A Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) formou maioria para manter a decisão do ministro André Mendonça que determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Apesar disso, o julgamento foi interrompido após o ministro Gilmar Mendes pedir vista do processo no plenário virtual. Enquanto a análise permanece suspensa, a decisão de Mendonça continua em vigor.
O julgamento começou às 10h, com André Mendonça votando pela manutenção da própria decisão. Logo em seguida, Gilmar Mendes pediu mais tempo para analisar o caso. Mesmo com o pedido de vista, os demais ministros puderam apresentar seus votos.
Na sequência, Luiz Fux acompanhou Mendonça. Depois, Kassio Nunes Marques também votou no mesmo sentido, formando maioria pela manutenção do afastamento de Andrei Rodrigues. Todas essas manifestações ocorreram em um intervalo de nove minutos.
Apesar da maioria formada, o pedido de vista impede a conclusão formal do julgamento neste momento. Gilmar Mendes tem até 90 dias para devolver o processo ao plenário para que a análise seja retomada.

Quando o julgamento voltar à pauta, os ministros ainda poderão modificar os votos já apresentados. Além de Gilmar, que não votou sobre o mérito, falta a manifestação do ministro Dias Toffoli.
A decisão que determinou o afastamento de Andrei Rodrigues havia sido antecipada pela colunista do GLOBO Malu Gaspar.
André Mendonça decidiu afastar o diretor-geral da Polícia Federal após afirmar ter sido alvo de um “monitoramento sistemático” e ilegal realizado pela área de inteligência da corporação durante mais de um mês.
O ministro citou seis relatórios produzidos entre 3 e 31 de agosto com análises sobre sua atuação e sobre sua relação com o advogado-geral da União, Jorge Messias. A decisão de afastamento foi tomada a partir de um pedido apresentado pelo partido Novo.
Segundo Mendonça, documentos de inteligência produzidos dentro da PF revelam a existência de “monitoramento e coleta dirigida” de informações tanto sobre ele quanto sobre Messias. Para o ministro, a prática representa um “monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país”.
“Em segundo lugar, importa registrar que este relator foi submetido a monitoramento sistemático por parte da inteligência da polícia federal. Conforme consta do já mencionado Ofício 40/2026/GAB/PF, subscrito pelo Diretor-Geral da Polícia Federal, houve a produção de ao menos seis relatórios de inteligência produzidos pela UADIP/CINQ/CGRC/DICOR/PF, os quais teriam sido recebidos por referida autoridade entre os dias 3 e 31 de agosto de 2026. Ou seja, ao menos há mais de 30 dias este relator tem sido monitorado pela Polícia Federal. Trata-se de monitoramento ilícito de Ministro da Suprema Corte do país, o que por si só revela a gravidade da situação”, escreveu Mendonça.
O ministro também afirmou que Alexandre de Moraes já tinha conhecimento da existência dos relatórios antes que eles fossem formalmente encaminhados.
Segundo Mendonça, Andrei Rodrigues enviou o material a Moraes em 1º de setembro. O ministro relacionou essa comunicação à sua inclusão no inquérito das fake news.
“E mais, conforme depreende da própria decisão do Ministro Alexandre de Moraes, previamente, este teria tido ‘notícias da existência’ desses relatórios. Isso significa que, ademais da produção ilícita dos ‘documentos’, foi dada ciência das suas existências a outro Ministro para que este subscritor fosse incluído no Inquérito das Fake News. Registro que o encaminhamento do material correspondente foi feito senhor Andrei Rodrigues, conforme ofício subscrito às 18h45 do dia 01/09/2026”, escreveu Mendonça.
De acordo com o ministro, um dos relatórios levantou a hipótese de que Jorge Messias teria deixado de recorrer para preservar sua “relação política com o relator”.
O próprio documento, entretanto, classificava como baixa a confiança agregada na cadeia de inferências utilizada para sustentar essa hipótese. Mesmo assim, registrava expressamente que as informações autorizavam “monitoramento e coleta dirigida”.
Mendonça utiliza essa passagem para concluir que houve efetivamente uma coleta direcionada de informações sobre ele e sobre o chefe da Advocacia-Geral da União.
O ministro também destacou que o relatório fazia referência a elementos “ainda não registrados em relatórios anteriores” e retomava avaliações anteriores sobre a relação entre os dois. Na avaliação de Mendonça, isso reforçaria o caráter contínuo do acompanhamento.
“Verifica-se que o monitoramento e coleta dirigida de informações deste Ministro relator e do Advogado-Geral da União ocorria ao menos há mais de um mês”, escreveu.
O episódio ocorre em meio a uma crise no Supremo Tribunal Federal. A tensão aumentou na quinta-feira, quando Alexandre de Moraes pediu que André Mendonça fosse investigado pelo que classificou como “indícios de crimes” cometidos pelo colega na condução de inquéritos sob sua relatoria, especialmente o relacionado ao escândalo do Master.
O despacho foi apresentado dois dias depois de Mendonça retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou mensagens de Daniel Vorcaro, dono do banco, ao próprio Alexandre de Moraes.
Ao fazer a demanda à Polícia Federal, Moraes determinou o envio de documentos que mencionassem integrantes do Supremo diante de “diversas informações sobre condutas de autoridades tendentes a afastar a independência” dos magistrados.
Em meio ao conflito, o presidente do STF, Edson Fachin, afirmou na sexta-feira, durante um evento no Palácio do Planalto, que a resposta institucional seria “firme e rigorosa”, mas sem “precipitação”. Segundo ele, a “gravidade” dos fatos não “autoriza atalhos”.
— As instituições precisam ser preservadas, sobretudo nos momentos de maior tensão. Nenhuma autoridade está acima da Constituição. Nenhum Poder está acima da lei. Nenhum interesse circunstancial pode se sobrepor à integridade do Estado democrático de direito — declarou Fachin.
O presidente do Supremo abriu prazo para que Alexandre de Moraes e André Mendonça se manifestem. Também deverão prestar esclarecimentos o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, ambos citados em mensagens de Daniel Vorcaro.



