10 mil passos por dia não são regra: ciência mostra benefícios com bem menos

A meta de 10 mil passos por dia se tornou uma referência mundial de saúde, incorporada por relógios, celulares e aplicativos. Mas, apesar da popularidade, esse número não surgiu a partir de um grande estudo científico nem representa uma fronteira entre uma rotina saudável e uma insuficiente.

A origem da meta remonta ao Japão da década de 1960. Na época, um pedômetro foi lançado com o nome manpo-kei, expressão que pode ser traduzida como “medidor de 10 mil passos”. O número era redondo, fácil de memorizar e comercialmente atraente. Com o passar do tempo, a estratégia de marketing se transformou em uma recomendação popular.

Décadas depois, a ciência passou a investigar de forma mais detalhada quantos passos realmente estão associados a benefícios para a saúde.

Os estudos mostram que não é preciso chegar aos 10 mil passos diários para reduzir riscos.

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Grandes pesquisas identificaram uma relação clara entre caminhar mais e diminuir o risco de morte precoce e de doenças cardiovasculares. Essa associação, porém, não funciona como um limite que só começa a produzir efeito quando o contador atinge cinco dígitos.

Uma análise com mais de 111 mil pessoas encontrou redução de risco já a partir de aproximadamente 2.500 a 2.800 passos por dia. Os maiores benefícios relacionados à mortalidade apareceram em torno de 8.800 passos, enquanto, para eventos cardiovasculares, a curva começou a se estabilizar perto dos 7.200.

Isso significa que caminhar 7 mil passos por dia não representa um resultado insuficiente simplesmente porque a pessoa ficou 3 mil passos abaixo da meta mais conhecida.

Uma grande revisão publicada em 2025 no Lancet Public Health reforçou essa conclusão. Em comparação com pessoas que caminhavam aproximadamente 2 mil passos por dia, aquelas que alcançavam 7 mil apresentavam riscos menores para diferentes problemas de saúde.

A redução observada foi de 47% para mortalidade por todas as causas, 25% para doença cardiovascular e 38% para demência. Também houve diminuição no risco de quedas.

Os resultados não significam, entretanto, que 7 mil passos sejam um novo número mágico. A principal conclusão é que os benefícios aparecem de forma progressiva.

Para uma pessoa extremamente sedentária, aumentar a rotina de 2 mil para 4 mil passos pode representar uma mudança importante. Metas consideradas impossíveis podem provocar desmotivação, enquanto objetivos graduais tendem a favorecer mudanças de comportamento.

A idade também influencia os resultados.

Estudos sugerem que, entre adultos mais jovens, os benefícios continuam aumentando até aproximadamente 8 mil a 10 mil passos diários. Já entre pessoas com 60 anos ou mais, uma parcela significativa dos benefícios parece ser atingida entre 6 mil e 8 mil passos.

Caminhar além dessas faixas pode continuar sendo positivo para condicionamento físico, mobilidade e bem-estar, mas o ganho adicional relacionado à mortalidade tende a ser menor.

Também não há evidência de que ultrapassar os 10 mil passos seja prejudicial para uma pessoa saudável. Quem costuma caminhar 12 mil, 15 mil ou mais passos não precisa reduzir a atividade simplesmente por ter superado esse número.

A questão central é que 10 mil passos não representam um limite fisiológico entre saúde e doença.

O debate também chama atenção para a maneira como métricas passaram a ocupar o cotidiano. Peso, calorias, horas de sono, frequência cardíaca e número de passos são cada vez mais acompanhados em tempo real por dispositivos eletrônicos.

Esses números podem ajudar a estimular atividade física, acompanhar evolução e revelar períodos prolongados de sedentarismo. Ao mesmo tempo, podem criar a impressão equivocada de que existe uma linha exata separando o suficiente do insuficiente.

Se uma pessoa termina o dia com 6.500 passos, isso não significa que os benefícios da atividade foram perdidos por faltar 3.500 para chegar aos 10 mil. Caminhadas até o mercado, escadas usadas no lugar do elevador, trajetos feitos a pé e voltas depois das refeições também contribuem para o movimento diário.

Por isso, mais importante do que perseguir obsessivamente um valor fixo pode ser aumentar progressivamente o número de passos em relação à própria rotina.

A meta de 10 mil passos nasceu de uma campanha de marketing, mas acabou produzindo um efeito positivo ao incentivar milhões de pessoas a caminhar. A ciência, porém, mostra que os benefícios começam muito antes.

O recado é simples: não é necessário atingir 10 mil passos todos os dias para melhorar a saúde. Caminhar mais do que se caminha atualmente já pode fazer diferença.

Fonte: OGLOBO