PF mira ONG ligada a Karina da Gama e fornecedores de contrato milionário de wi-fi em São Paulo

A operação da Polícia Federal deflagrada nesta quinta-feira (10) contra a produtora do filme “Dark Horse”, Karina Ferreira da Gama, também alcançou empresas e empresários ligados ao contrato milionário de wi-fi firmado com a Prefeitura de São Paulo. Entre os alvos está o Instituto Conhecer Brasil (ICB), responsável por um contrato anual de R$ 108 milhões com a gestão municipal para a instalação de pontos de internet na periferia da capital.

Além do ICB, fornecedores terceirizados da entidade também são investigados. Entre os alvos estão Karina Ferreira da Gama, dona do Instituto Conhecer Brasil e da Go Up Produções; André Feldman e a esposa, Débora Gomes Feldman, proprietários das empresas Complexsys Soluções Integradas Ltda. e Fastfuture Tecnologias Emergentes Ltda.; William Silva Ferreira, dono da Ultra IP Tecnologia e Serviços Ltda.; Alex Leandro Bispo dos Santos, empresário ligado ao PCC e ex-dono da Favela Conectada, acusado de feminicídio; e Wemerson Marinho da Gama, ex-marido de Karina e ex-dirigente do ICB.

Em entrevista à GloboNews, o prefeito Ricardo Nunes (MDB) negou a existência de irregularidades no contrato mantido entre o instituto e a Prefeitura.

“Foi aberta apuração na Controladoria [Geral do Município] logo no início. Até o momento nenhuma irregularidade no contrato com a prefeitura”, afirmou Nunes.

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A operação foi autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino e investiga suspeitas de peculato, falsidade documental, lavagem de dinheiro, organização criminosa, fraudes e crimes licitatórios. Ao menos 49 mandados de busca e apreensão estão sendo cumpridos pela Polícia Federal.

O filme “Dark Horse”, expressão em inglês que significa “azarão”, contará a história do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). A produção teria sido financiada por Daniel Vorcaro, ex-dono do extinto Banco Master. Apesar da ligação de Karina com o projeto, a produtora Go Up não é alvo da operação desta quinta-feira.

Wemerson Marinho da Gama, ex-marido de Karina, também está entre os alvos. Ele ocupava o cargo de secretário-geral do Instituto Conhecer Brasil quando foi assinado o contrato de wi-fi com a Prefeitura de São Paulo.

Wemerson está em litígio com a ex-mulher pela guarda da filha e é considerado uma fonte importante para esclarecer possíveis ligações de Karina com esquemas envolvendo o deputado federal Mário Frias (PL) e suspeitas relacionadas ao contrato de R$ 108 milhões com o município.

Karina e Wemerson estão rompidos. Após a separação, ela conseguiu na Justiça uma medida protetiva contra o ex-marido. O g1 e a GloboNews procuraram as defesas dos envolvidos, mas não haviam recebido retorno até a publicação das informações.

Uma das frentes do caso envolve uma disputa judicial entre o Instituto Conhecer Brasil e a Ultra IP Tecnologia e Serviços. A empresa terceirizada cobra mais de R$ 4,5 milhões e afirma que houve irregularidades durante a execução do contrato de R$ 108 milhões firmado com a Prefeitura. O ICB, por sua vez, acusa a Ultra IP de descumprimento contratual, interrupção de parte dos serviços e tentativa de extorsão no valor de R$ 2,5 milhões.

A Ultra IP afirma ter sido a única responsável pela instalação de 3.200 pontos de wi-fi do programa municipal, embora parte desses serviços tenha sido atribuída, nas prestações de contas entregues pela ONG ao município, à empresa Favela Conectada Serviços e Tecnologia Ltda.

Em ação judicial, a Ultra IP cobra mais de R$ 4,5 milhões do ICB e cita que a Favela Conectada teria sido utilizada como empresa de fachada para justificar despesas do convênio com a gestão de Ricardo Nunes.

A empresa sustenta que a Favela Conectada recebeu R$ 12 milhões para instalar 2 mil pontos de acesso, mas, segundo a ação, não teria executado os serviços. O ICB contesta as acusações e afirma que a Ultra IP interrompeu aproximadamente 800 links de internet. Karina também acusa William Silva Ferreira de tentar extorquir mais de R$ 2,5 milhões.

A Ultra IP declarou que o inquérito instaurado pelo ICB é “descabido” e que a acusação é falsa. A companhia afirma que o procedimento seria uma retaliação à medida judicial apresentada por ela e sustenta ter tentado chegar a uma composição amigável com o instituto, sem sucesso.

