O Ministério Público e as polícias Civil e Militar de São Paulo deflagraram, na manhã desta quinta-feira (10), a Operação Frank Mobile, que busca desarticular uma cadeia criminosa apontada como responsável por levar celulares furtados e roubados das ruas até o mercado formal. A ofensiva prevê o cumprimento de sete mandados de prisão e quase 90 mandados de busca e apreensão contra suspeitos de envolvimento em furtos, roubos, receptação, adulteração e revenda de aparelhos em todo o país.
A investigação mostra que São Paulo registrou centenas de milhares de subtrações de telefones no último ano, com uma média expressiva de ocorrências concentrada na capital paulista. Para os órgãos de segurança e o Ministério Público, trata-se de uma atividade de altíssima lucratividade e velocidade, sustentada por uma cadeia logística dividida rigorosamente em quatro etapas para ampliar os ganhos e dificultar a atuação policial.
A primeira fase começa diretamente nas ruas. Segundo a apuração, os criminosos utilizam diferentes formas de obter os aparelhos, incluindo roubos à mão armada, puxadas rápidas de celulares das mãos de pedestres distraídos e a quebra de vidros de veículos parados no trânsito congestionado para retirar os dispositivos do interior dos carros.
Os investigadores identificaram diferentes fluxos de abastecimento. Entre os celulares posteriormente encontrados na região da Rua 25 de Março, sobretudo no Shopping Mundo Oriental e na Galeria Pagé, predominam aparelhos provenientes de roubos com grave ameaça ou de furtos cometidos mediante a quebra dos vidros de veículos.

Outro caminho leva à Rua Guaianases, no Centro de São Paulo. Nesse caso, os celulares localizados posteriormente na região estão majoritariamente ligados a furtos ocorridos durante grandes eventos, festivais, shows e outras aglomerações públicas.
A investigação cita eventos como Lollapalooza, Parada do Orgulho LGBT+, Virada Cultural, The Town, Tomorrowland e Só Track Boa. Nesses ambientes de grande concentração de pessoas, a atuação seria especializada e baseada em uma divisão de tarefas entre criminosos chamados de “batedores” e “recolhedores”.
Os chamados batedores identificariam vítimas consideradas vulneráveis e executariam os furtos no meio da multidão, aproveitando momentos de distração. Na sequência, os recolhedores receberiam rapidamente os aparelhos retirados das vítimas, estratégia destinada a dificultar a localização em flagrante do autor do furto e acelerar o deslocamento dos celulares para dentro da estrutura criminosa.
A segunda etapa começa praticamente imediatamente após a subtração e envolve a receptação dos dispositivos. Os celulares roubados ou furtados são levados rapidamente a pontos considerados estratégicos para o comércio irregular, com destaque para a região da Rua Guaianases, no centro da capital.
Segundo o Ministério Público, esses endereços funcionariam como uma espécie de centro logístico para receber, guardar, concentrar e redistribuir os aparelhos.
É nesse ponto da cadeia que os celulares também podem chegar às mãos de receptadores especializados em invadir contas bancárias e realizar fraudes financeiras a partir dos dados pessoais e dos aplicativos de pagamento instalados nos dispositivos das vítimas.
A investigação denomina alguns desses operadores de “icloudeiros”. Eles tentariam acessar os aparelhos, redefinir senhas, contornar mecanismos de segurança e chegar tanto às contas vinculadas aos celulares quanto aos sistemas de armazenamento em nuvem.
A finalidade, conforme a apuração, não se limita ao reaproveitamento ou à venda física do telefone. Os “icloudeiros” também tentariam explorar o conteúdo digital das vítimas, buscando acesso a aplicativos bancários, contas pessoais e informações armazenadas nos dispositivos.
Quando o acesso é obtido, principalmente nas situações em que a vítima foi obrigada a entregar suas senhas durante o roubo, os criminosos tentariam realizar transferências por PIX, contratar empréstimos bancários e utilizar outros serviços financeiros, aumentando significativamente o prejuízo causado pelo crime.
A terceira etapa ocorre nos chamados laboratórios clandestinos. São oficinas instaladas em pontos conhecidos do comércio popular de eletrônicos, entre eles o Shopping Mundo Oriental e estabelecimentos da Rua Santa Ifigênia.
Nesses locais, pessoas com conhecimento técnico utilizariam softwares específicos e fariam alterações físicas nos celulares. Entre os procedimentos apontados estão a substituição de placas-mãe, carcaças e telas, numa tentativa de burlar códigos de identificação única, como o IMEI, e eliminar vestígios capazes de permitir o rastreamento do aparelho.
A quarta e última fase é a recolocação desses produtos no mercado. Os celulares podem retornar à circulação inteiros, depois da alteração dos identificadores, ou ser desmontados, com suas peças revendidas separadamente como componentes de reposição.
Segundo a investigação, essa comercialização pode ocorrer tanto por meio de um comércio aparentemente lícito quanto em plataformas virtuais de venda na internet.
A apuração sustenta ainda que empresas aparentemente regulares participariam da engrenagem, emitindo notas fiscais e documentos simulados para conferir uma falsa aparência de legalidade a produtos de origem ilícita.
