Um rim transplantado em 1969, quando os transplantes ainda davam os primeiros passos no Brasil, continua funcionando no corpo da paciente Maria Célia, que chegou aos 111 anos de idade biológica do órgão. O rim foi doado pela mãe dela, Guiomar, que tinha 54 anos na época da cirurgia.
A história de Maria Célia foi contada ao médico Drauzio Varella em uma reportagem exibida pelo Fantástico. O primeiro transplante renal realizado no Brasil ocorreu em 1964. Cinco anos depois, quando Maria Célia recebeu o rim da mãe, o país realizava menos de 50 transplantes por ano.
Na juventude, Maria Célia desenvolveu insuficiência renal, condição em que os rins perdem a capacidade de filtrar adequadamente o sangue. Antes de receber o órgão da mãe, ela passou por três sessões de hemodiálise. A cirurgia durou cinco horas e foi realizada em uma época em que havia poucas opções de medicamentos para prevenir a rejeição.
Também não existiam recursos atualmente comuns na medicina, como ultrassom, tomografia computadorizada e ressonância magnética. O período pós-operatório apresentava ainda diversos riscos.

Apesar das dificuldades, o transplante teve um resultado excepcional. Maria Célia afirma que nunca sofreu rejeição do órgão nem teve intercorrências relacionadas ao procedimento.
“Nunca tive rejeição, nunca tive nenhuma intercorrência, nunca internei”, contou.
Segundo ela, a mãe também manteve uma vida saudável após a doação. Guiomar morreu aos 97 anos.
“Ela nunca ficou doente, ela nunca teve nada. Ela faleceu aos 97 anos, nenhuma complicação, nem nada”, relatou Maria Célia.
As duas passaram a ser associadas a um recorde: o rim compartilhado por mãe e filha chegou aos 111 anos e se tornou o órgão mais antigo do mundo a ter sido transplantado e continuar funcionando em uma pessoa viva.
O médico nefrologista José Medina Pestana explicou que a longevidade do transplante é uma situação excepcional. Mesmo órgãos recebidos de doadores jovens ou falecidos raramente permanecem funcionando por tanto tempo. Segundo ele, a maioria dos transplantes renais apresenta duração entre 20 e 30 anos.
“Primeiro, foi a mãe dela que foi a doadora, então, a chance de o transplante dar certo é um pouco maior. Olhando assim, ela teve bastante sorte”, afirmou Medina.
O especialista também destacou que pessoas que doam um rim em vida precisam manter os mesmos cuidados de saúde recomendados para quem possui os dois órgãos. Entre as orientações estão controlar o peso, não fumar, praticar atividade física regularmente e manter sob controle a pressão arterial e o diabetes.
Atualmente, o cenário brasileiro é muito diferente daquele encontrado em 1969. O país realiza cerca de 27 mil transplantes por ano, sendo aproximadamente 6 mil renais. Os procedimentos são custeados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que também fornece medicamentos para evitar a rejeição do órgão durante toda a vida.
Estima-se que mais de 140 mil pessoas tenham passado por transplantes renais no Brasil. Cinco décadas depois da cirurgia de Maria Célia e Guiomar, o país se tornou o segundo em número de transplantes renais.
A cada dez transplantes de rim realizados no país, oito são provenientes de doadores falecidos, reduzindo a necessidade de doações em vida.
De acordo com Medina, o Brasil possui uma estrutura organizada por meio do Sistema Nacional de Transplantes, que coordena centrais em todos os estados. O médico também afirmou que o país não enfrenta resistência religiosa ou cultural à doação de órgãos e vem registrando crescimento no número de transplantes ano após ano.
Apesar dos avanços, há diferenças importantes entre as regiões brasileiras. “Mesmo assim, tem uma disparidade geográfica muito grande, de acordo com a condição socioeconômica do estado. O maior número de transplantes é realizado na região Sul e na região Sudeste”, afirmou o nefrologista.
Para Maria Célia, a história do órgão recebido da mãe representa uma ligação que atravessou décadas.
“Eu fiquei nove meses dentro da minha mãe e, hoje, ela está aqui dentro de mim. Viva”, disse.
“Muito mais tempo dentro de mim. E vai ficar.”
Fonte: FANTÁSTICO



