A apreensão de um submarino carregado com 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza, avaliadas em mais de R$ 2 bilhões, revelou uma mudança importante na geografia do tráfico internacional de drogas. A embarcação foi interceptada em março de 2025 na região do arquipélago dos Açores, em Portugal, durante uma operação conjunta da polícia e da Marinha. O que chamou a atenção das autoridades, além do volume da carga, foi sua origem: Macapá, capital do Amapá, localizada estrategicamente na foz do Rio Amazonas.
O episódio expôs a consolidação da Amazônia brasileira como um dos principais corredores de exportação de cocaína em direção ao continente europeu, sob influência do Comando Vermelho.
A transformação é detalhada no relatório “Amazônia brasileira: novos corredores e controle do narcotráfico transnacional”, lançado pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). Segundo o estudo, o aumento da repressão em portos historicamente utilizados pelo tráfico, como Santos, em São Paulo, e Vila do Conde, no Pará, levou organizações criminosas a procurar rotas alternativas em áreas menos fiscalizadas.
Nesse cenário, o terminal portuário de Santana, no Amapá, passou a ganhar importância. O isolamento geográfico e a menor presença de mecanismos de fiscalização favoreceram o uso da estrutura para o escoamento da cocaína.

— A rota do Rio Solimões já não é a única. O narcotráfico na Amazônia se transformou em um problema complexo e dinâmico. Os criminosos diversificam e adaptam rotas e métodos constantemente para escapar da fiscalização e alcançar o mercado europeu — afirma Gabriel Funari, coordenador da GI-TOC na região amazônica.
Segundo ele, o fluxo vem sendo deslocado para o Amapá.
— O tráfico vem sendo redirecionado para o Amapá. O Porto de Santana não tem escâneres para contêineres, e as inspeções manuais são esporádicas.
A expansão das operações criminosas ocorre paralelamente ao crescimento das apreensões e da violência na região. Entre 2019 e 2024, as apreensões estaduais de cocaína aumentaram 574% e ultrapassaram 162 toneladas. No âmbito federal, o crescimento foi de 84%, chegando a 118 toneladas.
Em 2024, a taxa de homicídios na Amazônia Brasileira atingiu 27,3 casos por 100 mil habitantes, índice 31% superior à média nacional.
No centro desse processo está o Comando Vermelho. A facção, originada no Rio de Janeiro, tornou-se a força dominante na Bacia Amazônica depois de anos de disputas violentas com outros grupos criminosos.
Diferentemente de organizações rivais, o CV utiliza um modelo de gestão mais flexível, permitindo que grupos locais atuem com autonomia em troca de lealdade e acesso às rotas de tráfico. De acordo com o relatório, essa estrutura permitiu à facção controlar pontos logísticos estratégicos que vão das plantações de cocaína no Peru às periferias de Manaus e Macapá.
— O CV é o grande responsável pela consolidação da Amazônia como corredor de escoamento de cocaína para a Europa. Nos últimos 15 anos, houve essa expansão da facção na região, uma resposta estratégica para fugir da fiscalização dos portos no Sudeste e para o domínio da “Rota Caipira” pelo PCC — avalia Funari.
O estudo também apresenta uma linha do tempo da atuação de organizações criminosas na Amazônia. Nos anos 1980, os cartéis colombianos de Medellín e Cali estruturaram a chamada “Rota do Solimões”, conectando áreas produtoras de cocaína do Peru e da Colômbia a Manaus por meio de barcos pesqueiros.
Na década de 1990, após o enfraquecimento dos cartéis colombianos, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, estabeleceram uma aliança com o Comando Vermelho, então liderado por Fernandinho Beira-Mar. O criminoso fluminense seria preso em 2001 em uma região da Colômbia controlada pelas Farc, próxima à fronteira com a Venezuela. A negociação entre os grupos envolvia cocaína em troca de armas brasileiras.
O Primeiro Comando da Capital, o PCC, entrou na Amazônia em 2010 com o objetivo de ampliar as exportações pelo Porto de Vila do Conde, no Pará. Na mesma época, grupos criminosos locais se unificaram na Família do Norte, a FDN.
Depois dos massacres ocorridos em presídios de Manaus em 2017 e 2019, a FDN foi desmantelada e absorvida pelo Comando Vermelho, que passou a exercer hegemonia criminosa em grande parte da Bacia Amazônica.
Manaus continua sendo, segundo o relatório, o principal centro logístico desse corredor. A cidade funciona como ponto de convergência, onde o preço da cocaína é renegociado e as cargas são redistribuídas.
O quilo da droga, vendido por aproximadamente US$ 1 mil nas áreas produtoras do Peru e da Colômbia, chega a cerca de US$ 3,5 mil em Manaus e pode alcançar US$ 5 mil ao deixar a costa brasileira. Nas cidades europeias, o preço no atacado pode chegar a € 70 mil.
A extensão dos rios da Amazônia e a corrupção de agentes públicos aparecem no estudo entre os fatores que facilitam a circulação da droga.
Outro ponto destacado pelo levantamento é o chamado “narcogarimpo”, caracterizado pela convergência entre o narcotráfico e a extração ilegal de ouro. Organizações criminosas utilizam estruturas do garimpo, como pistas clandestinas de pouso e redes de transporte, para movimentar cocaína.
O ouro também passou a ser empregado na lavagem de dinheiro e como forma de pagamento em transações internacionais, aproveitando-se, segundo o relatório, de fragilidades na regulamentação do mercado brasileiro de metais.
A sofisticação das operações também chegou aos portos amazônicos. Assim como ocorre há anos no Porto de Santos, criminosos passaram a contratar mergulhadores profissionais para esconder pacotes de cocaína em compartimentos de navios cargueiros sem o conhecimento das tripulações.
De acordo com o estudo, esses mergulhadores são levados de avião do Rio de Janeiro e de São Paulo para realizar as operações. Muitos seriam ex-militares de elite da Marinha ou ex-bombeiros.
Os mergulhos são realizados durante a noite no Rio Amazonas, em pontos que podem chegar a 30 metros de profundidade e onde a visibilidade é praticamente inexistente.
Em abril de 2024, a Polícia Federal encontrou 150 quilos de cocaína escondidos na caixa de mar, estrutura utilizada para captar água, de um navio atracado no Porto de Santana.
Durante a tentativa de retirada da droga, um bombeiro rompeu o tímpano em razão da profundidade em que a carga estava armazenada. A Polícia Federal precisou convocar mergulhadores especializados de outros estados para conseguir retirar os entorpecentes.
Em junho do ano passado, outra remessa, com 400 quilos de cocaína que seria do Comando Vermelho, foi localizada em uma área rural de Macapá. Um mergulhador viria de outro estado para colocar a droga em navios com destino a Portugal. As embarcações estavam ancoradas na zona de espera do Porto de Santana.
O uso de lanchas blindadas e de aeronaves que sobrevoam a floresta em baixa altitude, dificultando a identificação por radares, também é apontado pelo levantamento como evidência da crescente sofisticação do crime organizado e das limitações enfrentadas pelas forças de segurança locais.
Para conter o avanço dessas operações, Gabriel Funari defende o fortalecimento da cooperação nas fronteiras e investimentos em tecnologia, principalmente na instalação de escâneres para contêineres em portos de menor porte.
Fonte: OGLOBO



