Diferença de libido no casal pode abalar autoestima; especialistas explicam como lidar

Nem sempre duas pessoas que se gostam desejam sexo com a mesma frequência. A diferença de libido é comum nos relacionamentos e pode variar conforme o momento de vida, a rotina e fatores biológicos, psicológicos, sociais e relacionais. O problema começa quando esse desencontro passa a provocar frustração, insegurança, brigas ou afastamento.

Giovana*, promoter de eventos de 31 anos, vive um relacionamento há sete anos e percebeu desde o início que tinha mais desejo sexual do que o parceiro. A diferença ficou ainda mais evidente quando os dois passaram a morar juntos. “Quando passamos a morar juntos ficou ainda mais clara essa questão porque eu imaginei que pelo menos no início aproveitaríamos vários momentos e não acontecia, era praticamente na mesma frequência de antes”, relata.

Com o tempo, a vida sexual se tornou um dos pontos mais difíceis da relação. Após ganhar peso de forma significativa depois da pandemia, Giovana chegou a pensar que o parceiro havia perdido o interesse por ela ou que pudesse existir outra pessoa.

A percepção começou a mudar quando ela passou a observar outros aspectos do relacionamento. “A virada de chave pra conseguir enxergar que isso não era um problema comigo foi quando consegui perceber que meu relacionamento é muito bom nos outros pontos, que temos muita química, muito amor um pelo outro”, afirma.

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Segundo a ginecologista e sexóloga Erica Mantelli, diferenças no desejo são extremamente comuns entre casais, principalmente em relações duradouras. “Todo casal que fica junto por alguns anos atravessa fases em que um vai querer mais e o outro vai querer menos”, explica.

Para a especialista, a diferença passa a exigir maior atenção quando provoca sofrimento. Angústia, discussões, afastamento do contato físico e desconfiança são sinais de que o casal pode precisar de ajuda.

Não existe uma causa única para a diferença de libido. O desejo sexual sofre influência de fatores biológicos, psicológicos, sociais e da própria dinâmica do relacionamento.

A sexóloga Tamara W. Zanotelli explica que o desejo não permanece igual ao longo da vida. Ciclo menstrual, uso de anticoncepcionais, gravidez, pós-parto, envelhecimento, rotina, esgotamento e experiências anteriores podem mudar a forma como cada pessoa vivencia a sexualidade.

O excesso de demandas também pode interferir. “Quando o cérebro está sobrecarregado com trabalho e demandas do dia a dia, a sobrevivência acaba se tornando extremamente cansativa”, afirma Zanotelli. Nesse cenário, descansar pode se tornar prioridade em relação ao sexo.

Outra diferença está na maneira como o desejo aparece. Mantelli explica que algumas pessoas experimentam o chamado desejo espontâneo, que surge sem necessidade de aproximação anterior, enquanto outras apresentam desejo responsivo, que aparece ou aumenta durante a interação e a estimulação.

Segundo ela, o desejo espontâneo é mais frequente entre homens, enquanto muitas mulheres apresentam desejo responsivo. Quando duas pessoas funcionam de formas diferentes, a situação pode ser interpretada como incompatibilidade, embora possa representar apenas maneiras distintas de experimentar o desejo.

Para quem deseja sexo com mais frequência, recusas repetidas podem deixar de ser percebidas apenas como uma diferença de ritmo e passar a ser entendidas como rejeição pessoal.

Mantelli afirma que uma das primeiras inseguranças costuma atingir a percepção sobre o próprio corpo. A pessoa pode imaginar que deixou de ser atraente, que envelheceu, ganhou peso ou já não desperta interesse. Também pode surgir a suspeita de uma terceira pessoa.

Mulheres com libido mais alta ainda podem enfrentar barreiras culturais. Zanotelli destaca a expectativa social de que o homem seja sempre aquele que toma a iniciativa e apresenta maior desejo sexual.

“Quando a mulher ocupa o lugar da parceria com o maior desejo, ela esbarra ali dentro dessas barreiras culturais e sociais que foram impostas, de que o homem tem que tomar atitude, de que a mulher sempre tem que sentir menos, que ela sempre tem que esperar ele”, explica.

