens aéreas e despesas com alimentação dos profissionais envolvidos nas filmagens.
“Todo mundo está achando estranho. O que parece é que tem muito dinheiro aí que não foi pro filme”, suspeitou um terceiro produtor que já lançou grandes sucessos comerciais no mercado brasileiro.
Em maio deste ano, “Dark Horse” provocou uma crise na campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República depois que o site Intercept Brasil revelou mensagens nas quais o senador cobrava dinheiro do dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, supostamente para financiar a produção.
Uma das linhas de investigação da Polícia Federal busca esclarecer se os milhões de reais repassados por Vorcaro foram utilizados para custear despesas do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) durante seu autoexílio nos Estados Unidos, onde vive desde fevereiro de 2025.
Quando o episódio veio à tona, Flávio Bolsonaro havia declarado que estava “100% disposto” a apresentar o contrato do projeto. Posteriormente, porém, recuou e vem tentando se desvencilhar das investigações.
“A prestação de contas foi feita dentro da investigação que está acontecendo em São Paulo e a própria imprensa vazou. Da minha parte eu digo, não sou eu que tenho que prestar conta, é o Lula, porque fez reuniãozinha escondida com Augusto Lima e o Vorcaro”, declarou Flávio após participar de uma reunião da diretoria da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).
Conforme informou O GLOBO, a perícia privada contratada pela Go Up não identificou a origem dos recursos repassados pelo fundo Havengate, sediado nos Estados Unidos, para o financiamento do longa-metragem.
O fundo possui ligação com o advogado Paulo Calixto, que atua na defesa e na gerência de interesses de Eduardo Bolsonaro.
O perito contratado pela Go Up afirmou ter tido acesso a notas fiscais, recibos, extratos bancários e ao detalhamento das despesas. Esses documentos, no entanto, não foram anexados.
Questionado sobre os gastos elevados nas etapas de “soft produção” e pré-produção realizadas nos Estados Unidos, Castelo Branco afirmou à equipe da coluna que “esse tema não é de competência da perícia” e disse que os questionamentos deveriam ser direcionados à própria produtora.
Karina Gama, proprietária da Go Up, afirmou que “das cinco etapas do filme, só uma foi realizada no Brasil”.
“Nosso time jurídico está apurando todas as informações e vamos contribuir com todo o trabalho da PF”, declarou.
Karina nunca lançou nenhum filme no Brasil. Além da Go Up, outras duas empresas registradas em seu nome no sistema da Agência Nacional de Cinema (Ancine), a Go7 Assessoria e a ONG Instituto Conhecer Brasil, também nunca registraram nem lançaram produções em território nacional, seja no cinema, na TV aberta ou na TV fechada.
Fonte: OGLOBO