A Operação Frank Mobile é resultado de uma sequência de investigações realizadas nos últimos anos que passaram a apontar para a existência de um mercado estruturado destinado a absorver, recondicionar e revender celulares roubados e furtados na capital paulista.
O inquérito não teve origem em um único episódio. As suspeitas ganharam força com apreensões realizadas em operações anteriores, análises de celulares apreendidos pela polícia, relatórios de inteligência, rastreamentos de aparelhos subtraídos e o compartilhamento de informações entre diferentes investigações.
Com o avanço das apurações, os elementos passaram a indicar uma estrutura que iria muito além dos responsáveis diretamente pelos roubos e furtos. A cadeia alcançaria receptadores, técnicos encarregados de desbloquear os aparelhos, comerciantes de componentes e empresas que supostamente contribuiriam para fazer os dispositivos chegarem novamente ao mercado formal.
Um dos principais antecedentes mencionados é a Operação Salus et Dignitas, conduzida pelo Ministério Público e pela Polícia Civil na “Cracol”, conforme consta no material da investigação. A partir da quebra e da análise de dados obtidos em aparelhos e equipamentos apreendidos nessa operação, os investigadores identificaram conversas, relações comerciais e movimentações financeiras que apontariam para um sistema dedicado ao reaproveitamento e à comercialização de celulares de origem criminosa.
As descobertas abriram novas frentes de investigação e levaram ao aprofundamento do mapeamento das pessoas supostamente envolvidas.
Paralelamente, a Polícia Civil reuniu informações provenientes de outras investigações patrimoniais e de registros de localização de celulares roubados ou furtados.
Os dados de rastreamento revelaram que diversos aparelhos retirados de vítimas em crimes diferentes acabavam concentrados em determinados endereços da região central de São Paulo, principalmente nos bairros de Santa Ifigênia e Campos Elíseos.
A repetição desses sinais em imóveis específicos foi interpretada como indício de que determinados endereços poderiam funcionar como pontos de recepção, armazenamento e distribuição dos dispositivos.
Segundo os investigadores, a ligação entre os diferentes suspeitos surgiu justamente do cruzamento de provas reunidas em diversas apurações. Conversas recuperadas de celulares apreendidos, equipamentos destinados a desbloqueios, análises fiscais, movimentações financeiras e o acompanhamento das localizações dos aparelhos teriam revelado uma rede integrada.
Ao avaliar os pedidos apresentados durante a investigação, a Justiça destacou que os elementos reunidos pelo Ministério Público indicam continuidade entre as diferentes apurações e apontam para uma possível organização criminosa voltada à exploração econômica de celulares roubados e furtados.
Com base nesses elementos, foram autorizadas prisões temporárias e dezenas de mandados de busca e apreensão em imóveis, estabelecimentos de assistência técnica, empresas e edifícios que apareceram repetidamente como locais onde celulares roubados ou furtados teriam sido localizados.
A Rua Guaianases, no centro de São Paulo, tornou-se um dos pontos mais importantes da investigação por concentrar, há anos, indícios de recepção e circulação de aparelhos provenientes de roubos e furtos.
De acordo com os investigadores, a região aparece de maneira recorrente em operações realizadas ao longo da última década contra esquemas de receptação, adulteração e revenda de eletrônicos. Essa repetição é apontada como sinal de uma estrutura criminosa consolidada, e não apenas de ocorrências isoladas.
A relevância da área ganhou ainda mais destaque durante a Operação Salus et Dignitas e em outras linhas de investigação destinadas a identificar o destino dos celulares roubados na capital.
Somente em pesquisas realizadas nos sistemas policiais com referências à Rua Guaianases foram encontrados mais de 500 registros de ocorrências envolvendo celulares em pouco mais de dois anos. Para os investigadores, o número indica uma intensa movimentação relacionada ao mercado ilegal de aparelhos.
Outro elemento considerado decisivo foi o volume de rastreamentos eletrônicos realizados pelas próprias vítimas.
Centenas de pessoas relataram que os sinais de localização dos celulares roubados ou furtados convergiam para a Rua Guaianases e vias próximas, especialmente as ruas Aurora e Timbiras. As informações foram obtidas com ferramentas de geolocalização disponibilizadas pelos fabricantes e por aplicativos de rastreamento.
Na avaliação dos investigadores, o fato de celulares pertencentes a vítimas sem qualquer ligação entre si apontarem repetidamente para uma mesma região constitui um indício técnico relevante.
A convergência de centenas de rastreamentos independentes sugere, segundo a investigação, que o centro de São Paulo funciona como um importante polo logístico dentro da cadeia de comercialização de celulares de origem ilícita, seja para armazenamento, triagem, desmontagem, desbloqueio ou posterior revenda.
Nesse sistema, a Rua Guaianases ocuparia uma posição central, funcionando como elo entre os grupos responsáveis pelos furtos e roubos, os receptadores que armazenam os dispositivos, os especialistas que tentam desbloqueá-los e os operadores encarregados da revenda ou do reaproveitamento dos aparelhos.
A recorrência de rastreamentos que levam ao mesmo local, envolvendo crimes cometidos em diferentes eventos, regiões da cidade e circunstâncias, é apontada pelos investigadores como evidência da existência de uma estrutura estável para absorver e distribuir celulares provenientes de crimes patrimoniais.
Fonte: G1