Outro personagem da investigação é Alex Leandro Bispo dos Santos, conhecido como “Escorpião do PCC”, ex-dono da Favela Conectada. Ele está preso preventivamente desde fevereiro, acusado de feminicídio.

Antes da prisão, em janeiro, Alex deixou oficialmente o quadro societário da empresa. Segundo registros da Junta Comercial do Estado de São Paulo, a Favela Conectada passou para o controle de Tatiane Camargo de Oliveira Fernandes, que, conforme a Jucesp, reside no mesmo endereço de Alex, na Rua Ernesto Paglia, na região do Butantã, Zona Oeste de São Paulo.

Após assumir a empresa, Tatiane alterou a razão social para Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda. O g1 informou não ter localizado a defesa dela.

A Ultra IP foi uma das quatro companhias contratadas pelo ICB para realizar de forma terceirizada a instalação dos pontos de wi-fi na periferia. O contrato entre as duas empresas era de R$ 30,7 milhões para a implantação de 5 mil pontos, mas foi rompido unilateralmente em setembro de 2025 sem o pagamento integral do acordo, segundo a Ultra IP, que processa Karina.

Em uma das petições, a empresa afirma que o valor pago por ponto teria sido elevado para R$ 825 com a intenção de zerar artificialmente créditos que ela alegava possuir. A Ultra IP sustenta ter instalado efetivamente 3.200 pontos ao valor de R$ 712 cada.

Além da investigação federal, a Prefeitura de São Paulo cobra de Karina da Gama a devolução de pelo menos R$ 906 mil aos cofres públicos referentes a notas fiscais canceladas. A administração municipal também exige documentos e justificativas relacionados a outros R$ 12 milhões em despesas apresentadas na prestação de contas do contrato de R$ 108 milhões para a instalação dos 3.200 pontos de wi-fi.

Karina também aparece em outro episódio envolvendo emendas parlamentares que teriam sido usadas no financiamento do filme “Dark Horse”. A suspeita é de que políticos do PL, entre eles os ex-deputados Alexandre Ramagem e Carla Zambelli e os deputados Bia Kicis (PL-DF) e Marcos Pollon (PL-MS), tenham destinado emendas a entidades ligadas à empresária para financiar indiretamente a produção.

No processo envolvendo a Ultra IP, os advogados de Karina afirmam que William Silva Ferreira atua de má-fé contra o ICB. A defesa anexou um inquérito instaurado pela Polícia Civil de São Paulo em 5 de maio deste ano, no qual Karina acusa o empresário de tentativa de extorsão.

Segundo o relato feito à polícia, William teria exigido mais de R$ 2,5 milhões para não procurar a imprensa e divulgar informações sobre a relação contratual entre as empresas.

Karina sustenta ainda que, durante mais de um ano de vigência do contrato, a Ultra IP apresentou sucessivos descumprimentos contratuais, inconsistências técnicas e administrativas e relatórios incompatíveis com a execução dos serviços.

A defesa afirma que os problemas culminaram, em 26 de setembro de 2025, na interrupção de aproximadamente 800 links de internet instalados em comunidades da periferia paulistana, afetando a continuidade do programa público e a população atendida.

O registro policial foi realizado pouco mais de um mês após a Ultra IP entrar na Justiça cobrando valores que afirma ter direito a receber.

A Ultra IP, por sua vez, sustenta que a ação judicial ajuizada por ela é exclusivamente probatória e que seu objetivo não é acusar empresas terceirizadas, mas obter documentos e submeter informações já divulgadas publicamente ao Judiciário.

A companhia afirma que nunca declarou que prestadores contratados pelo ICB teriam recebido valores indevidos ou sido utilizados como empresas de fachada. Segundo a Ultra IP, essas informações já haviam sido publicadas pela imprensa antes da ação judicial e foram reproduzidas apenas como parte da documentação apresentada à Justiça.

A empresa também acusa publicações de retirar trechos da ação de contexto e reforça que a formulação de acusações cabe às autoridades policiais e judiciais. Afirma ainda que toda a documentação destinada a comprovar a regularidade de suas atividades já foi entregue às autoridades competentes.

A Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia informou que a relação jurídica da Prefeitura existe exclusivamente com o Instituto Conhecer Brasil e que, conforme a Lei nº 13.019/2014, a escolha e a gestão de fornecedores e terceirizados são responsabilidade da entidade parceira.

A pasta declarou que fiscaliza ativamente a parceria por meio de prestações de contas semestrais e afirmou que esse acompanhamento resultou, em 2025, na determinação de devolução de aproximadamente R$ 2 milhões à conta do projeto, obrigação que teria sido integralmente cumprida pelo ICB.