Roberta*, publicitária de 27 anos, viveu essa situação em um relacionamento que durou menos de um ano. Ela conta que demonstrava mais interesse por sexo e falava abertamente sobre o tema, enquanto o parceiro era mais retraído. “Eu estava sempre querendo transar e ele não”, relata.

Em determinado período, os dois chegaram a passar cerca de dois meses sem relações sexuais. Embora o parceiro afirmasse que a ausência de desejo não tinha relação com ela, a situação começou a afetar sua autoestima.

Roberta tentou conversar, mas o tema ficou progressivamente mais difícil de abordar. “Virou meio que um tópico proibido”, lembra. O silêncio, aliado à frustração, contribuiu para o desgaste da relação.

Para Zanotelli, o primeiro passo para lidar com diferenças de libido é evitar transformar desejo em cobrança. A conversa não deve ocorrer durante o sexo ou no momento de frustração, mas em uma situação neutra, quando ambos estejam tranquilos.

A forma de abordar o tema também faz diferença. Em vez de acusações como “você nunca quer”, a orientação é falar sobre a própria experiência, usando frases como “eu sinto falta da nossa intimidade” ou “eu queria entender como a gente pode melhorar isso”.

Mantelli acrescenta que é necessário separar a recusa de uma relação sexual naquele momento da rejeição ao parceiro como pessoa. Quem está com menos desejo também pode explicar se está cansado, estressado ou enfrentando alguma questão pessoal, evitando interpretações equivocadas.

Embora a diferença de libido não signifique necessariamente que exista um problema, alterações bruscas ou persistentes acompanhadas de sofrimento merecem investigação.

Dor, dificuldades de ereção, mudanças após o início de medicamentos e outros sintomas podem indicar a necessidade de avaliação profissional. Questões hormonais, alterações na tireoide, anemia, depressão, problemas de sono e outras condições também podem interferir no desejo.

Dependendo do caso, a avaliação pode envolver profissionais de saúde sexual, ginecologistas ou urologistas. Terapia sexual ou terapia de casal também pode ser considerada quando a diferença provoca brigas, ressentimento, sofrimento ou afastamento.

Outra estratégia apontada pelos especialistas é ampliar a ideia de intimidade. Se todo contato físico precisar obrigatoriamente terminar em sexo, uma recusa à relação sexual pode acabar sendo percebida como rejeição a qualquer forma de proximidade.

Zanotelli sugere criar um “cardápio” de afeto e erotismo, que pode incluir abraços, beijos, massagens, carinhos, conversa erótica ou momentos de proximidade física, sempre sem transformar essas práticas em obrigação ou em uma etapa que necessariamente precise terminar em sexo.

Essa abordagem também pode beneficiar quem apresenta desejo responsivo, já que o interesse sexual pode surgir durante uma interação iniciada sem pressão. “Às vezes, um cafunézinho, uma massagem, tudo isso sem compromisso, às vezes acende, vira aquela chavezinha do prazer”, afirma Zanotelli.

O prazer individual também pode fazer parte das estratégias. Luísa*, estudante de 23 anos e que afirma sempre ter tido libido alta, conta que recorre à masturbação quando deseja sexo e o parceiro não está interessado.

“Quando eu tô a fim de transar, e o meu parceiro não está, eu me masturbo”, diz. Para ela, a prática também funciona como forma de conhecer o próprio corpo e relaxar.

Mantelli afirma que a masturbação pode ajudar alguns casais, mas ressalta que o contexto deve ser levado em consideração. O problema surge quando o prazer individual passa a substituir completamente a intimidade ou é utilizado para evitar conversas sobre a vida sexual.

Para Luísa, experiências com parceiros que tinham menos desejo ou mais dificuldade de conversar sobre sexo reforçaram a importância da comunicação. Hoje, em um relacionamento no qual considera que os dois possuem libido semelhante, ela percebe ainda mais o impacto da abertura para tratar do assunto.

Giovana também passou a enxergar o relacionamento de maneira diferente, valorizando outros aspectos da convivência e percebendo o parceiro como indivíduo para além da vida sexual.

Para Mantelli, o objetivo não precisa ser fazer com que os dois desejem sexo na mesma intensidade. “O casal não precisa ter o mesmo desejo, mas eles precisam ter o mesmo cuidado um com o outro.”

Fonte: Revista Marie Claire