A secretaria informou ainda que a parceria é fiscalizada por órgãos como Ministério Público, Tribunal de Contas e Controladoria Geral do Município e ressaltou que o programa Wi-fi Livre continua funcionando normalmente.

Além da Ultra IP e da Favela Conectada, atualmente chamada Urban Connect Serviços e Tecnologia Ltda., outras duas empresas aparecem como terceirizadas do ICB: Complexsys Soluções Integradas Ltda. e Fastfuture Tecnologias Emergentes Ltda.

Documentos apresentados pelo próprio instituto à Prefeitura indicam que ambas foram contratadas para realizar atividades de monitoramento e auditoria dos pontos de wi-fi instalados por outras empresas do projeto.

A Complexsys pertence ao empresário André Feldman. A Fastfuture está registrada em nome de sua esposa, Débora Feldman, que se apresenta nas redes sociais como terapeuta holística e não menciona atuação no setor de telecomunicações.

Notas fiscais anexadas às prestações de contas mostram que as duas companhias realizaram serviços semelhantes. Na ação movida pela Ultra IP, porém, André Feldman é descrito como diretor de fato do Instituto Conhecer Brasil e teria participado da administração do projeto ao lado de Karina, inclusive de decisões relacionadas ao rompimento do contrato com a Ultra IP.

A Lei nº 13.019/2014, que estabelece o Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil, não proíbe, em tese, que entidades do terceiro setor contratem empresas ligadas a seus dirigentes. Quando há utilização de recursos públicos, entretanto, esse tipo de contratação pode gerar conflito de interesses ou questionamentos sobre eventual irregularidade, dependendo das circunstâncias.

Apesar das alegações da Ultra IP, André Feldman não consta como diretor em documentos públicos do Instituto Conhecer Brasil entregues à gestão municipal. A empresa, contudo, afirma na ação judicial que companhias da família Feldman fariam parte de uma estrutura descrita por sua defesa como um “balcão de negócios escusos”.

Procurado pelo g1, Feldman negou ter integrado o quadro societário do ICB ou de qualquer empresa vinculada à entidade e afirmou que isso pode ser comprovado em registros públicos.

Ele também declarou que a Complexsys foi contratada exclusivamente para monitorar a rede do programa Wi-Fi Comunidade e garantir o funcionamento do serviço. Feldman classificou como “distorcida e de má-fé” a versão de que teria dado ordens ou participado da gestão operacional do projeto e afirmou que a acusação pode gerar responsabilização civil e criminal.

O empresário acrescentou que existe uma declaração registrada em cartório na qual afirma que a Ultra IP teria atuado deliberadamente para provocar a interrupção da rede pública de internet.

A Complexsys já havia sido alvo de busca e apreensão da Polícia Civil em junho.

Um ex-sócio da empresa, Rodrigo Raveli Bolzan, gerente da SPTuris, foi afastado do cargo pelo prefeito Ricardo Nunes sob suspeita de favorecimento a entidades ligadas a Karina da Gama dentro da estatal de turismo municipal.

Segundo a Jucesp, Raveli entrou na Complexsys em dezembro de 2021 com participação de 33% do negócio, dividido entre ele, André Feldman e Eduardo Ferreira Franco. Em 2021, os três chegaram a firmar um termo de cooperação com a Companhia de Engenharia de Tráfego para disponibilização de tecnologia da empresa aos agentes de trânsito de São Paulo.

Raveli deixou a companhia em abril de 2022, enquanto Eduardo saiu em 27 de março de 2025. Na SPTuris, Rodrigo ocupava o cargo de gerente sênior II e recebia salário mensal de R$ 52 mil.

Segundo Ricardo Nunes, que determinou o afastamento, Raveli é investigado pela Controladoria Geral do Município por sua ligação com uma rede de empresas que presta serviços ao Instituto Conhecer Brasil em contratos com o município.

Eduardo Ferreira Franco, por sua vez, tornou-se dirigente do ICB. As prestações de contas apresentadas à Prefeitura mostram pagamentos do instituto para a Complexsys em 2024, período em que Eduardo ainda era sócio da empresa.

Segundo a Junta Comercial de São Paulo, Eduardo Franco foi o primeiro proprietário da Complexsys Soluções Integradas Ltda., quando a empresa ainda tinha o nome de Complexsys Apoio Aadministrativo Ltda., criada em agosto de 2019. A alteração da razão social ocorreu em 25 de abril de 2022. Atualmente, a companhia tem André Feldman como único proprietário.

Fonte: G1